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Inocncia
Visconde de Taunay
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Inocncia
Visconde de Taunay
I.O SERTO E O SERTANEJO
Todos vs bem sentis a ao secreta
Da natureza em seu governo eterno,
E de ntimas camadas subterrneas.
Da vida o indicio a superfcie emerge.
(Goethe, Fausto, 2 parte)
Ento com passo tranqilo metia-me eu por algum
recanto
da floresta, algum lugar deserto, onde nada me
indicasse
a mo do homem, me denunciasse a servido e o
domnio;
asilo em que pudesse crer ter primeiro entrado,
onde
nenhum importuno viesse interpor-se entre mim e
a natureza.
(J. J. Rousseau, O Encanto da Solido)
Corta extensa e quase despovoada zona da parte
sul-oriental da vastssima
provncia de Mato Grosso a estrada que da Vila de
Sant.Ana do Paranaba vai ter
ao sitio abandonado de Camapu. Desde aquela
povoao, assente prximo ao
vrtice do ngulo em que confinam os territrios de
So Paulo, Minas Gerais,
Gois e Mato Grosso at ao Rio Sucuri, afluente do
majestoso Paran, isto , no
desenvolvimento de muitas dezenas de lguas,
anda-se comodamente, de habitao
em habitao, mais ou menos chegadas umas s
outras, rareiam, porem, depois as
casas, mais e mais, e caminham-se largas horas,
dias inteiros sem se ver morada
nem gente at ao retiro de Joo Pereira, guarda
avanada daquelas solides,
homem cho e hospitaleiro, que acolhe com carinho
o viajante desses alongados
paramos, oferece-lhe momentneo agasalho e o
prov da matalotagem precisa para
alcanar os campos de Miranda e Pequiri, ou da
Vacaria e Nioac, no Baixo Paraguai.
Ali comea o serto chamado bruto.
Pousos sucedem a pousos, e nenhum teto habitado
ou em runas, nenhuma palhoa ou
tapera d abrigo ao caminhante contra a frialdade
das noites, contra o temporal
que ameaa, ou a chuva que est caindo. Por toda a
parte, a calma da campina no
arroteada; por toda a parte, a vegetao virgem,
como quando a surgiu pela vez primeira.
A estrada que atravessa essas regies incultas
desenrola-se  maneira de
alvejante faixa, aberta que  na areia, elemento
dominante na composio de todo
aquele solo, fertilizado alis por um sem-nmero de
lmpidos e borbulhantes
regatos, ribeires e rios, cujos contingentes so
outros tantos tributrios do
claro e fundo Paran ou, na contravertente, do
correntoso Paraguai.
Essa areia solta, e um tanto grossa, tem cor
uniforme que reverbera com
intensidade os raios do Sol, quando nela batem de
chapa. Em alguns pontos  to
fofa e movedia que os animais das tropas
viageiras arquejam de cansao, ao
vencerem aquele terreno incerto, que lhes foge de
sob os cascos e onde se
enterram at meia canela.
Freqentes so tambm os desvios, que da estrada
partem de um e outro lado e
proporcionam, na mata adjacente, trilha mais firme,
por ser menos pisada.
Se parece sempre igual o aspecto do caminho, em
compensao mui variadas se
mostram as paisagens em torno.
Ora e a perspectiva dos cerrados, no desses
cerrados de arbustos raquticos,
enfezados e retorcidos de So Paulo e Minas Gerais,
mas de garbosas e elevadas
rvores que, se bem no tomem, todas, o corpo de
que so capazes  beira das
guas correntes ou regadas pela linfa dos crregos,
contudo ensombram com
folhuda rama o terreno que lhes fica em derredor e
mostram na casca lisa a fora
da seiva que as alimenta; ora so campos a perder
de vista, cobertos de macega
alta e alourada, ou de viridente e mimosa grama,
toda salpicada de silvestres
flores; ora sucesses de luxuriantes capes, to
regulares e simtricos em sua
disposio que surpreendem e embelezam os olhos;
ora, enfim, charnecas meio
apauladas, meio secas, onde nasce o altivo buriti e
o gravata entrana o seu
tapume espinhoso.
Nesses campos, to diversos pelo matiz das cores,
o capim crescido e ressecado
pelo ardor do Sol transforma-se em vicejante tapete
de relva, quando lavra o
incndio que algum tropeiro, por acaso ou mero
desenfado, ateia com uma falha
do seu isqueiro.
Minando  surda na touceira, queda a vivida
centelha. Corra da a instantes
qualquer aragem, por dbil que seja, e levanta-se a
lngua de fogo esguia e
trmula, como que a contemplar medrosa e
vacilante os espaos imensos que se
alongam diante dela. Soprem ento as auras com
mais fora, e de mil pontos, a um
tempo, rebentam sfregas labaredas que se
enroscam umas nas outras, de sbito se
dividem, deslizam, lambem vastas superfcies,
despedem ao cu rolos de
negrejante fumo e voam, roncando pelos matagais
de tabocas e taquaras, at
esbarrarem de encontro a alguma margem de rio
que no possam transpor, caso no
as tanja para alm o vento, ajudando com valente
flego a larga obra de
destruio.
Acalmado aquele mpeto por falta de alimento, fica
tudo debaixo de espessa
camada de cinzas. O fogo, detido em pontos, aqui,
ali, a consumir com mais
lentido algum estorvo, vai aos poucos morrendo
at se extinguir de todo,
deixando como sinal da avassaladora passagem o
alvacento lenol, que lhe foi
seguindo os velozes passos
Atravs da atmosfera enublada mal pode ento coar
a luz do Sol. A incinerao 
completa, o calor intenso, e nos ares revoltos
volitam palhinhas carboretadas,
detritos, argueiros e grnulos de carvo que
redemoinham, sobem, descem e se
emaranham nos sorvedouros e adelgaadas
trombas, caprichosamente formadas pelas
aragens, ao embaterem umas de encontro s
outras.
Por toda a parte melancolia; de todos os lados
ttricas perspectivas.
 cair, porm, da a dias copiosa chuva, e parece
que uma varinha de fada andou
por aqueles sombrios recantos a traar s pressas
jardins encantados e nunca
vistos. Entra tudo num trabalho intimo de
espantosa atividade. Transborda a
vida. No h ponto em que no brote o capim, em
que no desabrochem rebentes
com o olhar sfrego de quem espreita azada
ocasio para buscar a liberdade,
despedaando as prises de penosa clausura.
Aquela instantnea ressurreio nada, nada pode
pr peias.
Basta uma noite, para que formosa alfombra verde,
verde-claro, verde-gaio,
acetinado, cabra todas as tristezas de h pouco.
Aprimoram-se depois os
esforos; rompem as flores do campo que
desabotoam as carcias da brisa as
delicadas corolas e lhe entregam as primcias dos
seus cndidos perfumes.
Se falham essas chuvas vivificadoras, ento, por
muitos e muitos meses, ai ficam
aquelas campinas, devastadas pelo fogo,
lugubremente iluminadas por avermelhados
clares sem uma sombra, um sorriso, uma
esperana de vida, com todas as suas
opulncias e verdejantes pimpolhos ocultos, como
que raladas de dor e mudo
desespero por no poderem ostentar as riquezas e
galas encerradas no ubertoso seio.
Nessas aflitas paragens, no mais se ouve o piar da
esquiva perdiz, to
freqente antes do incndio. S de vez em quando
ecoa o arrastado guincho de
algum gavio, que paira l em cima ou bordeja ao
chegar-se  terra, a fim de
agarrar um ou outro rptil chamuscado do fogo que
lavrou.
Rompe tambm o silncio o grasnido do caracar,
que aos pulos procura insetos e
cobrinhas ou, junto ao solo, segue o vo dos
urubus, cujos negrejantes bandos,
guiados pelo fino olfato, buscam a carnia
putrefata.
 o caracar comensal do urubu. De parceria se
atira, quando urgido pela fome, 
rs morta e, intrometido como , a custo de alguma
bicada do pouco amvel
conviva, belisca do seu lado no imundo repasto.
Se passa o caracar a vista do gavio, precipita-se
este sobre ele com vo
firme, d-lhe com a ponta da asa, atordoa-o,
atormenta-o s pelo gosto de lhe
mostrar a incontestada superioridade.
Nada, com efeito, o mete em brios.
Pelo contrrio, mal levou dois ou trs encontres do
mido, mas audaz
adversrio, baixa prudente  terra e pe-se ai
desajeitadamente aos saltos.
apresentando o adunco bico ao antagonista, que
com a extremidade das asas
levanta p e cinza, to de perto as arrasta ao cho.
Afinal, de cansado, deixa o gavio o folguedo,
segurando de um bote a
serpesinha, que em custoso rasto, procurava algum
buraco onde fosse, mais a
salvo, pensar as fundas queimaduras.
* * *
Tais so os campos que as chuvas no vm regar.
Com que gosto demanda ento o sertanejo os
capes que l de bem longe se avistam
nas encostas das colinas e baixuras, ao redor de
alguma nascente orlada de
pindabas e buritis?!
Com que alegria no sada os formosos coqueirais,
nncios da linfa que lhe h de
estancar a sede e banhar o afogueado rosto?!
Enfileiram-se s vezes as palmeiras com singular
regularidade na altura e
conformao; mas no raro amontoam-se em
compactos macios, dos quais se
segregam algumas mais e mais, a acompanhar com
as razes qualquer tnue fio
d.gua, que coleia falto de foras e quase a sumirse
na vida areia.
Desde longe do na vista esses capes.
 a princpio um ponto negro, depois uma cpula de
verdura, afinal, mais de
perto, uma ilha de luxuriante rama, osis para os
membros lassos do viajante
exausto de fadiga, para os seus olhos encandeados
e sua garganta abrasada.
Ento, com sofreguido natural, acolhe-se ele ao
sombreado retiro, onde prestes
desarreia a cavalgadura,  qual d liberdade para ir
pastar, entregando-se sem
demora ao sono reparador que lhe trar novo alento
para prosseguir na cansativa jornada.
Ao homem do serto afiguram-se tais momentos
incomparveis acima de tudo quanto
possa idear a imaginao no mais vasto circulo de
ambies.
Satisfeita a sede que lhe secara as fauces, e
comidas umas colheres de farinha
de mandioca ou de milho, adoada com rapadura,
estira-se a fio comprido sobre os
arreios desdobrados e contempla descuidoso o
firmamento azul, as nuvens que se
espacejam nos ares, a folhagem lustrosa e os
troncos brancos das pindabas a
copa dos ips e as palmas dos buritis a ciciar a
modo de harpas elias, msicas
sem conta com o perpassar da brisa.
Como so belas aquelas palmeiras!
O estpite liso, pardacento, sem manchas mais que
pontuadas estrias, sustenta
denso feixe de pecolos longos e canulados, em que
assentam flabelas abertas
como um leque, cujas pontas se acurvam flexveis e
tremulantes.
Na base em torno da coma, pendem, amparados por
largas espatas, densos cachos de
cocos to duros, que a casca luzidia, revestida de
escamas romboidais e de um
amarelo alaranjado, desafia por algum tempo o
frreo bico das araras.
Tambm, com que vigor trabalham as barulhentas
aves antes de conseguir a
apetecida e saborosa amndoa! Em grupos juntamse
elas, umas vermelhas como
chispas soltas de intensa labareda, outras
versicolores, outras, pelo contrrio,
de todo azuis, de maior viso e que, por parecerem
negras em distancia, tm o
nome de araranas. Ali ficam alcandoradas,
balouando-se gravemente e atirando
de espao a espao, s imensidades das dilatadas
campinas notas estridentes,
quando no seja um clamor sem fim, ao quererem
multas disputar o mesmo cacho.
Quase sempre, porm, esto a namorar-se aos
pares, pousadas uma bem encostadinha  outra.
V tudo aquilo o sertanejo com olhar carregado de
sono. Caem-lhe pesadas as
plpebras; bem se lembra de que por ali podem
rastejar venenosas alimrias, mas
 fatalista; confia no destino e, sem mais
preocupao, adormece com serenidade.
Correm as horas vem o Sol descambando; refresca a
brisa, e sopra rijo o vento.
No ciciam mais os buritis; gemem, e
convulsamente agitam as flabeladas palmas.
 a tarde que chega.
Desperta ento o viajante; esfrega os olhos;
distende preguiosamente os braos;
boceja; bebe um pouco d.gua; fica uns instantes
sentado, a olhar de um lado
para outro, e corre afinal a buscar o animal, que de
pronto encilha e cavalga.
Uma vez montado, l vai ele a passo ou a trote,
bem disposto de corpo e de
esprito, por aqueles caminhos alm, em demanda
de qualquer pouso onde pernoite.
Quanta melancolia baixa  terra com o cair da
tarde!
Parece que a solido alarga os seus limites para se
tornar acabrunhadora.
Enegrece o solo; formam os matagais sombrios,
macios, e ao longe se desdobra
tnue vu de um roxo uniforme e desmaiado, no
qual, como linhas a meio apagadas,
ressaltam os troncos de uma ou outra palmeira
mais alterosa.
 a hora, em que se aperta de inexplicvel receio o
corao. Qualquer rudo nos
causa sobressalto; ora o grito aflito da zabel nas
matas, ora as plangentes
notas do bacurau a cruzar os ares. Freqente 
tambm amiudarem-se os pios
angustiados de alguma perdiz, chamando ao ninho
o companheiro extraviado, antes
que a escurido de todo lhe impossibilite a volta.
Quem viaja atento s impresses intimas,
estremece, mau grado seu, ao ouvir
nesse momento de saudades o tanger de um sino
muito, muito ao longe, ou o silvar
distante de uma locomotiva impossvel. So insetos
ocultos na macega que trazem
essa iluso, por tal modo viva e perfeita que a
imaginao, embora desabusada e
prevenida, ergue o vo e l vai por estes mundos
afora a doidejar e a criar mil
fantasias.
Espalham-se, por fim, as sombras da noite.
O sertanejo que de nada cuidou, que no ouviu as
harmonias da tarde, nem reparou
nos esplendores do cu, que no viu a tristeza a
pairar sobre a terra, que de
nada se arreceia, consubstanciado como est com a
solido, pra, relanceia os
olhos ao derredor de si e, se no lagar pressente
alguma aguada, por m que seja,
apeia-se, desencilha o cavalo e reunindo logo uns
gravetos bem secos, tira fogo
do isqueiro, mais por distrao do que por
necessidade.
Sente-se deveras feliz. Nada lhe perturba a paz do
esprito ou o bem-estar do
corpo. Nem sequer monologa, como qualquer
homem acostumado a conversar.
Raros so os seus pensamentos: ou rememora as
lguas que andou, ou computa as
que tem que vencer para chegar ao trmino da
viagem.
No dia seguinte, quando aos clares da aurora
acorda toda aquela esplndida
natureza, recomea ele a caminhar, como na
vspera, como sempre.
Nada lhe parece mudado no firmamento: as nuvens
de si para si so as mesmas.
D-lhe o Sol, quando muito, os pontos cardeais, e a
terra s lhe prende a
ateno, quando algum sinal mais particular pode
servir-lhe de marco milirio na
estrada que vai trilhando.
.Bom! exclama em voz alta e alegre ao avistar
algum madeiro agigantado ou uma
disposio especial de terras, l est a peva
grande... Cheguei ao Barranco
Alto. At ao pouso de Jacar h quatro lguas bem
puxadas.
E, olhando para o Sol, conclui:
.Daqui a trs horas estou batendo fogo.
Ocasies h em que o sertanejo d para assobiar.
Cantar,  raro; ainda assim, 
surdina; mais uma voz intima, um rumorejar
consigo, do que notas sadas do
robusto peito. Responder ao pio das perdizes ou ao
chamado agoniado da esquiva
ja,  o seu divertimento em dias de bom humor.
 lhe indiferente o urro da ona. S por demais
repara nas muitas pegadas, que
em todos os sentidos ficam marcadas na areia da
estrada.
.Que bicho! murmura ele contemplando um rasto
mais fortemente impresso no
solo; com um bom onceiro no se me dava de acuar
este diabo e meter-lhe uma
chumbada no focinho.
O legitimo sertanejo, explorador dos desertos, no
tem, em geral, famlia.
Enquanto moo, seu fim nico  devassar terras,
pisar campos onde ningum antes
pusera p, vadear rios desconhecidos, despontar
cabeceiras e furar matas, que
descobridor algum ate ento haja varado.
Cresce-lhe o orgulho na razo da extenso e
importncia das viagens
empreendidas; e seu maior gosto cifra-se em
enumerar as correntes caudais que
transps, os ribeires que batizou, as serras que
transmontou e os pantanais que
afoitamente cortou, quando no levou dias e dias a
rode-los com rara pacincia.
Cada ano que finda traz-lhe mais um valioso
conhecimento e acrescenta uma pedra
ao monumento da sua inocente vaidade.
.Ningum pode comigo, exclama ele
enfaticamente. Nos campos da Vacaria, no
serto do Mimoso e nos pantanos do Pequiri, sou
rei.
E esta presuno de realeza infunde-lhe certo modo
de falar e de gesticular
majesttico em sua singela manifestao.
A certeza que tem de que nunca poder perder-se
na vastido, como que o liberta
da obsesso do desconhecido, o exalta e lhe d
foros de infalibilidade.
Se estende o brao, aponta com segurana no
espao e declara peremptoriamente:
.Neste rumo daqui a 20 lguas, fica o espigo
mestre de uma serra braba, depois
um rio grosso; dali a cinco lguas outro mato sujo
que vai findar num brejal. Se
vassunc frechar direitinho assim umas duas horas,
topa com o pouso do Tatu, no
caminho que vai a Cuiab.
O que faz numa direo, com a mesma
imperturbvel serenidade e firmeza indica em
qualquer outra.
A nica interrupo que aos outros consente,
quando conta os inmeros
descobrimentos,  a da admirao.  mnima
suspeita de dvida ou pouco caso,
incendem-se-lhe de clera as faces e no gesto
denuncia indignao.
. Vassunc no credita! protesta ento com calor.
Pois encilhe o seu bicho e
caminhe como eu lhe disser. Mas assunte bem, que
no terceiro dia de viagem
ficar decidido quem  cavouqueiro e embromador.
Uma coisa  mapiar  toa, outra
andar com tento por estes mundos de Cristo.
Quando o sertanejo vai ficando velho, quando sente
os membros cansados e
entorpecidos, os olhos j enevoados pela idade, os
braos frouxos para manejar a
machadinha que lhe da o substancial palmito ou o
saboroso mel de abelhas,
procura ento quem o queira para esposo, alguma
viva ou parenta chegada, forma
casa e escola, e prepara os filhos e enteados para a
vida aventureira e livre
que tantos gozos lhe dera outrora.
Esses discpulos aguada a curiosidade com as
repetidas e animadas descries
das grandes cenas da natureza, num belo dia
desertam da casa paterna,
espalham-se por ai alm, e uns nos confins do
Paran, outros nas brenhas de So
Paulo, nas planuras de Gois ou nas bocainas de
Mato Grosso, por toda a, parte
enfim, onde haja deserto, vo pr em ativa prtica
tudo quanto souberam to bem
ouvir, relembrando as faanhas do seu respeitado
progenitor e mestre.
II - O VIAJANTE
Prprio de esprito sorumbtico, 
andar sempre calado:
tagarelar  o encanto e a alma da
vida.
La Chausse.
Comigo, respondeu Sancho, meu
primeiro movimento  logo
tal comicho de falar que no
posso deixar de
desembuchar o que me vem 
boca.
Cervantes, D. Quixote.
O dia 15 de julho de 1860 era dia claro, sereno e
fresco, como costumam ser os
chamados de inverno no interior do Brasil.
Ia o Sol alto em seu percurso, iluminando com seus
raios, no muito ardentes
para regies intertropicais, a estrada, cujo aspecto
h pouco tentamos descrever
e que da Vila de Sant.Ana do Paranaba vai ter aos
campos de Camapu.
A essa hora, um viajante, montado numa boa besta
tordilho-queimada, gorda e
marchadeira, seguia aquela estrada. A sua
fisionomia e maneiras de trajar
denunciavam de pronto que no era homem de lida
fadigosa e comum ou algum
fazendeiro daquelas cercanias que voltasse para
casa. Trazia na cabea um
chapu-do-chile de abas amplas e cingido de larga
fita preta, sobre os ombros um
poncho-pala de variegadas cores e calava botas de
couro da Rssia bem feitas e
em bom estado de conservao.
Tinha quando muito vinte e cinco anos, presena
agradvel, olhos negros e bem
rasgados, barba e cabelos cortados quase 
escovinha e ar to inteligente quanto decidido.
Na mo empunhava uma comprida vara que havia
pouco cortara, e com que ia
distraidamente fustigando o ar ou batendo nos
ramos de rvores que se dobravam
ao alcance do brao.
Vinha s e, no momento em que damos comeo a
esta singela histria, achava-se no
bonito trecho de caminho que medeia entre a casa
de Albino Lata e a do Leal, a
sete boas lguas da sezontica e decadente Vila de
Sant.Ana do Paranaba
Nesta poro de estrada, ensombrada pelas rvores
de vistoso cerrado, o leito,
ainda que j bastante arenoso,  firme e parece
mais alia de bem tratado
jardim, do que caminho de tropas e carreadores.
Ainda aumenta os encantos daquele lance a
inmera quantidade de rolas caboclas a
brincar na areia e de pombas de cascavel, cujo
bater das asas produz um arrudo
to caracterstico e singular.
O nosso viajante, se caminhava distrado e meio
pensativo, no parecia, contudo,
de gnio sombrio ou pouco divertido.
Muito ao contrrio, sacudia as vezes o torpor em
que vinha e entrava a
cantarolar, ou assobiar, esporeando a valente
cavalgadura, que na marcha que
tomava ia abanando alternadamente as orelhas com
o movimento cadencial da cabea.
Numa dessas reaes contra alguma preocupao,
disse em voz alta, puxando por um
relgio de prata, seguro em corrente do mesmo
metal:
.s duas horas, pretendo sestear no paiol do Leal.
Falta pouco para o meio-dia,
e tenho tempo diante de mim a botar fora.
Moderou, pois, a andadura que levava o animal e
mais ativamente recomeou a
zurzir os galhos das rvores, bocejando de tdio.
Tambm pouco tempo caminhou s, por isto que em
breve ao seu lado emparelhou
outro viajante, escanchado num cavalinho feio e
zambro, mas muito forte, o qual,
coberto como estava de suor, mostrava ter vindo
quase a galope.
Homem j de alguma idade, o recm-chegado era
gordo, de compleio sangnea,
rosto expressivo e franco. Trajava  mineira e
parecia, como realmente era,
morador daquela localidade.
.Ol, patrcio, exclamou ele conchegando a
cavalgadura  da pessoa a quem
interpelava, ento se vai botando para Camapu?
Olhou o nosso cavaleiro com desconfiana e
sobranceria para quem o interrogava
to sem-cerimnia e meio enviesado respondeu:
.Talvez sim... talvez no... Mas a que vem a
pergunta?
.Ah! desculpe-me, replicou o outro rindo-se, nem
sequer o saudei... Sou mesmo
um estabanado... Deus esteja convosco. Isto
sempre me acontece... A minha lngua
fica s vezes to doida que se pe logo a bater-me
nos dentes... que  um Deus
nos acuda e... no h que avisar: gua vai! Olhe,
por vezes j me tem vindo
dano, mas que quer?  sestro antigo... No que eu
sela malcriado, Deus de tal me
defenda, abrenncio; mas pega-me tal comicho de
falar que vou logo, sem tir-te,
nem guar-te, dando  taramela...
A volubilidade com que foram ditas estas palavras
causou certo espanto ao
mancebo e o levou a novamente encarar o
inopinado companheiro, desta feita com
mais demora e ar menos altivo.
Notou ento a fisionomia alegre e bonach do
tagarela e, com ar de simpatia,
correspondeu ao comunicativo sorriso daquele que,
 fora, queria travar
conversao.
.Pelo que vejo, disse ele, o Sr. gosta de prosear.
.Ora se! retrucou o mineiro. Nestes sertes s
sinto a falta de uma coisa:  de
um cristo com quem de vez em quando d uns
dedos de prola. Isto sim, por aqui
 casqueiro. Tudo anda to calado!... uma
verdadeira caipiragem!... Eu, no. Sou
das Gerais, gelaria como por c se diz; nasci no
Paraibana, conheci no meu tempo
pessoas de muita educao, gente mesma de traz e
fui criado na Mata do Rio como
homem e no como bicho do monte.
.Ah! o senhor  de Minas?
.Gerais, se me faz favor. Batizei-me em Vassouras,
mas sou mineiro da gema.
Andei ceca e meca antes de vir deitar poita neste
pas. Isto j faz muito tempo,
pois tambm vou ficando velho. H mais de
quarenta anos pelo menos que sai da
casa dos meus pais.
E interrompendo o que dizia, perguntou:
.O senhor tambm  de Minas?
.Nhor-no, respondeu o outro. Sou caipira de So
Paulo: nasci na Vila de Casa
Branca, mas fui criado em Ouro Preto.
.Ah! na cidade Imperial ?...
.L mesmo.
.Ento  quase de casa, replicou o mineiro rindose
ruidosamente. Ora, quem
diria! Por isto me batia a passarinha, quando vi o
seu rasto fresco na areia. Ai
vai, disse eu por vezes com os meus botes, um
sujeitinho que no tem pressa de
pousar. Tambm tocando o meu canivete, tratei de
agarr-lo para no fazer a
viagem a olhar para o cu e a bancar. Acha que
obrei mal?
.No, senhor, protestou o moo com afabilidade.
Muito lhe agradeo a inteno.
Assim alcanarei sem cansao o Leal, onde
pretendo dar hoje com os ossos.
.Oh! exclamou o outro todo expansivo, a
caminhada  a mesma. Pois, meu rico
senhor, eu moro a meia lgua do Leal, torcendo a
esquerda e se vosmec no tem
compromissos l com o homem, far-me- muito
favor agasalhando-se em teto de quem
 pobre, mas amigo de servir. Minha tapera  pouco
retirada do caminho, e quem
vem montado como o senhor, no tem que andar
contando bocadinhos de lguas.
Convite to espontneo e amvel no podia deixar
de ser bem aceito, sobretudo
naquelas alturas, e trouxe logo entre os dois
caminhantes a familiaridade que
to depressa se estabelece em viagem.
.Com toda a satisfao irei parar em sua casa,
retrucou o jovem. Nunca vi o
Leal, pois agora  a primeira vez que cruzo este
serto, e ando de pouso em
pouso, pedindo um cantinho de paiol ou de rancho
para passar a noite com os meus
camaradas.
Traz ento tropa?
.Tropa, no; apenas dois bagageiros que vm com
as minhas cargas e uma besta 
destra.
.Ol! o amigo viaja  fidalga, observou o mineiro
com gesto folgazo.
.Qual!... Bastantes privaes tenho j curtido.
.Decerto no as sentir em nossa casa todo o
tempo que l quiser ficar. No
encontrar luxarias nem coisas da capital,
unicamente o que pode ter nestes
mundos: quatro paredes de pau-a-pique mal
rebocadas, uma cama de vento, bom
feijo a fartar, ervas a mineira, arroz de papa,
farinha de milho torradinha,
caf com rapadura e talvez at um lombo fresco de
porco.
.Ol! exclamou o moo rindo-se com expanso,
vou passar vida de capito-mor.
No queria tanto, bastava-me...
.O que sobretudo desejo  que tenha comigo o
corao na boca. Se no gostar do
passadio, v logo desembacharido. Na minha
rancharia pousa pouca gente, porque
fica para dentro da estrada... assim, talvez lhe falte
alguma coisa; em todo o
caso farei pelo melhor . . .
Depois de breve pausa, continuou:
.Mas porm, creio que j  ocasio, agora que nos
conhecemos como dois amigos
do tempo do Rojo, saber com quem lidamos. Eu,
quanto a mim, me chamo Martinho
dos Santos Pereira e a minha histria conto-lha em
duas palhetadas... Sua graa,
ainda que mal pergunte ?
.Cirino Ferreira de Campos, respondeu o outro
viajante, um criado para o
servir.
. Obrigado, agradeceu Pereira inclinando-se
cortesmente e levando a mo ao
chapu. Como lhe disse h pouco, minha historia 
histria de entrar por uma
porta e sair por outra. Minha gente no  de m
raa, pelo contrrio; meu pai,
que Deus lhe d a glria, possua alguma coisa de
seu e deixou aos seus muitos
filhos um nome limpo e respeitado. Cada qual de
ns.ramos sete.tomou o seu
rumo. Quanto a mim, casei muito mocinho e fui
morar na Diamantina, onde abri
casa de negcio. Depois de alguns anos, uns bons,
outros caiporas, morreu minha
dona e mudei-me, a principio, para Pinmi e mais
tarde para Uberaba. A vida
comeou a desandar-me de todo, e fiz logo este
clculo: estar to longe, antes
afundar-me no mato de uma boa feita. Vendi minha
lojinha de ferragens e
internei-me at c com trs escravos. l doze anos
que moro nestes socaves e,
palavra de honra, at ao presente no me tenho
arrependido. Na minha situao h
fartura, e louvado seja! nunca passei necessidade...
No posso por isto
queixar-me sem ingratido. Deus Nosso Senhor
Jesus Cristo tem olhado para mim, e
me julgo bem amparado, sobretudo quando me
lembro do despotismo de misrias, que
vai por estas terras fora... Cruzes! nem falar nisto 
bom... Diga-me porm uma
coisa: vosmec para onde se atira?
.Homem, Sr. Pereira, no tenho destino certo.
.Deveras? Ento esta caminhando  toa?
.Eu ponho-lhe j tudo em pratos limpos. Ando por
estes fundes curando maleitas
e feridas bradas.
.Ah! exclamou Pereira com manifesto
contentamento, vosmec  doutor, no ?
Fsico, como chamavam os nossos do tempo de
dantes.
. fato, confirmou Cirino com alguma satisfao.
.Ora, pois multo bem, cai-me a sopa no mel; sim,
senhor, vem mesmo ao pintar...
a talhe de foice.
.Por qu?
.Daqui a pouco saber... Mas, diga-me ainda...
Onde  que vosmec leu nos
livros, aprendeu suas historias e bruxarias? Na corte
do Imprio?
.No, respondeu Cirino, primeiro no Colgio do
Caraa; depois fui para Ouro
Preto, onde tirei carta de farmcia.
E acrescentou com enfatuao:
.Desde ento tenho batido todo o poente de Minas
e feito curas que  um
milagre.
.Ah! a sabena  coisa boa. . . eu tambm tinha
jeito para saber mais do que
ler e escrever, isto mesmo mulmente; mas quem
nasceu para carreiro, vira, mexe,
larga e pega, sempre acaba junto ao carro. Com o
que, entonces, vosmec entende
de curar?...
.Entendo, afirmou Cirino sem o menor
constrangimento.
.Pois caiu-me muito ao jeito na mo; sim, senhor.
Estou com uma menina doente
de maleitas, minha filha, e por essa causa tinha ido
a Sant.Ana buscar quina do
comrcio; mas l no havia da maldita e voltava
bem agoniado. Ora...
.Trago, interrompeu o outro, muito remdio nas
minhas malas. Para sezes, tenho
uma composio infalvel...
. J se sabe; entra composio de quina. Deveras
 santa mezinha. A pequena
tomou a do campo; mas essa pouco talento tem, de
maneira que a sezo no lhe
deixou o corpo.
.H quantos dias apareceu o tremor de frio?
perguntou o intitulado doutor.
.Faz hoje, salvo engano, dez dias.
At agora era uma rapariga forada, sadia e rosada
como um lambo; nem sei ate
como lhe entrou a maleita no corpo. Ningum pode
fiar-se na tal Vila de
Sant.Ana;  uma peste de febres. Eu bem a no
Queria levar at l: mas ela pediu
tanto age consenti! Demais como era para ver a
madrinha, uma boa senhora, de
muita circunstncia, a mulher do Major Melo Toques.
.. No conhece?
.Pois no.
.E d-se com o major? perguntou Pereira para abrir
novo campo  garrulice.
.Quando pousei na vila, estive com ele.
.E no gostou? Aquilo sim  homem s direitas.
Tambm  pau para toda a obra na
Senhora Sant.ana,  o tutu de l. Em querendo
taramelar um pouco mais a meu
gosto, busco o compadre. Isto arma logo uma
conversa que me d um farto... E
depois pessoa de muitas letras... Escreve ao
governo;  juiz de paz, major
reformado, serve de juiz municipal, j fez a
campanha dos Farrapos l no Rio
Grande do Sul para as bandas dos Castelhanos e
merece muita estimao. Mora numa
casa de andar e tem loja muito sortida, por sinal
que bem baratinha para a
distancia. E as histrias que conta? f: um nunca
acabar. O homem parece que sabe
o Imprio de cor e salteado! Nem o vigrio! Olhe,
Sr. Cirino, vou dizer-lhe uma
coisa, que talvez lhe parea embromao: s vezes
dou um pulo at a vila s para
bater lngua com o major, porque com esta gente
daqui no se tira partido:
escorraada e arisca que  um Deus nos acuda!
Ento, como lhe ia contando,
galopeio at l, e pego numa mapiagem que me
enche as medidas. No h...
.Gabo-lhe a pachorra, atalhou Cirino. Mas, digame,
Sr. Pereira; farei por aqui
algum negcio?
.Homem, conforme. Gente doente  mato; mas
tambm mofina como ela s. Meio
arredado da minha casa, fica o Coelho que est
morre no morre h muitos anos, e
 homem de boas patacas. Este, se vosmec o
curar, talvez caia com os cobres.
Tudo o mais  uma rcula de gente mais ou menos.
.Vosmec traz bastante quina do comrcio?
perguntou em seguida.
.Trago, respondeu Cirino, mas  cara.
.Que  cara, bem sei. Pois  quanto basta, porque
no fundo aqui tudo so
seres.
Comeou ento o bom do Sr. Pereira a desenrolar as
diversas molstias que o
haviam salteado no correr da vida, raras na
verdade, mas todas perigosas; e com
este tema s ordens achou meios e modos de falar
at quase perder o flego.
Recolheu-se o outro ao silencio e ouviu talvez
preocupado, ou em todo caso,
muito distraidamente, o que lhe contava o seu novo
amigo, saindo, de vez em
quando, da aptica ateno para instigar com a voz
e o calcanhar a cavalgadura,
quando esta parecia querer por si tomar descanso
ou buscava comer os rebentes
mais apetitosos do capim a grelar.
Afinal notou Pereira o tal ou qual abatimento do
companheiro. .Vosmec a modo
que est triste? disse ele. Deixou alguma coisa de
seu l por trs?
.Homem, para ser franco, respondeu Cirino dando
um suspiro, deixei; e essa
coisa  uma dvida... dvida de jogo.
.Isto  mau, retrucou o mineiro, fechando um
tanto a cara. Por causa desse
vicio e das mulheres,  que as cruzes nascem 
beira das estradas. Mas  coco
grosso?
.Trezentos mil-ris.
.J  gimbo grado. E com quem jogou?
.Com o Tot Siqueira, de Sant.Ana. Por isto
pretendeu atrasar-me a viagem; mas
prometi mandar-lhe tudo do Sucuri por um
camarada e passei-lhe um papel. No que
estou pensando, e se acharei at l meios de
cumprir a palavra.
.Se lhe pagarem como devem, com certeza. Em
todo o caso aperte um pouco com os
doentes.
.No imagina, replicou Cirino com verdadeiro
sentimento, quanto me tem
amofinado essa maldita dvida. No pelo dinheiro,
que dele fao pouco caso; mas
por ter pegado em cartas, coisa que nunca tinha
feito na minha vida; isto sim...
.Pois meu rico senhor, prosseguiu Pereira, sirva-lhe
esta de lio e tome tento
com a gente do serto, no com esses que moram -
nas suas casas, sossegados e
amigos de servir, mas com viajantes, homens de
tropas e carreiros. Isso sim, 
uma scia de jogadores, que andam armados de
baralhas e vsporas e, por d c
aquela palha, empurram uma faca na barriga de um
cristo ou descarregam uma
garrucha na cabea de um companheiro, como se
fosse em melancia podre. Depois, o
demnio do jogo, quando entra no corpo de um
desgraado, faz logo ninho e de l
pincha fora a vergonha. Da m vida com raparigas
airadas, fadistas e mulheres 
toa, ainda a gente endireita; mas com cartas e
sortes, s na caldeira de Pedro
Botelho  que se cuida em mudar de rumo. Quem
lhe fala, teve um tio morador nas
Trairs, para c de Camapu cinco lguas, que
trabalhava todo o ano na terra
para vir jogar at perder o ltimo cobre nas
rancharias do Sucuri.
Pereira, de posse de to largo assunto, contou mil
historias, umas lgubres,
outras jocosas, verdicas, inventadas na ocasio ou
reproduzidas.
Haviam, no entretanto, os dois caminhado
bastante. Inclinara-se no horizonte o
Sol, e a brisa da tarde j vinha soprando do lado do
poente, viva, perfumosa.
.Ns, observou o mineiro, com a nossa conversa
deixamos os nossos animais vir
cochilando. Tambm j est aqui a minha
estradinha. Meta-se nela, Sr. Cirino; em
frente ia parar no Leal: minha fazendola comea
neste ponto  beira do caminho e
vai por ai afora ate bem longe, um mundo de
alqueires de terra que nem tem conta.
Ao dizer estas palavras, tomou ele a dianteira e
dando a direita  estrada
geral, enveredou por uma aberta larga e muito
sombreado que levava com voltas e
tortuosidades  margem rasa de copioso e lmpido
ribeiro, de lveo areento,
todo ele. Que stio risonho, encantador, esse,
ensombrado por majestosa e
elegante ingazeira, toda pontuada das mimosas e
balsmicas florezinhas!
Os animais, ao perceberem o bater da gua,
apertaram o passo e, entrando na
fresca corrente quase at aos peitos, estiraram o
pescoo e puseram-se a beber
ruidosamente, avanando aos poucos de encontro
ao fio caudal, para buscarem o
que houvesse mais puro em linfa.
.No deixe a sua besta se empanainar observou
Pereira. Upa! continuou ele
puxando pela rdea do cavalo e batendo-lhe
amigavelmente na p do pescoo, upa,
Canivete! Vamos matar a fome no milho!
Transposto o ribeiro, alargava-se a vereda e,
depois de cortar copada mata,
abria-se numa verdadeira estrada, que os dois
cavaleiros tomaram a meio galope.
Transmontava afinal o Sol, quando, atem de ralo
matagal, surgiu a ponta de um
mastro de So Joo, que o mineiro saudou com
mostras de grande alegria, como
sinal precursor da querida vivenda.
Antes, porem, de nela penetrarmos, digamos quem
era aquele mancebo que viajava
ornado do pomposo titulo de doutor, e, que mais ,
revestido de autoridade para
ir, a seu talante aplicando remdios e preconizando
curas milagrosas.
III.O DOUTOR
Semeai promessas: a ningum
causam desfalque, e o mundo
 rico de palavras.
A esperana quando outros nela
crem faz ganhar muito
tempo.
Ovdio, AArte de Amar
.
Ao morreres, dota a algum colgio
ou a teu gato. Pope.
Sganarelo. . De todo a parte vem
gente procurar-me, e
se as coisas continuarem assim,
sou de parecer que de
uma vez devo dedicar-me 
medicina . Acho que de todos
os ofcios  este o prefervel,
porque, ou se faa bem
ou mal, sempre no fim h dinheiro.
Molire, O Mdico  Fora.
Nascera Cirino de Campos, como dissera a Pereira,
na provncia de So Paulo, na
sossegada e bonita Vila de Casa Branca, a qual
demora Umas 50 lguas do litoral.
Filho de um vendedor de drogas, que se intitulava
boticrio e a esse oficio
acumulava o importante cargo de administrador do
correio, crescera debaixo das
vistas paternas at a idade de doze anos
completos, quando fora enviado, em
tempos de festas e a ttulo de recordao saudoso,
a um velho tio e padrinho,
morador na cidade de Ouro Preto.
Esse parente, solteiro, de gnio rabugento,
misantropo, e dado s prticas da
mais extrema carolice, recebeu o pequeno com mau
modo e manifesto
descontentamento, tanto mais quanto  presena
de um estranho vinha interromper
os hbitos de completa solido a que se
acostumara desde longos anos.
Era homem que trajava ainda  moda antiga,
usando de sapatos de fivela, cales
de braguilha, e cabeleira empoada com o
competente rabicho.
A sua reputao de pessoa abastada era, em toda a
cidade de Ouro Preto, to bem
firmada quanto a de refinado sovina, chegando a
voz pblico a afirmar que o seu
dinheiro, e no pouco, estava todo enterrado em
numerosos buracos no cho da
alcova de dormir.
.Meu amigalhote, disse o tal padrinho a Cirino,
poucos dias depois da chegada,
fique sabendo que por qualquer coisinha lhe sacudo
a poeira do corpo. D-se por
avisado e ande direitinho que nem um fuso.
O menino, transido de medo, passou a tarde a
chorar num canto sombrio da casa,
onde relembrou, at lhe vir o sono, a alegre vida de
outrora, os folguedos que
fazia com os camaradas na viosa relva do Cruzeiro,
 entrada da Vila de Casa
Branca e sobretudo os carinhos da saudoso mame.
Em seguida aquela admoestao preventiva fora o
tio  casa de uns padres que
tinham influncia na direo do Colgio do Caraa e
com eles arranjara a
admisso do afilhado naquele estabelecimento de
instruo.
Como finrio que era, conseguiu este resultado sem
multa dificuldade, pagando-o,
a juros compostos, com tentadoras promessas.
.Por ora, resmoneou ele, nada poderei fazer pela
educao do rapaz; mas...
enfim... um dia... estou j velho, e tratarei de
mostrar que no me esqueci dos
bons padres que tanto me ajudam hoje.
Lanada, assim, a eventualidade de uma verba
testamentria, ficou decidida a
entrada de Cirino na casa colegial.
O pressentimento da falta de proteo natural torna
as crianas dceis e
resignadas. Tambm no fugiu nem mugiu o
caipirazinho ao penetrar no internato
em que devia passar tristonhamente os melhores
anos da sua adolescncia.
timo negcio fizera incontestavelmente o velho
tio. Ia to-somente
desembolsando boas palavras e, por estar agarrado
 vida, chegou at a levar ao
cemitrio dois dos padres que se haviam prendido
s esperanas de valiosa
recordao.
Afinal como tinha por seu turno que pagar o tributo
universal, um belo dia
morreu quando medos se esperava, deixando muito
recomendado um seu testamento,
que foi, com efeito, aberto com sofreguido digna
de melhor xito.
Testamento havia, fora  confessar; no j
testamento, mas extenso arrazoado,
todo da letra do velho barras de ouro, porm, ou
maos de notas, nem sombra.
Esfuracou-se a casa de alto a baixo, levantaram-se
os soalhos, escutaram-se
todas as paredes, quebraram-se os mveis; nada
apareceu, nada denunciou
esconderijo de riquezas, nem coisa que com isso se
avizinhasse.
Descobriu-se ento que aquele carola fora um
pensador desabusado, antigo
admirador de Xavier, o Tiradentes, que nunca tivera
vintm e vivera como
filsofo, grazinando l consigo mesmo, de tudo e de
todos.
Era o seu testamento uma gargalhada meio de
gosto, meio de ironia, atirada de
alm-tmulo e corroborada pelo legado sarcstico
que em pomposo codicilo fazia
aos padres do Caraa da sua biblioteca .a fim, dizia
ele, de ajudar a educao
dos mancebos e auxiliar as boas intenes dos seus
honrados e virtuosos diretores..
Procuraram-se os tais livros, e topou-se com um
ba cheio de obras, em parte
devoradas pelo cupim, que foram, incontinenti,
entregues s chamas de um grande
auto-de-f. Eram as Runas de Volney, 0 Homem da
Natureza, as poesias erticas
de Bocage, o Dicionrio filosfico de Voltaire, o
Citador de Pigault-Lebrun, a
Guerra dos Deuses de Parny, os romances do
marqus de Sade e outras produes de
igual alcance e quilate, algumas at em francs,
mas anotadas por leitor assduo
e mais ou menos convencido.
A conseqncia desse pesado gracejo pstumo, que
destrua de raiz o conceito de
uma vida inteira, foi a imediata excluso de Cirino
do Colgio do Caraa.
Tinha ento dezoito anos, e, como era vivo,
conseguiu, apesar da natural pecha
que lhe atirava o parentesco com o estrambtico e
defunto protetor, ir servir de
caixeiro numa botica velha e manhosa, onde entre
drogas e receiturios lhe foram
voltando os hbitos da casa paterno.
Leve era o trabalho, e o aviamento de prescries
to lento, que os ingredientes
farmacuticos ficavam meses inteiros nos
embaados e esborcinados frascos 
espera de que algum se lembrasse de tir-los
daquele bolorento esquecimento.
Em localidade pequena, de simples boticrio a
mdico no h mais que um passo.
Cirino, pois, foi aos poucos, e com o tempo, criando
tal ou qual pratica de
receitar e, agarrando-se a um Chernoviz, j seboso
de tanto uso, entrou a
percorrer, com alguns medicamentos no bolso e na
mala da garupa, as vizinhanas
da cidade  procura de quem se utilizasse dos seus
servios.
Nessas curtas digresses principiou a receber o
tratamento de doutor. Ento para
melhor o firmar, depois de se ter despedido da
botica em que servia,
matriculou-se na escola de farmcia de Ouro Preto
com a inteno de tirar a
carta de boticrio, que o Presidente de Minas Gerais
tem o privilgio de
conferir, dispensando documentos de qualquer
faculdade reconhecida.
Antes, porm, de conseguir a posse daquele
lisonjeiro documento, faz-se Cirino,
num dia de capricho, de partida decidida e comeou
ento a viajar pelos sertes
povoados a medicar, sangrar e retalhar, unindo a
alguns conhecimentos de valor
positivo outros que a experincia lhe ia indicando
ou que a voz do povo e a
superstio lhe ministravam.
Toda a sua cincia assentava alicerces no tal
Chernoviz. Tambm era o
inseparvel vademecum; seu livro de ouro; Homero
 cabeceira de Alexandre. Noite
e dia o manuseava; noite e dia o consultava 
sombra das rvores ou junto ao
leito dos enfermos.
Contem Chernoviz, dizem os entendidos, muitos
erros, muita lacuna, muita coisa
intil e at disparatada; entretanto no interior do
Brasil  obra que
incontestavelmente presta bons servios, e cujas
indicaes tm fora de evangelho.
Conhecia Cirino o seu exemplar de cor e salteado;
abria-o com segurana nos
trechos que desejava consultar e graas a ele
formara um fundo de instruo real
e at certo ponto exata, a que unir o estudo
natural das utilssimas e ainda
pouco aproveitadas ervinhas do campo.
A fim de aumentar os seus recursos em matria
mdica vegetal, foi a pouco e
pouco dilatando as excurses fora das cidades, para
as quais voltava, quando se
via falto de medicamentos ou quando, digamo-lo
sem rebuo, queria gastar nos
prazeres e folias o dinheiro que ajuntara com a
clnica do serto.
Afinal, afeito a hbitos de completa liberdade,
resolvera empreender viagem para
Camapu e sul de Mato Grosso, no s com o
intuito de estender o raio das
operaes, como levado do desejo de ver terras
novas e longnquas.
Curandeiro, simples curandeiro, ia por toda a parte
granjeando o tratamento de
doutor, que gradualmente lhe foi parecendo, a si
prprio, titulo inerente a sua
pessoa e a que tinha incontestvel direito.
Bem formado era o corao daquele moo, sua alma
elevada e incapaz de
pensamentos menos dignos; entretanto no intimo
do seu carter se haviam
insensivelmente enraizado certos hbitos de
orgulho, repassado de tal ou qual
charlatanismo, oriundo no s da flagrante
insuficincia cientifica, como da
roda em que sempre vivera.
Afastava-se em todo caso, ainda assim com os seus
defeitos, do comum dos mdicos
ambulantes do serto, tipos que se encontram
freqentemente naquelas paragens,
eivados de todos os atributos da mais crassa
ignorncia, mas rodeados de
regalias completamente excepcionais.
Por toda a parte entra, com efeito, o doutor;
penetra no interior das famlias,
verdadeiros gineceus; tem o melhor lugar a mesa
dos hospedes, a mais macia cama;
, enfim, um personagem caldo do cu e junto ao
qual acodem logo, de muitas
lguas em torno, no j enfermos, mas fanatizados
crentes, que durante largos
anos se haviam medicado ou por conselhos de
vizinhos ou por suas prprias
inspiraes e que na chegada desse Messias
depositam todas as ardentes
esperanas do almejado restabelecimento.
IV.A CASA DO MINEIRO
Est a cela na mesa. Torne o bom
acolhimento desculpvel o
mau passadio.
Walter Scott, Ivanho
Quando assomaram os dois viajantes  entrada do
terreiro que rodeava a vivenda
de Pereira, correram-lhes ao encontro quatro ou
cinco ces altos e magros, que
aos pulos saudaram o dono da casa com uma
cainada de alegria.
Puseram-se algumas galinhas a girar atarantadas,
ao passo que vrios galos, j
empoleirados na cumeeira da morada, bradavam
novidade e uns porcos e bacorinhos
aqui e acol se erguiam dentre palhas de milho e,
estremunhados, olhavam para os
recm-chegados com olhos pequenos e cheios de
sono.
Do interior da habitao, no tardou a sair uma
preta idosa mal vestida,
trazendo atado  cabea um pano branco de
algodo, cujas pontes pendiam ate ao
meio das costas.
.Ol, Maria Conga, perguntou Pereira, que h de
novo por c?
.A teno, meu senhor, pediu a escrava chegandose
com alguma lentido.
.Deus te faa santa, respondeu o mineiro. Como
vai a menina? Nocncia?
.Nh est com sezo.
.Isto sei eu, rapariga de Cristo; mas como passou
ela de trasantontem para c?
.Todo o dia, vindo a hora, nh bate o queixo, nhorsim.
.Est bem...  que o mal ainda no abrandou...
Daqui a pouco, veremos. E a
janta?... Est pronta? Venho varado de fome. Que
diz, Sr. Cirino? indagou,
voltando-se para 0 companheiro.
.No se me dava tambm de comer alguma coisa.
Temos razo para. . .
.Pois ento, interrompeu Pereira, ponha p no
cho e pise forte que o terreno 
nosso. Minha casa, ia lho disse,  pobre, mas
bastante farta e a ningum fica
fechada.
Deu logo o exemplo, e descavalgou do cavalinho
zambro, o qual foi por si
correndo em direo a uma dependncia da casa
com formas de tosca estrebaria.
Apeou-se igualmente Cirino, mas, ao penetrar numa
espcie de alpendre de palha
que ensombrada a frente toda, mostrou repentina e
viva contrariedade no gesto e
na fisionomia.
.Ora, Sr. Pereira, exclamou ele batendo com o
taco da bota num sabugo de
milho, s agora  que me lembro que as minhas
cargas vo todas tomar caminho do
Leal e aqui me deixam sem roupa, nem
medicamentos. Que maada! Devamos ter
esperado na boca da sua picada.
Respondeu-lhe o mineiro todo desfeito em
expansivo riso:
.Ol, pois o doutor  to novato assim em
viagens? Ento pensa que l no
deixei aviso seguro  sua gente? No se lembra de
um ramo verde que pus bem no
meio da estrada real?
. verdade, confirmou Cirino.
.E ento? Daqui a pouco a sua camaradagem est
batendo o nosso rasto. Entremos,
que a fome j vai apertando.
Consistia a morada de Pereira num casaro vasto e
baixo, coberto de sap, com
uma porta larga entre duas janelas muito estreitas
e mal abertas. Na parede da
frente que, talvez com o peso da coberta, bojava
sensivelmente fora da vertical,
grandes rachas longitudinais mostravam a urgncia
de serias reparaes em toda
aquela obra feita de terra amassada e grandes
paus-a-pique.
Ao oito da direita existia encostado um grande
paiol construdo de troncos de
palmeiras, por entre os quais iam rolando as
espigas de milho, com o contnuo
fossar dos porquinhos, que dali no arredavam p.
Corrido na frente de toda a vivenda, via-se um
alpendre de palha de buriti,
sustentado por grossas taquaras, ligeiro apndice
acrescentado por ocasio de
alguma passada festa, em que o nmero de
convidados ultrapassara os limites de
abrigo da hospitaleira habitao.
Internamente era ela dividida em dois lanos: um,
todo fechado, com exceo da
porta por onde se entrava, e que constituiu o
cmodo destinado aos hspedes,
outro,  retaguarda, pertencia  famlia, ficando,
portanto, completamente
vedado s vistas dos estranhos e sem comunicao
interna com o compartimento da
frente.
Era de barro compacto e secado o cho desta sala,
vendo-se nele sinais de que as
vezes ali se acendia fogo: pelo que estavam o sap
do forro e o ripamento
revestidos de luzidia e tnue camada de picum
que lhes dava brilho singular
como se tudo tora jacarand envernizado.
.Isto aqui, disse Pereira penetrando na sala e
sentando-se numa tripea de pau,
no  meu, e de quem me procura. Poucos vm c
decerto parar, mas enfim  sempre
bom contar com eles... Minha gente mora na
dependncia dos fundos.
E apontou para a parede fronteira  porta de
entrada, fazendo um gesto para
mostrar que a casa se estendia alm.
.Sr. Pereira, disse Cirino recostando-se a uma
slida marquesa, no se incomode
comigo de maneira alguma... Faa de conta que
aqui no h ningum
.Pois ento, retorquiu o mineiro, deite-se um
pouco, enquanto vou l dentro ver
as novidades. A hora  mais de comer, que de
cochilar; mas espere deitadinho e a
gosto, o que  sempre mais cmodo do que ficar de
p ou sentado.
No desprezou o hspede o convite. Tirou o pala,
puxou as botas e, cruzando-as,
fez dos canos travesseiros, em que descansou a
cabea.
Quem se coloca em posio horizontal, depois de
vencidas umas estiradas lguas,
adormece com certeza. Depressa veio, pois, o sono
cerrar as plpebras do
recm-chegado e intumescer-lhe o peito com
sossegada respirao.
Dormiu talvez hora e meia, e mais houvera dormido,
se no fosse acordado pelo
tropel de animais que paravam, e por grita de gente
a pr cargas em terra.
Assomou Pereira  porta com ar jovial.
.Ento, que lhe disse eu?
.De fato; estou agora sossegado.
.E o Sr. tomou uma boa data de sono.
.Quem sabe uma hora?
.Boa dvida, se no mais. Fiquei todo esse tempo
ao lado de Nocncia, que de
frio batia o queixo, como se estivesse agora em
Ouro Preto, quando cai geada na rua.
.Ento no vai melhor?
.Qual!... Depois que o Sr. tiver comido, h de ir v-
la. Est, pobrezinha, to
desfeita que parece doente de uns trs meses
atrs.
.Felizmente, observou Cirino com alguma
enfatuao, aqui estou eu para p-la de
p em pouco tempo.
.Deus o oua, disse Pereira com verdadeira uno.
.Patrcios! O gente! gritou ele em seguida para os
dois camaradas chegados de
pouco: vo mecs sentar naquele rancho, ali. Perto
h boa gua, e lenha  o que
no falta: basta estender o brao. Olhem, dem
rao de fartar aos animais.
Aproveitem o milho, enquanto h:  a sustncia
desses bichos. Aqui, vendo-o
baratinho. Um atilho por um cobre e no so
espigas chuchas, nem gro sobor.
Eh! l! Maria Conga, vamos com isso!... janta na
mesa!...
Foram o chamado e as indicaes de Pereira
compridas sem demora.
Apareceu a velha escrava, que estendeu em larga e
mal aplainada mesa uma toalha
de algodo, grosseira, mas muito alva, sobre a qual
derramou duas boas caias de
farinha de milho: depois, emborcou um prato fundo
de loua azul, e ao lado
colocou uma colher e um garfo de metal.
.Sente-se, doutor, disse Pereira para Cirino, agora
no mariduco com mec,
porque j petisquei l dentro. Desculpe se no
achar a comida do seu agrado.
Vinha nesse momento entrando Maria Conga com
dois pratos bem cheios e
fumegantes, um de feijo-cavalo, outro de arroz.
.E as ervas? perguntou Pereira. No ha?
.Nhor-sim. Eu trago j, respondeu a preta, que
com efeito voltou dai a pouco.
Tornou o mineiro a desculpar-se da insuficincia e
mau preparo da comida.
.No lhe dou hoje lombo de porco: mas o
prometido no cai em esquecimento, isto
lhe posso assegurar.
.Estou muito contente com o que h, protestou
com sinceridade Cirino.
E, de fato, pelo modo por que comeou a comer,
repetindo animadas vezes dos
pratos, deu evidentes mostras de que falava inteira
verdade.
.Maria, disse Pereira para a escrava, que se fora
colocar a alguma distancia da
mesa com os braos cruzados, traz agora mel e caf
com doce.
.Ah! exclamou Cirino com patente satisfao
estirando os braos, fiquei que nem
um ovo. O feijo estava de patente. Louvado seja
Nosso Senhor Jesus Cristo, que
me deu este bom agasalho.
.Amm! respondeu Pereira.
.Agora, amigo meu, disse o moo depois de
pequena pausa, estou s suas ordens;
podemos ver a sua doentinha e aproveitar a parada
da febre para mim atalh-la de
pronto. Em tais casos, no gosto de adiantamentos.
Cobriu-se o rosto do mineiro de ligeira sombra:
franziram-se os sobrolhos, e
vaga inquietao lhe pairou na fronte.
.Mais tarde, disse ele com precipitao.
.Nada, meu senhor, retrucou Cirino, quanto mais
cedo, melhor.  o que lhe digo.
.Mas, que pressa tem mec? perguntou Pereira
com certa desconfiana.
.Eu? respondeu o outro sem perceber a inteno,
nenhuma. mesmo para bem da moa.
Acenderam-se os olhos de Pereira de repentino
brilho.
.E como sabe que minha filha  moa? exclamou
com vivacidade,
.Pois no foi o Sr. mesmo quem mo disse na prosa
do caminho?
.Ah!...  verdade. Ela ainda no  moa...
Quatorze, quinze anos, quando
muito... Quinze anos e meio... Uma criana,
coitadinha! . . .
.Enfim, replicou o outro, seja como for. Quando o
Sr. quiser, venha procurar.
Enquanto espero, remexerei nas minhas malas e
tirarei alguns remdios para
t-los mais a mo.
.Muito que bem, aprovou Pereira, bote os seus
trens naquele canto e fique
descansado: ningum bulira neles... Quanto 
minha filha... eu j venho... dou
um pulo l dentro, e... depois conversaremos.
V.AVISO PRVIO
Onde h mulheres, a se congregam
todos os males a um
tempo.
Menandro
Nunca  bom que um Homem
sensato eduque seus filhos de
modo a desenvolver-lhes demais o
esprito
Eurpedes, Media
Filhos, sois para os homens o
encanto da alma.
Menandro
Estava Cirino fazendo o inventrio da sua roupa e j
comeava a anoitecer,
quando Pereira novamente a ele se chegou.
.Doutor, disse o mineiro, pode agora Meca entrar
para ver a pequena. Est com o
pulso que nem um fio, mas no tem febre de
qualidade nenhuma.
.Assim e bem melhor, respondeu Cirino.
E, arranjando precipitadamente o que havia tirado
da canastra, fechou-a e ps-se de p.
Antes de sair da sala, deteve Pereira o hspede
com ar de quem precisava tocar
em assunto de gravidade e ao mesmo tempo de
difcil explicao.
Afinal comeou meio hesitante:
.Sr. Cirino, eu c sou homem muito bom de gnio,
multo amigo de todos, muito
acomodado e que tenho o corao perto da boca
como vosmec deve ter visto...
.Por certo, concordou o outro.
.Pois bem, mas... tenho um grande defeito; sou
muito desconfiado. Vai o doutor
entrar no interior da minha casa e... deve portar-se
como...
.Oh, Sr Pereira! atalhou Cirino com animao, mas
sem grande estranheza, pois
conhecia o zelo com que os homens do serto
guardam da vista dos profanos os
seus aposentos domsticos, posso gabar-me de ter
sido recebido no seio de muita
famlia honesta e sei proceder como devo.
Expandiu-se um tanto o rosto do mineiro.
.Vejo, disse ele com algum acanhamento, que o
doutor no e nenhum p-rapado,
mas nunca  bom facilitar... E j que no h outro
remdio, vou dizer-lhe todos
os meus segredos... No metem vergonha a
ningum, com o favor de Deus; mas em
negcios da minha casa no gosto de bater lngua...
Minha filha Nocncia fez 18
anos pelo Natal, e  rapariga que pela feio parece
moa de cidade, muito
ariscazinha de modos mas bonita e boa deveras...
Coitada, foi criada sem me, e
aqui nestes fundes. Tenho outro filho, este um
latago, barbudo e grosso que
est trabalhando agora em portadas para as bandas
do Rio.
.Ora muito que bem, continuou Pereira caindo aos
poucos na habitual garrulice,
quando vi a menina tomar corpo, tratei logo de
cas-la.
.Ah!  casada? perguntou Cirino.
.Isto ,  e no e. A coisa est apalavrada. Por
aqui costuma labutar no
costela do gado para So Paulo um homem de mocheia,
que talvez o Sr.
conhea... o Maneco Doca...
.No, respondeu Cirino abanando a cabea.
.Pois isso  um homem s direitas, desempenado
e trabucador como ele s... fura
estes sertes todos e vem tangendo pontes de
gado que metem pasmo. Tambm dizem
que tem bichado muito e ajuntado cobre grosso, o
que  possvel, porque no 
gastador nem dado a mulheres. Uma feita que
estava aqui de pousada... olhe,
mesmo neste lugar onde estava mec inda
agorinha, falei-lhe em casamento... isto
, dei-lhe uns toques .. porque os pais devem
tomar isso a si para bem de suas
famlias; no acha?
.Boa dvida, aprovou Cirino, dou-lhe toda a razo;
era do seu dever.
.Pois bem, o Maneco ficou ansim meio em dvida;
mas quando lhe mostrei a
pequena, foi outra cantiga... Ah! tambm  uma
menina
E Pereira, esquecido das primeiras prevenes, deu
um muxoxo expressivo,
apoiando a palma da mo aberta de encontro aos
grossos lbios
.Agora, est ela um tanto desfeita: mas, quando
tem sade  coradinha que nem
mangaba do areal. Tem cabelos compridos e finos
como seda de paina, um nariz
mimoso e uns olhos matadores . . .
Nem parece filha de quem ...
A gabes imprudentes era levado Pereira pelo amor
paterno.
Foi o que repentinamente pensou l consigo, de
modo que, reprimindo-se, disse
com hesitao manifesta:
.Esta obrigao de casar as mulheres  o diabo!..
Se no tomam estado, ficam
juraras e fanadinhas...; se casam podem cair nas
mos de algum marido malvado...
E depois, as histrias! . Ih meu Deus, mulheres
numa casa,  coisa de meter
medo... So redomas de vidro que tudo pode
quebrar... Enfim, minha filha,
enquanto solteira, honrou o nome de meus pais... O
Maneco que se agente,
quando a tiver por sua .. Com gente de saia no h
que fiar... Cruz! botam
famlias inteiras a perder, enquanto o demo esfrega
um olho.
Esta opinio injuriosa sobre as mulheres  em geral
corrente nos nossos sertes
e traz como conseqncia imediata e prtica, alm
da rigorosa clausura em que
so mantidas, no s o casamento convencionado
entre parentes muito chegados
para filhos de menor idade, mas sobretudo os
numerosos crimes cometidos, mal se
suspeita possibilidade de qualquer intriga amorosa
entre pessoa da famlia e
algum estranho.
Desenvolveu Pereira todas aquelas idias e
aplaudiu a prudncia de to
preventivas medidas.
.Eu repito, disse ele com calor, isto de mulheres,
no h que fiar. Bem faziam
os nossos do tempo antigo. As raparigas andavam
direitinhas que nem um fuso...
Uma piscadela de olho mais duvidosa, era logo
pau... Contaram-me que hoje l nas
cidades... arrenego!... no h menina, por
pobrezinha que seja, que no saiba
ler livros de letra de forma e garatujar no papel...
que deixe de ir a
fononatas com vestidos abertos na frente como
raparigas fadistas e que
saracoteiam em danas e falam alto e mostram os
dentes por d c aquela palha
com qualquer tafulo malcriado... pois pelintras e
beldroegas no faltam..
Cruz!... Assim, tambm  demais, no acha? C no
meu modo de pensar, entendo que
no se maltratem as coitadinhas, mas tambm 
preciso no dar asas s
formigas... Quando elas ficam taludas, atamanca-se
uma festana para cas-las
com um rapaz decente ou algum primo, e acabou-se
a historia...
.Depois, acrescentou ele abrindo expressivamente
com o polegar a plpebra
inferior dos olhos, cautela e faca afiada para algum
meliante que se faca de
tolo e venha engraar-se fora da vila e termo...
Minha filha...
Pereira mudou completamente de tom:
.Pobrezinha... Por esta no h de vir o mal ao
mundo...  uma pombinha do
cu... To boa, to carinhosa!... E feiticeira!!!
No posso com ela.. s o pensar em que tenho de
entreg-la nas mos de um homem,
bole comigo todo... E preciso, porm. H anos...
devia j ter cuidado nesse
arranjo, mas... no sei... cada vez que pensava
nisso... caia-me a alma aos ps.
Tambm  menina que no foi criada como as
mais... Ah! Sr. Cirino, isto de
filhos, so pedaos do corao que a gente arranca
do corpo e bota a andar por
esse mundo de Cristo.
Umedeceram-se ligeiramente os clios do bom pai.
.O meu mais velho pra, Deus sabe onde... Se eu
morresse neste instante, ficava
a pequena ao desamparo... Tambm, era preciso
acabar com esta incerteza... Alm
disso, o Maneco prometeu-me deix-la aqui em
casa, e deste modo fica tudo
arranjado... isto , remediado, filha casada  traste
que no pertence mais ao
pai.
Houve uns instantes de silncio.
.Agora, prosseguiu Pereira com certo vexame, que
eu tudo lhe disse, peo-lhe
uma coisa: veja s a doente e no olhe para
Nocncia... falei assim a mec,
porque era de minha obrigao... Homem nenhum,
sem ser muito chegado a este seu
criado, pisou nunca no quarto de minha filha... Eu
lhe juro... S em casos
destes, de extrema perciso...
.Sr. Pereira, replicou Cirino com calma, l lhe disse
e torno-lhe a dizer que,
como mdico, estou h muito tempo acostumado a
lidar com famlias e a
respeit-las. t: este meu dever, e ate hoje, graas a
Deus, a minha fama 
boa... Quanto s mulheres, no tenho as suas
opinies, nem as acho razoveis nem
de justia. Entretanto,  intil discutirmos porque
sei que isso so prevenes
vindas de longe, e quem torto nasce, tarde ou
nunca se endireita... O Sr.
falou-me com toda a franqueza, e tambm com
franqueza lhe quero responder. No
meu parecer, as mulheres so to boas como nos,
se no melhores: no h, pois,
motivo para tanto desconfiar delas e ter os homens
em to boa conta... Enfim,
essas suas idias podem quadrar-lhe  vontade, e 
costume meu antigo a ningum
contrariar, para viver bem com todos e deles
merecer o tratamento que julgo ter
direito a receber. Cuide cada qual de si, olhe Deus
para todos ns, e ningum
queira arvorar-se em palmatria do mundo.
Tal profisso de f, expedida em tom dogmtico e
superior, pareceu impressionar
agradavelmente a Pereira, que fora aplaudindo com
expressivo movimento de cabea
a sensatez dos conceitos e a fluncia da frase.
VI . INOCNCIA
Nesta donzela  que se acham
juntas a minha vida e a minha
morte.
Henoch, O Livro da Amizade
Jamais vira coisa to perfeita como
o seu rosto plido. Os
seus olhos franjados de sedosos
clios multo espessos e o
seu ar meigo e doentio.
George Sand, Os Mestres Galteiros
Tudo, em Fenela, realava a idia
de uma miniatura. Alm
do mais havia em sua fisionomia e,
sobretudo, no olhar
extraordinria prontido, fogo e
atilamento.
Walter Scott, Peveril do Pico
Depois das explicaes dados ao seu hspede,
sentiu-se o mineiro mais
despreocupado.
.Ento, disse ele, se quiser, vamos j ver a nossa
doentinha.
. Com muito gosto, concordou Cirino.
E saindo da sala, acompanhou Pereira, que o fez
passar por duas cercas e rodear
a casa toda, antes de tomar a porta do fundo,
fronteira a magnifico laranjal,
naquela ocasio todo pontuado das brancas e
olorosas flores.
.Neste lugar, disse o mineiro apontando para o
pomar, todos os dias se juntam
tamanhos bandos de granas, que  um barulho dos
meus pecados. Nocncia gosta
muito disso e vem sempre coser debaixo do
arvoredo. ~ uma menina esquisita...
Parando no limiar da porta, continuou com
expanso:
.Nem o Sr. imagina... s vezes, aquela criana tem
lembranas e perguntas que
me fazem embatucar... Aqui, havia um livro de
horas da minha defunta av.
...Pois no  que um belo dia ela me pediu que lhe
ensinasse a ler?... Que idia!
.. Ainda h pouco tempo me disse que quisera ter
nascido princesa... Eu lhe
retruquei: E sabe voc o que  ser princesa? Sei,
me secundou ela com toda a
clareza,  uma moca muito boa, muito bonita, que
tem uma coroa de diamantes na
cabea, muitos lavrados no pescoo e que manda
nos homens... Fiquei meio tonto E
se o Sr. visse os modos que tem com os bichinhos?!
. . . Parece que est falando
com eles e que os entende... Uma bicharia, em
chegando ao p de Nocncia, fica
mansa que nem ovelhinha parida de fresco .. Se
fosse agora a contar-lhe
histrias dessa rapariga, seria um no acabar
nunca... Entremos, que  melhor...
Quando Cirino penetrou no quarto da filha do
mineiro, era quase noite, de
maneira que, no primeiro olhar que atirou ao redor
de si, s pode lobrigar, alm
de diversos trastes de formas antiquadas, uma
dessas camas, muito em uso no
interior; altas e largas, feitas de tiras de couro
engradados. Estava encostada
a um canto, e nela havia uma pessoa deitada.
Mandara Pereira acender uma vela de sebo. Vinda a
luz, aproximaram-se ambos do
leito da enferma que, achegando ao corpo e
puxando para debaixo do queixo uma
coberta de algodo de Minas, se encolheu toda, e
voltou-se para os que entravam.
.Est aqui o doutor, disse-lhe Pereira, que vem
curar-te de vez
.Boas-noites, dona, saudou Cirino.
Tmida voz murmurou uma resposta, ao passo que o
jovem, no seu papel de mdico,
se sentava num escabelo junto  cama e tomava o
pulso  doente.
Caa ento luz de chapa sobre ela, iluminando-lhe o
rosto, parte do colo e da
cabea, coberta por um leno vermelho atado por
trs da nuca.
Apesar de bastante descorada e um tanto magra,
era Inocncia de beleza
deslumbrante.
Do seu rosto irradiava singela expresso de
encantadora ingenuidade, realada
pela meiguice do olhar sereno que, a custo, parecia
coar por entre os clios
sedosos a franjar-lhe as plpebras, e compridos a
ponto de projetarem sombras
nas mimosas faces.
Era o nariz fino, um bocadinho arqueado; a boca
pequena, e o queixo
admiravelmente torneado.
Ao erguer a cabea para tirar o brao de sob o
lenol, descera um nada a
camisinha de crivo que vestia, deixando nu um colo
de fascinadora alvura, em que
ressaltava um ou outro sinal de nascena.
Razes de sobra tinha, pois, o pretenso facultativo
para sentir a mo fria e um
tanto incerta, e no poder atinar com o pulso de to
gentil cliente.
.Ento? perguntou o pai.
.Febre nenhuma, respondeu Cirino, cujos olhos
fitavam com mal disfarada
surpresa as feies de Inocncia.
.E que temos que fazer?
.Dar-lhe hoje mesmo um suador de folhas de
laranjeira da terra a ver se
transpira bastante e, quando for meia-noite,
acordar-me para vir administrar uma
boa dose de sulfato.
Levantara a doente os olhos e os cravara em Cirino,
para seguir com ateno as
prescries que lhe deviam restituir a sade.
.No tem fome nenhuma, observou o pai; h
quase trs dias que s vive de
beberagens. 11: uma ardncia continua, isto at
nem parecem maleitas..
.Tanto melhor, replicou o moo; amanh ver que a
febre lhe sai do corpo, e
daqui a uma semana sua filha est de p com
certeza. Sou eu que lhe afiano.
.Fale o doutor pela boca de um anjo, disse Pereira
com alegria.
.Ho de as cores voltar logo, continuou Cirino.
Ligeiramente enrubesceu Inocncia e descansou a
cabea no travesseiro.
.Por que amarrou esse leno? perguntou em
seguida o moo.
.Por nada, respondeu ela com acanhamento.
. Sente dor de cabea?
.Nhor-no.
.Tire-o, pois: convm no chamar o sangue; solte
pelo contrrio, os cabelos,
Inocncia obedeceu e descobriu uma espessa
cabeleira, negra como o mago da
cabina e que em liberdade devia cair ate abaixo da
cintura. Estava enrolado em
bastas tranas, que davam duas voltas inteiras ao
redor do cocoruto
. preciso, continuou Cirino, ter de dia o quarto
arejado e por a cama na linha
do nascente ao poente.
.Amanh de manhzinha hei de vir-la, disse o
mineiro.
.Bom, por hoje ento, ou melhor, agora mesmo, o
suador. Fechem tudo, e que a
dona sue bem. A meia-noite, mais ou menos, virei
aqui dar-lhe a mezinha.
Sossegue o seu espirito e reze duas Ave-Marias
para que a quina faa logo
efeito.
.Nhor-sim, balbuciou a enferma.
.No lhe di a luz nos olhos? perguntou Cirino,
achegando-lhe um momento a vela ao rosto.
.Pouco... .um nadinha.
.Isso  bom sinal. Creio que no h de ser nada.
E levantando-se, despediu-se:
.Ate logo, sinh-moa.
Depois do que, convidou Pereira a sair.
Este acenou para algum que estava num canto do
quarto e na sombra.
. Tico, disse ele, venha c...
Levantou-se, a este chamado, um ano muito
entanguido, embora perfeitamente
proporcionado em todos os seus membros. Tinha o
rosto sulcado de rugas, como se
j fora entrado em anos; mas os olhinhos vivos e a
negrejante guedelha mostravam
idade pouco adiantada. Suas perninhas um tanto
arqueadas terminavam em ps
largos e chutos que, sem grave desarranjo na
conformao, poderiam pertencer a
qualquer palmpede.
Trajava comprida blusa pardo sobre calas que, por
haverem pertencido a quem
quer que fosse muito mais alto, formavam embaixo
volumosa rodilha, apesar de
estarem dobradas. A cabea, trazia um chapu de
palha de carand sem copa, de
maneira que a melena lhe aparecia toda arrepiada e
erguida em torcidas e
emaranhadas grenhas.
.Oh! exclamou Cirino ao ver entrar no crculo de luz
to estranha figura, isto
deveras  um tico de gente.
.No anarquize o meu Tonico, protestou sorrindose
Pereira. Ele  pequeno...
mas bom. No , meu nanico?
O homnculo riu-se, ou melhor, fez uma careta
mostrando dentinhos alvos e
agudos, ao passo que deitava para Cirino olhar
inquisidor e altivo.
.0 Sr. v, doutor, continuou Pereira, esta
criaturinha de Cristo ouve
perfeitamente tudo quanto se lhe diz e logo
compreende. No pode falar... isto
, sempre pode dizer uma palavra ou outra, mas
muito a custo e quase a estourar
de raiva e de canseira. Quando se mete a querer
explicar qualquer coisa,  um
barulho dos seiscentos, uma gritaria dos meus
Recados, onde aparece uma voz
aqui, outra acol, mais cristzinhas no meio da
barafunda.
. que no lhe cortaram a lngua, observou Cirino.
.No tinha nada que cortar, replicou Pereira. De
nascena  o defeito e no
pode ser remediado. Mas isto  um diabrete, que
cruza este serto de cabo a
rabo, a todas horas do dia e da noite. No 
verdade, Tico?
O ano abanou a cabea, olhando com orgulho para
Cirino.
.Mas  filho aqui da casa? perguntou este.
.Nhor-no; tem me  beira do Rio Sucuri, daqui
a quarenta lguas, e envereda
de l para ca num instante, vindo a pousar pelas
casas, que todas recebem com
gosto, porque  bichinho que no faz mal a
ningum. Aqui fica duas, trs e mais
semanas e depois dispara como um mateiro para a
casa da me. E uma espcie de
cachorro de Nocncia. No , Tico?
Fez o mudo sinal que sim e apontou com ar risonho
para o lado da moa.
Pereira, depois de todas aquelas explicaes que o
ano parecia ouvir com
satisfao, disse, voltando-se para este, ou melhor
abaixando-se em cima da sua cabea:
.Agora, meu filho, vai ao curral grande e apanha
para mim uma mozada de folhas
de laranjeira da terra... daquele p grande que
encosta na tronqueira.
Mostrou o homnculo com expressivo gesto que
entendera e saiu correndo.
Ia Cirino deixar o quarto, no sem ter olhado com
demora para o lugar onde
estava deitada a enferma, quando Pereira o
chamou:
. doutor, Nocncia quer beber um pouco de gua.
. . Far mal?
.Aqui no h limes-doces? indagou o moo.
. E um nunca acabar... e dos melhores.
.Pois ento faa sua filha chupar uns gomos.
Pereira, depois de ter paternalmente arranjado e
dispostos os cobertores ao
redor do corpo da menina, acompanhou Cirino que,
parado  porta de sada, estava
mirando as primeiras estrelas da noite.
.Vosmec achou doutor, perguntou o mineiro com
voz um tanto trmula, algum
perigo no que tem aquele anjinho
.No, absolutamente no, respondeu Cirino. Ver o
Sr. que, daqui a trs dias,
sua filha no tem mais nada.
.Malditas febres!... Quando no derrubam um
cristo, o amofinam anos
inteiros... Eu no quisera que minha filha ficasse
esbranquiada, nem feia .. As
moas quando no so bonitas,  que esto
doentes... Ah! mas ia me esquecendo
dos limes-doces... Que cabea! . . .
Adiantou-se Pereira no terreiro e, pondo as mos
junto  boca chamou com voz forte:
. Tico!
Prolongado grito respondeu-lhe a certa distncia
O mineiro ps-se a assobiar com modulaes 
maneira dos ndios.
Houve uns momentos de silencio; depois veio
correndo o ano e, chegando-se para
perto, mostrou por sinais que no ouvira bem o
recado.
.Uns limes-doces, j!... Nocncia est com
sede...
Disparou o pequeno como uma seta, sumindo-se
logo na densa escurido que j se
espessara entre as rvores do pomar.
VII. O NATURALISTA
A minha filosofia toda resume-se
em opor a pacincia as
mil o uma contrariedades de que a
vida est inada.
Hoffmann, O Reflexo Perdido
Serena e quase luminosa corria a noite. No paro
campo do cu cintilava, com
iriante brilho, um sem-nmero de estrelas,
projetando na larga fita da estrada
do serto, misteriosa e dbia claridade.
Pelo caminhar dos astros havia de ser quase meianoite;
e, entretanto, a essa
hora morta, em que s vagueiam  busca de pasto
os animais bravios do deserto,
vinham a passo lento, pelo caminho real, dois
homens, um a p, outro montado
numa besta magra e j meio estafada.
Mostrava o pedestre ser, como de feito era, um
simples camarada, e vinha com
grossa e comprida vara na mo rangendo diante de
si lerdo e orelhudo burro,
sobre cujo lombo se erguia elevada carga de
canastras e malinhas, cobertas por
um grande ligam
Quem estava montado e cavalgava todo encurvado
sobre o selim, com as pernas
muito estiradas e abertas, parecia entregue a
profunda cogitao. Devia ser
homem bastante alto e esguio e, como o
observamos, apesar da hora adiantada da
noite, com olhos de romancista, diremos desde j
que tinha rosto redondo,
juvenil, olhos gzeos, esbugalhados, nariz pequeno
e arrebitado, barbas
compridas, escorrido bigode e cabelos muito louras.
O seu traje era o comum em
viagem: grandes botas, palet de alpaca em
extremo folgado, e chapu-do-chile
desabado. Trazia, entretanto, a tiracolo, umas
quatro ou cinco caixinhas de
lunetas ou quaisquer outros instrumentos especiais,
e na mo segurava um pau
fino e rolio, preso a uma sacola de fina gaze corde-
rosa.
Homem de meia-idade, de fisionomia vulgar e
balorda, era o camarada, e, pelos
modos e impacincia com que fustigava o animal de
carga, indicava no estar
afeito ao gnero de vida que exercia.
Em silencio e na ordem indicada, caminhava a
tropinha: o burro carregado na
frente, logo atrs o inbil recoveiro, em seguida
fechando a marcha, o viajante
encarrapitado na magra cavalgadura.
Houve momento em que, depois de algumas
pautadas de incitamento, pareceu querer
o cargueiro protestar contra o tratamento que to
fora de hora recebia e,
fincando os ps na areia, resolutamente parou.
Provocou a relutncia, porem, uma chuva de
verdadeiras cacetadas que ecoaram
longe e se confundiam com os brados e pragas do
camarada.
.Burro do diabo! berrava ele. Mil raios te partam,
bicho danado! Arrebenta de
uma vez!... V para os infernos! Entrega a carcaa
aos urubus!
Durante uns bons minutos, o cavaleiro, que fizera
parar o seu animal, esperou
pacientemente qualquer resultado: ou que a
renitente azmola se desse afinal por
convencida e avanasse, ou ento estourasse.
.Juque, disse ele de repente com acento
fortemente gutural e que denunciava a
origem teutnica, se porretada chove assim no seu
lombo, voc gosta?
O homem a quem haviam dado o nome de Juca,
voltou-se com arrebatamento:
.Ora, Mochu, isto  um perverso sem-vergonha,
que deve morrer debaixo do pau.
Esta vida no me serve!...
.Mas, Juque, replicou o alemo com inaltervel
calma, quem sabe se a cangalha
no esta ferindo a pobre criatura?
.Qual! bradou o camarada, isto  manha s.
Conheo este safado, este infame, este...
E, levantando o varapau, descarregou tal paulada
no traseiro do animal que lhe
fez soltar surdo gemido de dor.
.Juque, observou o patro em tom pausado, quem
sabe se na frente h pau cado
ou pedra, que no deixe ele ir para diante?
.Pedra, Mochu, e pau na cabea at rach-la,  que
precisa este ladro...
.V, Juque, insistiu o alemo.
.Ora, Mochu...
.V, sempre...
Saiu resmungando o camarada de detrs do borrego
e deu a volta.
Na frente avistou logo o ramo quebrado que Pereira
deixara cair no meio da
estrada para desviar os acompanhadores de Cirino.
.U! U! exclamou com muita surpresa, aqui
esteve algum e ps este sinal para
que neo se passasse...
..Eu no disse a vce, replicou o cavaleiro com voz
ate certo ponto triunfante.
Asno tem razo: para diante h alguma coisa.
.Mas na vila, contestou Jos, nos disseram que o
caminho vai sempre direitinho
sem atrapalhao nenhuma...
.Na vila disseram isso, confirmou o outro.
.E ento?
E ento? repetiu o alemo.
Houve uns segundos de silncio.
Depois o cavaleiro acrescentou com a mesma
imperturbvel serenidade, e como que
achando explicao muitssimo natural:
.Na vila muita gente no sabe caminho. :...
.Mil milhes de diabos, interrompeu o camarada
todo frentico, levem o gosto
desandar por esses matos do inferno a horas to
perdidas! Eu bem disse a Mochu,
ningum viaja assim. Isto  uma calamidade. . .
. que, atalhou por seu turno o patro, o que  que
adianta estar a berrar como
um danado?... Olhe, antes, se por ai vce no v
algum caminho do lado.
Obedeceu o outro e sem dificuldade achou a
entrada da picada que levava a morada de Pereira.
.Esta aqui, Mochu, est aqui! anunciou ele com
alegria. ,: um trilho que corta
a estrada e vai dar nalguma casa pertinho ..
Mudando repentinamente de tom, observou com voz
tristonha:
.Contanto que ate l no haja alguma lgua de
beio..
.Ah! eu no lhe disse, respondeu o alemo. Agora
toque barro devagarinho; ele
anda que nem vento.
Pareceu o animal compreender, o alcance moral da
vitria que acabara de colher e
prestes enveredou pela trilha com alento novo e at
desusada celeridade.
A razo  que tambm da a pouco sorvia ele,
teimoso e marralheiro bicho, como
soem ser os da sua espcie, a bela gua do
ribeiro, em que se haviam refrescado
as cavalgaduras de Cirino e de Pereira.
Vlll.OS HSPEDES DA MEIA-NOITE
Sei, sim, sei que  noite!
Xavier de Maistre, Viagem ao Redor do Meu Quarto
No tardou muito que os dois noturnos viajantes
comeassem a ouvir os latidos
furiosos dos ces que, no terreiro de Pereira,
denunciavam aproximao de gente
suspeita junto  casa entregue a sua vigilante
guarda.
.Por aqui perto fica algum rancho, Mochu, avisou o
camarada; havemos enfim de
descansar hoje .. Mas, que gritaria faz a
cachorrada!... So capazes de nos
engolir antes que venha algum saber se somos
cristos ou no... Safa! Que
canzoada!...  Mochu, o Sr. deve ir na frente...
rompendo a marcha... . Vce,
respondeu o alemo, bate neles com cacete...
.Nada, retrucou Jos com energia, isso no  do
ajuste... Quem est montado,
caminhe adiante... Ainda por cima agora essa!
Depois de resmonear algum tempo, exclamou:
. Ah! espere, j me lembrei de uma coisa.. . O
filho do velho  mitrado. . .
E, dizendo esta palavra, de um s pulo montou na
anca do cargueiro, que, ao
sentir aquele inesperado acrscimo de peso, parou
por instantes e com surdo
ronco procurou lavrar um protesto.
. Juque, observou o alemo sem a menor alterao
na voz, assim burro quebra
cadeira. Depois morre... e vce tem de levar as
cargas dele s costas...
Quis o camarada encetar nova discusso, mas a
esse tempo chegavam ao terreiro,
onde o ataque furioso dos ces justificou a medida
preventiva de Jos, o qual
entrou, todo encolhido atrs das cargas, a gritar
como um possesso:
.0 de casa! Eh! l, gentes!  amigos!
Aumentou a algazarra da cachorrada por tal modo,
que os tropeiros de Cirino,
pousados no rancho prximo, acordaram e bradaram
juntos:
.Que diabo  isto? Temos matinada de
lobisomens?
Abriu-se nesse momento a porta da casa e
apareceu Cirino na frente de Pereira,
trazendo este uma vela que com a mo aberta
amparava da brisa noturna.
.Quem vem l? clamaram os dois a um tempo.
.Camarada e viajante, respondeu com voz forte e
simptica o alemo,
achegando-se  luz e tratando de descer da
cavalgadura. Quem  o dono desta
casa?
.Est aqui ele, respondeu Pereira levantando a
vela acima da cabea para dar
mais claridade em torno de si. .Muito bem,
replicou o recm-chegado. Desejo
agasalho para mim e para o meu criado e peo
muitas desculpas por chegar to tarde.
Aproximara-se tambm o Jos, cuidando logo, no
meio de muxoxos e pragas, de pr
em terra a carga do burrinho, o qual amarrara pelo
cabresto a uma vara fincada no cho.
.Mas, observou Cirino, que faz o Sr. por estas
horas mortas a viajar? . . .
.Deixe o homem entrar, atalhou Pereira, e
acomodar-se com o que achar... Pois,
meu senhor, desapeie. Bem-vindo seja quem
procura teto que  meu.
.Obrigado, obrigado, exclamou com efuso o
estrangeiro.
E, apresentando a larga mo, apertou com tal forca
as de Cirino e Pereira que
lhes fez estalar os dedos.
Em seguida, penetrou na sala e tratou logo de
arranjar os objetos que trazia a
tiracolo, colocando-os cuidadosa e metodicamente
em cima da mesa, no meio dos
olhares de espanto trocados por quantos o estavam
rodeando.
Na verdade, digna de reparo era aquela figura  luz
da bruxuleante vela de sebo;
compridas pernas, corpo pequeno, braos muito
longos e cabelos quase brancos, de
to louros que eram.
.Ser algum bruxo? perguntou a meia voz Cirino a
Pereira.
.Qual! respondeu o mineiro com sinceridade, um
homem to bonito, to bem limpo!
Entrara Jos com uma canastra ao ombro e,
descarregando-a no canto menos escuro
do quarto, julgou dever, sem mais demora, declinar
a qualidade e importncia da
pessoa que lhe servia de amo.
.O Sr. aqui  doutor, disse ele apontando para o
alemo e dirigindo-se para
Cirino...
.Doutor?! exclamou este com despeito.
. Sim, mas doutor que no cura doenas.  alamo
l da estranja, e vem desde a
cidade de So Sebastio do Rio de Janeiro caando
anicetos e picando
borboletas...
. Borboletas? interrompeu com admirao Pereira.
. Acui cui! Por todo o caminho vem apanhando
bichinhos. Olhem... aquele saco
que ele traz...
.O meu camarada, avisou com toda a tranqilidade
e pausa o naturalista,  muito
falador. Os senhores tenham pacincia... Ande,
Juque, deixe de tagarelar! ...
.No, protestou Pereira levado de curiosidade, 
bom saber com quem se lida...
Ento o Sr. vem matando anicetos? mas para que,
Virgem Santssima! . . .
.Para qu? retrucou o camarada descansando as
mos na cintura. O patro e eu j
temos mandado mais de dez caixes todos
cheinhos l para as terras dele...
.Depois o pais fica sem borboletas, respondeu
Cirino, num assomo de despeitado
patriotismo.
.Mas, como  que o Sr. se chama? perguntou
Pereira, voltando-se para o alemo
que estava virado para a parede a contemplar um
desses grandes e sombrios
lepidpteros, da espcie dos esfinges.
.Juque, disse ele sem lhe importar a interpelao e
acenando para o camarada,
depressa... um alfinete, dos grandes... dos
maiores: . .
.Temos histria, avisou Jos, fazendo expressivo
sinal a Cirino, o Sr. vai
ver...
O naturalista, de posse de um comprido acleo,
fincou-o com segura e adestrada
mo bem no meio do inseto, o qual comeou a
bater convulsamente as asas e girar
em torno do centro a que estava preso.
.A pita! A pita! exclamou o patro. Vamos, Juque,
Satisfez Jos o pedido, depois de abrir uma
malinha, onde ia estavam
enfileirados e espetados vinte ou trinta bonitos
bichinhos.
.  uma satrnia .. e no comum, murmurou o
alemo fisgando num pedao de pita
o novo espcime, sobre o qual derramou algumas
gotas de clorofrmio, de um
vidrinho que sacou dum dos muitos bolsos da
sobrecasaca.
.O Sr.  viajante zoologista, no ? perguntou
Cirino, depois que viu terminada a operao.
O interrogado levantou a cabea com surpresa e
respondeu todo risonho:
. Sim, senhor; sim, senhor! Como  que o Sr. o
soube? Viajante naturalista, sim
senhor! Eu vejo que o Sr. e muito instrudo... Muito
bem, muito bem! Muita instruo!
E, abrindo uma carteira de notas, escreveu logo
umas linhas tortuosas.
.Ah! este tambm e doutor, disse Pereira com
certo orgulho por hospedar em sua
casa sabicho de tal quilate.
.Oh, doutor? doutor!? Muito bem, muito bem.
Doutor que curra ?
.Sim, senhor, respondeu com gravidade o prprio
Cirino.
. Ah! . . . Ah! muito bem.
Pereira, porm, voltara  carga.
.Mas, como  que o Sr. se chama?
.Meyer, respondeu o alemo, para o servir.
.Mala ? perguntou o mineiro.
. No, senhor, Meyer; sou da Saxnia, da
Alemanha.
.Isto deve ser o mesmo que Mala na terra dele,
observou Pereira, abaixando um
pouco a voz.
O camarada Jos, no entretanto, trouxera para
dentro todas as malas e canastras
e sem-cerimnia alguma intrometeu-se na
conversao.
.Este Mochu, disse, vem de muito longe s por
causa destas historias de
barboletas, e com o negcio ganha coco grosso...
Quanto a mim
. Juque, atalhou Meyer com fleuma, vai bota os
animais no pasto.
.No, disse Pereira, solte-os no terreiro at raiar o
dia, roero o que
acharem; h por a muito resto de milho nos
sabugos...
.Pois  o que fiz, declarou o camarada; mas como
lhes dizia, sou carioca do Rio
de Janeiro, chamo-me Jos Pinho e venho de bem
longe acompanhando este alamo,
que  um homem muito de bem.
.  verdade? indagou Pereira, olhando para Meyer.
Este esbugalhou mais os olhos e confirmou tudo
com um sinal gutural que ecoou em
toda a sala.
.Ele o que tem, continuou Jos  que  muito
teimoso. Eu lhe digo, sempre:
Mochu, isto de viajar de noite  uma tolice e uma
canseira -toa... Qual! pensa
l no seu bestunto que assim  melhor. Tambm a
gente anda por estas estradas
afora como se fosse alma do outro mundo a penar...
algum currupira... ou boitat
... Cruzes!
.Pois, Sr. Mala, disse Pereira, tome posse desta
sala, e faa de conta que 
sua... Se quiser uma rede...
.Muito obrigado, muito obrigado! . minha cama 
canastra. No se incomode...
.Amanh ento conversaremos, concluiu Pereira,
esfregando as mos de contente.
Prometia-lhe na verdade a companhia boas ocasies
de dar largas  volubilidade,
sobretudo com o tal Jos Pinho, filho da Corte do
Rio de Janeiro e, pelo que
parecia, tagarela de grande fora.
.Assim, pois, disse Pereira, durmam bem o
restante da noite.
E abriu a porta para se retirar.
.Ui! exclamou ele olhando para o cu. Doutor, j
passa muito da meia-noite...
Com a breca, o Cruzeiro est virando de uma vez. .
.
Cirino, que tornara a deitar-se, com presteza calou
as botas e tomou uns
papeizinhos que de antemo preparara e pusera a
um canto da mesa.
.No faz mal, disse, j estou com tudo pronto e
em tempo havemos de dar o
remdio. V o Sr. deitar um pouco de caf num pires
e acorde sua filha, caso
esteja dormindo, como  muito natural depois do
suador.
Saiu ento Pereira, levando a vela e, acompanhado
de Cirino, deu volta  casa
para buscar a entrada dos aposentos interiores.
Ficaram, pois, o alemo e seu criado em completa
escurido; ambos, porm, j
estirados a fio comprido, um em cima das canastras
tendo por travesseiro rolia
maleta, outro sobre o ligal aberto e estendido no
meio do aposento.
.O Mochu, perguntou Jos, que mastigava qualquer
coisa, est j ferrado?
.Ferrado? replicou Meyer levantando a cabea. Que
 isto agora?
.Pergunto se j pegou no sono?
.Pois, Juque, se eu falo, como  que posso estar
dormindo?
.Ento no quer petiscar?
.Comer, no ?
.Esta visto.
.Oh! Se tivesse!... Pensava agora nisso...
.Pois eu estou manducando... Quer um bocadinho?
.Que  que vce me da?
.Rapadura com farinha de milho... Est deveras de
patente!... Gostoso como
tudo...
.Ento, Juque, passe-me um pouco.
Levantou-se o ofertante com toda a boa vontade e
s apalpadelas comeou a
procurar a cama do patro, o que s conseguiu
depois de ter esbarrado na mesa e
numas cangalhas velhas atiradas a um canto da
sala.
Afinal agarrou num dos ps do naturalista, a quem
entregou uma nesga de rapadura
e uns restos de farinha embrulhados em papel,
pitana mais que sbria, que foi
devorada com satisfao pelo bom do saxnio.
IX . O MEDICAMENTO
No tendes que labutar com doente
muito grave, e eis o
servio que de vs esporo...
Hoffmann, A Porta Entaipada
Quem me poder dizer por que me
parece to duro o leito?..
Por que passei esta noite que se
me figurou to longa, sem
gozar um momento de sossego?...
Surge a verdade: em meu
seio penetraram as agudas setas do
amor.
Ovdio, Elegia
Quando Cirino entrou no quarto de Inocncia, j
estava ela acordada. Sentara-se
o pai  cabeceira da cama, a cujos ps se acocorara
Tico, o anuo, sobre uma
grande pele de ona.
.Ento, perguntou o mdico tomando o pulso 
mimosa doente, como se sente?
.Melhor, respondeu ela.
.Suou bastante?
.Ensopei trs camisas.
.Muito bem... Agora a senhora esta com a pele
fresquinha que mete gosto. Isto
de sezes, no e nada, se a gente acode a tempo e
o sangue no tem maus humores.
Mas quando tomam conta do corpo, nem o demo
com elas pode. Que  do caf? pediu
ele em seguida a Pereira.
.J vem j... Homem, vou eu mesmo busc-lo, l 
cozinha. A Maria Conga est
ficando uma verdadeira lesma. Venha para
Levantando-se ento da cadeira, indicou-a a Cirino,
a quem fez sentar antes de sair.
Ficou este, pois, ao lado da menina e, como sobre o
lindo rosto batesse de chapa
a luz colocada numa prateleira da parede, ps-se a
contempl-la com enleio e
vagar, ao passo que da sua parte o ano lhe
deitava olhares inquietos e algo
sombrios.
Pousara Inocncia a cabea no travesseiro e, para
ocultar a perturbao de se
ver to de perto observada, fingia dormir. Pelo
menos tinha as grandes plpebras
cerradas e o rosto sereno; mas arfava-lhe
apressado o peito e, de vez em quando,
fugaz rubor lhe tingia as faces descoradas.
Pereira tardava; e Cirino com os olhos fixos, a
fisionomia meditativa e um pouco
de palidez, que denunciava a intima comoo, no
se fartava de admirar a beleza
da gentil doente.
Uma vez, entreabriu os olhos e a medo atirou um
olhar que se cruzou com o do
mancebo, olhar rpido, instantneo, mas que lhe
repercutiu direito ao corao e
lhe fez estremecer o corpo todo.
Sem saber por que, batia-lhe o queixo e um arrepio
de frio lhe circulava nas velas.
.Sente mais febre? perguntou Cirino muito
baixinho.
.No sei, foi a resposta, e resposta demorada.
.Deixe-me ver o seu pulso.
E tomando-lhe a mo, apertou-a com ardor entre as
suas, retendo-a, apesar dos
ligeiros esforos que para a retrair, empregou ela
por vezes.
Nisto, entrou Pereira. Inocncia fechou com
presteza os olhos e Cirino voltou-se
rapidamente, levando um dedo aos lbios para
recomendar silncio.
.Est dormindo, avisou com voz sumida.
.Ora, disse Pereira no mesmo tom, a tal Maria
Conga deixou entornar a
cafeteira, de maneiras que precisei fazer outra
poro. Demorei muito?
.No, respondeu Cirino com toda a sinceridade.
.Mas agora, observou Pereira,  mister acordar a
pequerrucha.
.No h outro remdio.
Chegou-se o pai  cama e, com todo o carinho,
chamou: Nocncia! Nocncia! E como
no a visse despertar logo, sacudiu-a com brandura
ate que ela abrisse uns olhos
espantados.
.Apre! Que sono! disse o bondoso velho. Num
instante que fui l dentro?!...
Vamos, so horas de tomar a mezinha.
Deitara Cirino sulfato de quinina no caf e dilua-o
vagarosamente.
.Olhe, dona, aconselhou ele, beba de um s trago
e chupe, logo depois, uns
gomos de limo-doce.
.Ento  muito mau? choramingou a doente.
. amargo; mas num gole mec toma isto.
.Papai, recalcitrou a moa, no quero... eu no
quero.
.Ora, filhinha do meu corao, no se canhe; e
preciso... Amanh h de voc
sentir-se boa; no  doutor?
.Com certeza, se tomar esta poo, assegurou
Cirino.
.Depois, quando eu u l  vila, hei de trazer para
voc uma coisa bonita... uns
lavrados, Ouviu? .Nhor-sim.
.Ande, Tico, acrescentou o mineiro voltando-se
para o ano, vai depressa buscar
limo-doce; na cozinha h um meio cascado.
.Tome, dona, implorou por seu turno Cirino,
aproximando o pires da boca da
formosa medicanda.
Levantou uns olhos splices e, agarrando
resolutamerte o remdio, bebeu-o todo
de um jacto.
Depois deu um suspiro de enjo e ficou com os
lbios entreabertos,  espera que
o adocicado sumo do limo lhe tirasse o amargor do
medicamento.
.Ento, exclamou Pereira, era maior o medo que a
coisa em si! Voc tomou a dose
numa relancina.
.Amanh de manh, ou melhor, hoje de
madrugada, temos que engolir outra dose,.
declarou Cirino. Depois, a dona, poder levantar-se.
.Ainda outra? protestou Inocncia com gesto de
amuo.
.Nh-sim;  de toda a perciso, replicou o amoroso
mdico, modificando pela
suavidade da voz a dureza das prescries.
.Decerto, corroborou tambm Pereira.
.Depois deve mec deixar de comer carne fresca,
ervas, ovos ou farinha de milho
por um ms inteiro, e de provar leite por muito
tempo. H de sustentar-se s de
carne-de-sol bem seca, com arroz quase sem sal e
por cima tomar caf com muito
pouco doce.
.Fica ao meu cuidado, asseverou Pereira, olhar
para o rejume .
.Agora, durma bem e no se assuste de lhe
aparecer zoeira nos ouvidos e ate de
se sentir mouca. Isto  da mezinha; pelo contrrio,
 muito bom sinal.
.Estes doutores sabem tudo, murmurou Pereira,
dando ligeiro estalo com a
lngua.
No se descuidou Cirino, antes de se retirar, de
novamente tomar o pulso e, 
conta de procurar a artria, assentou toda a mo no
punho da donzela,
envolvendo-lhe o brao e apertando-o docemente.
Saiu-se mal de tudo isso; porque, se tratava da
cura de algum, para si
arranjava enfermidade e bem grave.
Com efeito, de volta  sala dos hspedes, no pode
mais conciliar o sono e, sem
que houvesse conseguido fruir um s momento de
descanso, viu ralar a aurora.
Parecia-lhe que o peito ardia todo em chamas a
subirem-lhe s faces,
abrasando-lhe o pensamento.
Aquele venusto rosto que contemplara a ss;
aqueles formosos olhos, cujo brilho
a furto percebera, aquele colo alabastrino que a
medo se descobrira, aquelas
indecisas curvas de um corpo adorvel, todo aquele
conjunto harmonioso e
encantador que vira  luz de frouxa vela, fatalmente
o lanavam nesse plago
semeado de tormentos que se chama paixo!
Efeitos de to temvel mal j ia o msero sentindo.
Inquieto se revolvia (fato
virgem!) no duro leito, ao passo que a respirao
isocrnica e ruidosa do
companheiro de hospedagem, o alemo Meyer,
respondia ao sonoro ressonar do
grrulo Jos Pinho.
X.A CARTA DE RECOMENDAO
Aquele bom velho, cuja benvola
hospitalidade no tinha
limites, Julgara do seu dever tratar
do melhor modo
possvel a Waverley, tosse ele o
ltimo campons
saxnio... Mas o ttulo de amigo de
Fergus f-lo
considerar como precioso depsito,
merecedor de toda a sua
solicitude e da mal. atenta
obsequiosidade.
Walter Scott, Waverley
Quando Meyer abriu os olhos, j achou Cirino de p,
arranjando uma canastrinha.
.Oh! exclamou ele em tom de louvor, o Sr. madruga
muito.
. verdade, replicou o outro, um tanto melanclico.
.E Juque ainda dorme!... Este Juque parece mais
um tatu do que um homem... Todo
o dia o estou acordando...
E juntando o feito ao dito, foi o pachorrento amo
sacudir o criado. Depois de se
espreguiar  vontade, sentou-se este no couro em
que dormira, e ps-se a
esfregar com todo o vagar os olhos papudos ainda
cheios de sono.
.Deus esteja com vossuncs, disse ele entre dois
bocejos. Ora, Mochu, o Sr.
acordou-me no melhor do sono. Estava sonhando
que voltara para o Rio de Janeiro
e ia acompanhando uma msica pelo Largo do Rocio
afora. Conhece o Largo do
Rocio? perguntou a Cirino.
.No, respondeu-lhe este.
.Xi! Que largo! Hem, Mochu?
E novo bocejo cortou-lhes a descrio da louvada
praa.
.Juque, exclamou Meyer coando a barba com ar
alegre, o dia hoje est claro e
bonito. Havemos de apanhar pelo menos umas doze
borboletas novas.
.E quanto me d Mochu, se eu agarro vinte e
cinco?
.Vinte e cinco? repetiu o alemo com alguma
dvida.
.Sim, vinte e cinco... e at mais, vinte e seis.
Diga, quanto me d?
.Oh! eu dou a vce dois mil-ris.
.Est dito, fecho o negcio. Eu c sou assim, po
po, queijo queijo; to certo
como chamar-me Jos Pinho, seu criado, carioca de
nascimento e batizado na
Freguesia da Lagoa, l para as bandas do Broco,
e...
.Agora, interrompeu Meyer, v buscar gua para
lavar a cara, e tire sabo e
pente na canastra.
.Olhe, Sr. doutor, continuou o camarada sentado
sempre e voltando-se para o
lado de Cirino, esta minha vida  levada de
seiscentos mil diabos. Ns samos do
Rio j h mais de dois anos; no , Mochu?
.Vinte e trs meses, retificou Meyer.
.Pois bem; desde esse tempo estamos a viajar
como se fosse penitencia de
confisso. E no  s isso, no, senhor. Todos os
dias ando pelo menos nove
lguas correndo aqui e acol, dando voltas, caindo,
atrs dos bichos voadores...
. Juque! tentou atalhar Meyer, olhe...
.Pois  o que lhe digo, prosseguiu Jos Pinho.
Tenho hoje uma raiva daquelas
porcarias todas... Nem sei por que, Nosso Senhor
Jesus Cristo foi criar esta
scia de criaturas sem prstimo... Enfim, Ele 
quem sabe. . . Quanto a mim, se
pudesse, atacava fogo em todas as lagartas,
porque da lagarta  que nascem esses
anicetos, que esto enchendo mundos... Mas, veja,
Sr. doutor, l na terra deste
homem,. (coitado,  bem bonzinho e me estima
muito) ! . valem esses bichos
mais do que ouro em p... Tambm, se o Mochu no
gostasse de mim, havra de ser
muito ingrato... Outro como eu no encontra mais,
no, senhor... Tenha a santa
pacincia .. no, senhor, isto  o que lhe posso
afianar.
No meio desse fluxo de palavras, Meyer fora em
pessoa procurar na canastra o
pente e o sabo.
Mostrando os objetos ao falador, ordenou com
energia:
.Cale a boca, Juque, cale a boca, tagarela! V
buscar gua j; seno... no
levo vce ao mato hoje.
Levantou-se de pronto Jos Pinho e meio a
resmungar saiu, tomando uma das
canastras.
.Esse camarada, disse Meyer depois de algum
silncio e para explicar o seu
procedimento,  uma pessoa muito boa... fiel e
inteligente. Mas... fala demais.
-me precioso, porque apanha borboletas com
muito talento e jeito.
Entrando Jos Pinho e ouvindo o final do elogio,
deps, com ar de grave
importncia, a bacia no cho.
Diante dela, e depois de tirar do nariz os culos,
colocou-se logo Meyer, ou
antes acocorou-se e, em relao ao tronco, to
compridas eram as suas pernas,
que, inclinado por sobre a gua, lhe ficava a cabea
 altura dos joelhos.
Levou a abluo uns largos minutos e foi com os
cabelos grudados ao casco e
escorrendo gua que ele se levantou, justamente
quando entrava Pereira.
Nesse momento, assumira o tipo daquele homem
propores do mais pasmoso
grotesco; entretanto, to vria  a apreciao de
cada um, to caprichoso o
julgamento individual, que o mineiro, acercando-se
de Cirino, disse baixinho:
. Vosmec j reparou, amigo, como este estranja 
figura bonita? To arco! e
que olhos que tem!... As mulheres ho de perder a
cachola por causa deste
bicharro... Ento, Sr. Mala, continuou interpelando
em voz alta o seu espcime
de beleza masculina, que tal, passou aqui a noite?
.Oh! Sr. Pereira!... Desculpe, se o no vi... Estava
sem culos. J lhe
respondo... espere um bocadinho.
E ainda todo molhado, correu a tomar os culos,
que assentou em cima dos
salientes lzios.
.Agora, muito bem... Dormi, meu bom amigo, como
quem no tem pecados...
.Ento, observou Cirino, quase mau grado seu,
tenho-os eu; porque, da
meia-noite para c, no pude mais pregar olho...
.Isto e volta de algum namoro, replicou Pereira,
batendo-lhe com fora no ombro
e rindo-se.
Cirino descorou ligeiramente.
. Sim, vosmec  moo... deixou l por Minas
algum rabicho, e de vez em quando
o corao lhe comicha... Est na idade...
.Pode muito bem ser, apoiou Meyer com gravidade.
.No ? insistiu Pereira. Ora, confesse... no lhe
fica mal... Isso  volta de
enguio...
.Juro-lhes, balbuciou Cirino.
.Oh! se , confirmou Jos Pinho, que julgou dever
meter o bedelho na conversa,
eu no Rio de Janeiro... Negcio de salas,  de por
um homem tonto. No lhes
conto nada, mas uma vez...
Voltou-se o alemo para ele com calma, e,
interrompendo-o:
.Juque, v ver onde esto burrinhos e no bote sua
colher, quando gente branca
est falando com o seu patro.
E, como o camarada quisesse retorquir:
.Ande, ande, verberou sempre sereno, discusso
nunca serviu para nada.
Deu Jos meia dzia de muxoxos abafados e foi
embora, praguejando entre dentes.
Novamente sups Meyer dever desculp-lo.
.Bom homem, disse, bom homem... porm fala
terrivelmente!
.Mas agora me conte, perguntou Pereira com ar de
quem queria certificar-se de
coisa posta muito em dvida, deveras o senhor
anda palmeando estes sertes para
fisgar anicetos?
.Pois no, respondeu Meyer com algum
entusiasmo; na minha terra valem muito
dinheiro para estudos, museus e colees. Estou
viajando por conta de meu
governo, e j mandei bastantes caixas todas
cheias... E muito precioso!
.Ora, vejam s, exclamou Pereira. Quem havra de
dizer que at com isso se pode
bichar! Cruz! Um homem destes, um doutor, andar
correndo atrs de vaga-lumes e
voadores do mato, como menino s voltas com
cigarras! Muito se aprende neste
mundo! E quer o senhor saber uma coisa? Se eu no
tivesse famlia, era capaz de
ir com vosmec por esses fundes afora, porque
sempre gostei de lidar com
pessoas de qualidade e instruo... Eu sou assim...
Quem me conhece, bem sabe.
Homem de repentes... Vem-me c uma idia muito
estrambtica s vezes, mas
embirro e acabou-se; porque, se h algum
esturrado e teimoso,  este seu
criado... Quando empaco, empaco de uma boa
vez... Fosse no tempo de solteiro, e
eu me botava com o senhor a catar toda essa
bicharada dos sertes. Era capaz de
ir dar com os ossos l na sua terra... No me olhe
pasmado, no... Isso l eu
era... Nem que tivesse de passar canseiras como
ningum... O caso era
meter-se-me a teno nos cascos... Dito e feito;
acabou-se.. Fossem buscar o
remdio onde quisessem... mas duvido que o
achassem.
.Como vai a doente? perguntou distraidamente
Cirino, cortando aquela catadupa
de palavras.
.Ora estou muito contente. J tomou nova dose, e
parece quase boa. Est com
outra feio. O Sr. fez um milagre...
.Abaixo de Deus e da Virgem purssima, concordou
Cirino com toda a modstia.
.O Sr. no cura? perguntou Pereira a Meyer.
.No senhor. Sou doutor em filosofia pela
universidade de Iena, onde...
.Isso  nome de bicho? atalhou o mineiro.
.No senhor.  uma cidade.
.Ningum diria... Pois, Sr. Mata, continuou Pereira
apontando para Cirino, ali
est um com quem molstias no brincam.
.Ah! rouquejou o alemo abrindo ainda mais os
olhos. Estimo muito conhec-lo
como notabilidade... Nestes lugares aqui  muito
raro...
.Se .! exclamou Pereira. Felizmente passou por c
nem de propsito, para pr
de p a menina... uma filha minha... Caiu-me a
talho de foice e...
No pde Cirino furtar-se a um movimento de
vanglria. Com ar grave interrompeu:
.No fale nisso, Sr. Pereira; o caso era simples.
Febre das enchentes... no
vale quase nada. Vi logo o que era de urgncia; um
simples suador, duas ou trs
doses de sulfato de quinina... e ficou tudo sanado...
E simplicssimo... O
estmago no estava sujo... no havia necessidade
de vomitrio...
Ouvira Meyer estas indicaes teraputicas com os
olhos muito fitos em quem as
dava: depois, voltando-se para Pereira, disse com
um aprobatrio aceno de cabea:
.Pom mdico! Com mdico!
Desse momento em diante, votou Cirino ao alemo
a mais decidida da simpatia; e
Pereira, presenciando o congraamento daqueles
dois homens, de si pra si
ilustres e incontestveis sabiches, sentiu-se feliz
por abrig-los a um tempo
em sua humilde vivenda.
.Ento, disse o mineiro voltando  questo das
borboletas, com o que seu
governo paga-lhe bem, no Sr. Maia?
.Suficientemente... demais, todas as autoridades
deste belo pais muito me
ajudam. Tenho muitos ofcios... cartas de
recomendao. Olhe, quer ver? Juque,
Juque! chamou Meyer, sem reparar que o criado h
muito se fora do quarto,
d-me...  verdade, foi levar os burrinhos  gua. ..
No faz mal... Mostro-lhe j tudo...
.E, procurando entre as cargas uma malinha
coberta de pano impermevel, abriu-a
e tirou um mao de cartas cuidadosamente
numeradas, com fitas de diversas cores.
.Isto  para Miranda, em Mato Grosso. Isto para
Coxim, Cuiab... para Pocon,
Diamantina... isto so cartas cujos donos no
encontrei, e que ho de voltar
para as pessoas que as escreveram.
.E so muitas? perguntou Pereira.
. Trs ou quatro. Vejamos... uma  para o Sr. Joo
Manuel Quaresma, no
Pitangui; esta, para o Sr. Martinho dos Santos
Perreira, em Piumi...
.Que ? perguntou o mineiro levantando-se de um
pulo e mostrando muita
admirao. Leia outra vez... leia por favor...
Meyer obedeceu.
.Mas este nome  o meu! exclamou Pereira. Esta
carta ento  para mim...
.Hu, hu! gaguejou o alemo boquiaberto.  muito
currioso isto!
.Sou eu, sou eu mesmo! continuou o mineiro
abrindo os diques  volubilidade.
Est claro, clarssimo!... Quando me escreveram,
pensavam que eu ainda morava l
em Piumi. Pois, se nunca contei a ningum em que
buraqueira me vim meter... Abra
a carta sem susto... Oh! Senhora Sant.Ana, que dia
hoje! Quem diria? Uma carta!
Uma carta nestas alturas! Pode ler, Sr. Maia... Estou
doido por saber quem se
deu ao trabalho de me escrever... Martinho dos
Santos Pereira, de Piumi... sou
eu! Que dvida: no h dois. Veja s o nome... pelo
amor de Deus, o nome de quem
me direge a carta.
Rompeu o alemo com alguma dvida e escrpulo o
selo; correndo com os olhos a
lauda escrita, procurou a assinatura e
pausadamente leu .Francisco dos Santos
Pereira..
.Gentes! bradou o mineiro no auge da alegria, meu
irmo... o Chiquinho!... E eu
que o fazia morto e enterrado!... Nosso Senhor o
conserve por muitos anos!... O
Chiquinho!... J se viu coisa ansim?... Como se
anda neste mundo, hem, Sr.
Cirino? Quem havra de dizer que este homem, que
aqui chegou ontem por acaso e
alta noite, havia de trazer na canastra uma carta de
um irmo que no vejo h
mais de quarenta anos?!... Ora esta!... So voltas
deste mundo... As pedras se
encontram... Foi em 1819... no, em 20... Mas
depressa... leia a carta.. vamos
ver o que me diz o Chiquinho... Da famlia passava
por ser o de mais juzo;
tambm era o mais velho de todos ns... O
Roberto, o caula... Seja o senhor
muito bem-vindo nesta casa... Depois de tantos
anos, trazer-me noticias da minha gente!
Cortou Meyer aquele movimento de efuso que
prometia ir longe, comeando a ler
com todo o vagar ou, melhor, a soletrar a carta,
cujos garranchos, que no
letras, por vezes se viu obrigado a encostar aos
olhos para poder decifrar.
.Martinho, dizia a despretensiosa epstola, dirijo-te
estas mal traadas linhas
s para saber da tua sade e dizer que o portador
desta um senhor de muita
leitura e vai para os sertes brutos, viajando e
estudando pases e povos.
Veio-me do Rio de Janeiro muito recomendado. Peo
que o agasalhes, no como a um
transuente qualquer, mas como se fosse eu em
pessoa, teu irmo mais velho e
chefe da nossa famlia ... .
.Pobre mano! exclamou Pereira meio choroso.
.E homem, continuou Meyer, de bastante criao.
Adeus, Martinho. Eu estou
estabelecido na Mata do Rio, numa fazendola.
Tenho cinco filhos, trs machos e
duas famlias, estas casadas, e que me deram
netos; j faz bastante tempo. No
estou muito quebrado de foras. H mais de oito
anos que no tenho notcias
tuas. Soube que o Roberto tinha morrido no
Paranan....
.Roberto?... Coitado do Roberto! atalhou Pereira
com voz angustiosa.
E repentinamente, representando-lhe a memria os
tempos da infncia,
arrasaram-se-lhe os olhos de lgrimas.
.Sem mais aquela concluiu Meyer, adeus. Felicidade
e sade. Teu irmo, Francisco
dos Santos Pereira..
.Deveras, disse o mineiro depois de breve silncio,
adiantando-se para o alemo
e apresentando-lhe a destra aberta, o Sr. me deu
um farto de alegria. Toque
nesta mo e, quando ela se levantar para bulir num
s cabelo de sua cabea ou de
algum da sua famlia qualquer que seja o agravo
que me possam fazer, seja ela
logo cortada por Deus, que nos est ouvindo.
.Obrigado, Sr. Pereira, respondeu com animao o
outro, retribuindo o aperto de
mo e corroborando-o com um concerto de
garganta.
.Sim, senhor, continuou o mineiro. Esta carta vale,
para mim, mais que uma
letra do Imperador que governa o Brasil.  o que lhe
digo, Sr. Maia...
.Meyer, corrigiu o alemo apoiando com fora na
ltima slaba, Meyer.
.Ah!  verdade.  preciso traduzir Meyer, Meyer.
Agora j atinei com a coisa.
Mas como ia lhe dizendo, esta casa  sua. Meu
irmo, o meu irmo mais velho
deu-me ordem que eu o recebesse como se fosse
ele mesmo em pessoa, o Chico;...
acabou-se.
O Sr.  como se fosse dos meus. No h que ver, 
o que ele quer. Entendi logo;
o mais  ser multo bronco e, com o favor de Deus,
no me tenho nesta conta. O
Sr. ponha e disponha de mim, da minha tulha, das
minhas terras, meus escravos,
gado... tudo o que aqui achar. Parta e reparta..
Quem est falando aqui, no 
mais dono de coisa nenhuma;...  o Sr.... Meu irmo
me escreveu,  escusado
pensar que no sei respeitar a vontade de meus
superiores e parentes.  como se
recebesse uma ordem do punho do Sr. D. Pedro n,
filho de D. Pedro I, que pinchou
os emboabas para fora desta terra do Brasil e
levantou o Imprio nos campos do
Ipiranga, l para os lados de So Paulo de
Piratininga, onde houve em seu tempo
colgio de padres e fradaria grossa, e donde os
mamalucos saiam para ir por
esses mundos afora bater ndios brabos e caar
onas, botando bandeiras at na
costa do Paraguai e no Salto do Paran, tanto
assim que deram nas redues e
trouxeram de l uma imundcie de gente amarrada,
por sinal que muitos amolaram a
canela em caminho, e s chegaram uns cento e
tantos, to magros que...
Enfiava Pereira todas estas frases com
surpreendedora rapidez, ao passo que
Meyer o contemplava exttico,  espera que a
torrente de palavras lhe desse
tempo e ocasio de exprimir algum vocbulo de
agradecimento.
S, porm, minutos depois, e a custo,  que ele
pronunciou um spero e
retumbante:
.Obrigado!
E acrescentou em seguida:
.Mas o senhor fala que nem cachoeira. E no
cansa?
.Qual! replicou o mineiro com ufania. A gente da
minha terra  de seu natural
calada; eu, no; mesmo porque fui criado em
povoados de muita civilidade...
Tomando esse novo tema, comeou novamente a
discorrer, mostrando visvel
contentamento por achar na estimvel pessoa do Sr.
Guilherme Tembel Meyer um
ouvinte de fora, incapaz de pestanejar e cuja
fixidez de olhos era prova
evidente de que tomava interesse por todos os
assuntos possveis de conversao.
XI.O ALMOO
Comam e bebam: nada de
cerimnias comigo. Minhas casa e
franca; eu tambm. Faam proviso
de alegria e de mim
disponham sem constrangimento.
Plauto. Miles Gloriosus
Levantou-se de repente Cirino da marquesa em que
se sentara.
.Tenho vontade de amanh seguir viagem...
.Qu, doutor? protestou Pereira. Partir j? isso
nunca... Vosmec ainda no
curou de todo minha filha. Pago-lhe todos os
prejuzos da sua estada aqui... se
for preciso.
.Oh! Sr. Pereira, reclamou por seu turno o jovem,
isso quase me ofende...
.Desculpe-me, e muito; mas, antes de duas
semanas, no o deixo sair daqui.
.Porm...
.Doentes no lhe ho de faltar. A minha rancharia
vai ser visitada como se
fosse casa de presepe, e o Sr. no poder dar vazo
aos que o vierem procurar.
Olhe, hoje mesmo mandei avisar o Coelho, e daqui
a pouco est ele c, rente como
po quente. Atrs do primeiro, vir uma chusma dos
meus pecados... Ento quer
deixar Nocncia como ainda esta?...
.Verdade , balbuciou Cirino.
.Pois ento? Nem pensar nisso  bom. Deixe tudo
por minha conta; vosmec h de
aqui arranjar os seus negcios.
.J que o senhor o diz... Eu tinha receio de vex-
lo. Uma vez que at c venham
doentes...
.Ho de vir, esteja sossegado...
.Ficarei, decidiu Cirino, quanto tempo for do seu
agrado.
.Ora, muito que bem, exclamou Pereira esfregando
as mos com sincera
satisfao, estou como quero. Quanto ao Sr. Maia..,
Meyer, quero dizer, este h
de criar razes nesta casa...
.Isso tambm no: tenho tempo marcado pelo
meu governo...
.Bem, bem; mas em todo caso, far uma boa
temporada conosco.  pena que o
Maneco no chegue, porque apressvamos o
casrio, e arranjvamos uma festana
como nunca se viu nestes matarres... Mas estou
aqui a dar com a lngua nos
dentes, sem pensar que os nossos estmagos ainda
esperam sua matula. O almoo
no pode tardar;  um pulo s... Se consentem vou
ver 1 dentro.
Ao dizer estas palavras, saiu da sala, voltando
pouco depois acompanhado de
Maria, a velha escrava que trazia a toalha da mesa
e a competente cuia de
farinha.
.  mesa! gritou Pereira. Almoo hoje com
vosmecs. Sr. Meyer, o senhor comer
dora em diante comigo e com a menina, l no
interior da casa; ouviu?
E, voltou-se para Cirino.
.Bem sabe, explicou logo, como se fosse o
Chiquinho.
Depois de pronta a mesa, sentaram-se os trs
alegremente.
.Olhe, Sr. Meyer, disse o mineiro servindo o
alemo, isto e feijo-cavalo e do
melhor. Misture-o com arroz e ervas; deite-lhe uns
salpicos de farinha...
Comeou o naturalista a mastigar com a lentido de
um animal ruminante,
interrompendo de vez em quando o moroso
exerccio para exclamar:
.Delicioso, com efeito! Muito delicioso.
Comia Cirino pouco e em silncio.
.Na Alemanha, observou Meyer contemplando um
gro de feijo, a maior fava no
chega a este tamanho. Aqui a fava de l teria
polegada e meia pelo menos. Um
almoo, assim, havia de custar na Saxnia dois
tleres, ou pelo cmbio que
deixei no Rio de Janeiro, dois mil e quinhentos
ris...
Interrompeu-o Pereira com gesto cmico.
.Dois mil e quinhentos? Ora, que terra essa! Como
 que se chama?
. Sac-snia, respondeu o alemo com gravidade.
.Saco-sonha! exclamou Pereira. No conheo...
Mas, ento l muita gente h de
andar a morrer de fome...
.Pelos ltimos clculos, replicou Meyer com vrias
pausas durante as quais
introduzia enormes colheradas da mistura que lhe
aconselhara o anfitrio, 
sabido que em Londres morrem no inverno oito
pessoas  mngua, em Berlim cinco,
em Viena quatro, em Pequim dose, em Iedo sete,
em...
.Salta! atalhou Pereira exultando de prazer, ento
viva c o nosso Brasil! Nele
ningum se lembra at de ter fome. Quando nada
se tenha que comer, vai-se no
mato, e fura-se mel de jata e manduri, ou chupa-se
miolo de macaubeira. Isto 
c por estas bandas; porque nas cidades, basta
estender a mo, logo chovem
esmolas... Assim  que entendo uma terra... o mais
 desgraa e consumio . . .
.Decerto! corroborou o alemo, o Brasil  um pas
muito frtil e muito rico. D
caf para meio inundo beber e ainda h de dar para
todo o globo, quando tiver
mais gente... mais populao...
.Bem eu sempre digo, acudiu Pereira tocando no
ombro de Cirino e deitando-lhe
uns olhos de triunfo. L fora  que nos conhecem,
nos fazem justia... No acha,
patrcio? Homem, agora reparo ...vosmec est to
calado!... meio casmurro, que
 isso? sempre aquele negcio?
De fato, Cirino, depois que ouvir o convite a Meyer
para conviver no interior
da casa de Pereira, tornara-se sombrio, inquieto,
meditabundo. O corpo ali
estava, mas a sua imaginao vigiava zelosa o
quartinho onde repousava aquela
menina febricitante, to bela na sua fraqueza e
palidez enferma.
.Se so mulheres, ponderou Pereira, deixe-se
disso; no h maior asneira... 
fazenda que no falta.
No meio dos exerccios mandibulares, julgou Meyer
que o seu hospedeiro
considerava o sexo feminino do ponto de vista
meramente estatstico e acreditou
conveniente assentar melhor a idia, um tanto
vagamente aventada.
.Na raa eslava, disse dogmaticamente, a
proporo  de duas mulheres para um
homem; na germnica, h aproximadamente
nmero equivalente, na latina de dois
homens para uma mulher. Na Frana, a proporo
para o lado masculino  de...
.Mas o senhor contou? interrompeu Pereira. Deixelhe
dizer uma coisa: eu c no
engulo araras...
.Ni eu, afirmou Meyer com alguma surpresa e
energia, nem sei como o senhor me
vem falar nessas aves agora. . . Se as considera
como caa, deve saber que os
trepadores tm a carne dura, preta e...
Riu-se Pereira do equvoco e, explicando-o,
continuou a discutir com o seu
interlocutor, que no discrepava uma linha dos seus
princpios de mtodo e
escrupulosa polidez.
.Pode o senhor falar um ano inteiro, disse o
mineiro para concluir; mas quanto
a mim, no entendo patavina das suas contas e
jigajogas. Quem me tira da
tabuada, bota-me no mato... E agora, vamos
agradecer a Deus Nosso Senhor Jesus
Cristo o ter-nos dado esta comida, ainda que
insuficiente e mal temperada.
E, unindo o exemplo  palavra, levantou-se e, de
mos postas ao peito, orou em
voz baixa com uno, no que foi imitado pelos dois
hspedes.
.Esteja convosco o Senhor, disse ao terminar, em
voz alta, persignando - se.
.Amm, responderam Cirino e Meyer.
.Agora, anunciou o mineiro saindo da mesa, vou
dar um giro pela minha roga,
onde esto na capina trs negros cangueiros, um
dos quais  o meu fazendeiro;
depois, hei de visitar uns conhecidos meus,
avisando-os da sua chegada, doutor.
Ah! acrescentou todo desfeito em amvel sorriso,
falta-lhe mostrar minha filha,
Sr. Meyer.
.Sua filha! exclamou o alemo. Ento tem filhos?
.Sim, senhor. No se lembra que o seu vulto  o do
mano Chiquinho? Pois ento?
Que maior prova lhe posso dar de confiana e
amizade?... No  verdade, Sr.
Cirino?
.Sem dvida, balbuciou a custo o mancebo.
.Minha filha chama-se Nocncia e s hoje  que se
levantou da cama... Esteve
doentinha... Assim mesmo, no sei se as maleitas
a deixaram... O corpo  s
vezes carovel dessas malditas e...
.Isto est ao meu cuidado, atalhou Cirino com
alguma pressa. Ainda ao meio-dia
h de tomar quina...
.Vosmec faa o que for melhor... Quer vir, Sr.
Meyer?
.Pois no! pois no! respondeu amavelmente o
alemo.
.  a nica pessoa da famlia que tenho aqui, alm
de um marmanjo que est
agora na carreira por essas estradas, agenciando a
vida . . . Ento, vamos!
Venha tambm, continuou ele voltando-se para
Cirino, um cirurgio  quase de
casa.
Saram, pois, os trs. Pereira na frente, seguiu o
oito da direita, e, abrindo
uma tranqueira do cercado dos fundos, entrou pela
cozinha, onde a velha preta
Conga estava lavando pratos e arrumando loua
numa prateleira.
XII . A APRESENTAO
Quem, porm, mostrava mais
surpresa o admirao era Sancho
Pana. Nunca, em dias de sua vida,
vira perfeio Igual.
Cervantes, Dom Quixote, CXXIX
Ao blsamo, fazem as moscas. que
nele morrem, perder a
suavidade do perfume. Uma
parvoce, ainda que pequena e de
pouca dura, da motivo a no se ter
em conta nem sabedoria
nem glria
Eclesiastes, X
Depois de atravessarem um quarto bastante escuro,
chegaram os visitantes a sala
de jantar, vasto aposento ladrilhado, mas sem
forro, a um canto do qual estava a
filha do mineiro, mais deitada do que sentada numa
espcie de canap de taquara.
Tinha os ps sobre uma bonita pele de tamandu-
bandeira, onde se acocorara,
conforme o hbito, o ano a quem Pereira chamara
Tico.
Ao ver chegar tanta gente, abriu a formosa menina
uns grandes olhos de espanto;
quis toda enleada erguer-se, mas no pde e,
corando ligeiramente, teve como que
um delquio de fraqueza.
Aproximara-se logo Cirino com vivacidade.
.A dona, disse ele para Pereira, esta to fraca que
mete do.
Chegou-se o pai juntamente com Meyer e, tomando
as mos da filha, perguntou-lhe
com voz meiga e inquieta:
.Sente-se pior, meu benzinho?
.Nhor-no, respondeu ela.
.Pois ento!... t: preciso no entregar o corpo 
moleza... Abra os olhos...
Olhe... esta aqui este homem (e apontou para
Meyer) que  alamo e trouxe uma
carta do tio de mec, o Chico, l da Mata do Rio.
Quero mostrar que, para mim,
vale tanto como se fosse esse prprio parente to a
ns chegado. Por isso  que
venho apresent-lo...
Ela nada articulou.
.Vamos, diga... Tenho muito gosto em lhe
conhecer... diga.
Com vagar e acanhamento, repetiu Inocncia estas
palavras, ao passo que Meyer
lhe estendia a mo direita, larga como uma
barbatana de cetceo, e franca como o
seu corao.
.Gosto, muito gosto tenho eu, disse ele com trs
ou quatro sonoros arrancos de
garganta. S o que sinto  v-la doente... Mas o
doutor no nos deixar ficar
mal; no , Sr. Cirino?...
E apoiou esta pergunta com um hem? que ecoou por
toda a sala.
.A senhora, respondeu o interpelado, precisaria
tomar por alguns dias um pouco
de bom vinho do Porto, em que se pusesse casca de
quina do campo... Mas, onde
achar agora vinho? S na Vila de Sant.Ana . . .
.Vinho? perguntou Meyer.
.Sim.
.Vinho do Porto?
.Melhor ainda.
.Pois tudo se arranja, na minha canastra tenho
uma garrafa do mais superfino e
com a maior satisfao a ofereo  filha do meu
pom amigo o Sr. Pereira.
.Oh! Sr. Meyer, agradeceu este com efuso, no
sabe quanto lhe f ico . . .
.Qual! no tem obrigao, no, senhor. Alm do
mais, sua filha  muito bonita,
muito bonita, e parece boa deveras... H de ter
umas cores to lindas, que eu
daria tudo para v-la com sade...
Que moa! . . . Muito bela!
Estas palavras que o inocente saxnio pronunciara
ex abundantia cordis
produziram extraordinrio abalo nas pessoas que as
ouviram.
Tornou-se Pereira plido, franzindo os sobrolhos e
olhando de esguelha para quem
to imprudentemente elogiava assim, cara a cara, a
beleza de sua filha;
Inocncia enrubesceu que nem uma rom; Cirino
sentiu um movimento impetuoso,
misturado de estranheza e desespero, e, l da sua
pele de tamandu-bandeira,
ergueu-se meio apavorado o ano.
Nem reparou Meyer e com a habitual ingenuidade
prosseguiu:
.Aqui, no serto do Brasil, h o mau costume de
esconder as mulheres. Viajante
no sabe de todo se so bonitas, se feias, e nada
pode contar nos livros para o
conhecimento dos que lem. Mas, palavra de honra,
Sr. Pereira, se todas se
parecem com esta sua filha,  coisa muito e muito
digna de ser vista e escrita!
Eu...
.O Sr. no quer retirar-se? interrompeu Pereira com
modo spero.
.Pois no! replicou o alemo.
E como despedida acrescentou, dirigindo-se para
Inocncia: .Chamo-me Guilherme
Tembel Meyer, seu humilde criado, e estimo muito
conhec-la por ser a senhora
filha de um amigo meu e prender a gente com o seu
lindo rosto...
Estendeu ento a mo, fez um movimento de
cabea, e acompanhou ao mineiro que j
ia saindo, branco de clera concentrada..E que me
diz o Sr. deste homem?
perguntou a Cirino a meia voz e puxando-o de
parte.
.Reparei muito nos seus modos, respondeu-lhe o
outro no mesmo tom.
.Nem sei como me contenha... Estou cego de
raiva... Que presente me mandou o
Chico!...  uma peste, este diabo melado... V uma
rapariguinha e enche logo as
bochechas para lhe dizer meia dzia de
pachouchadas e graolas... No est m
esta!... 1!: um perdido. Nada... Isto no me cheira
bem: vou ficar de olho nele.
.Faz muito bem, apoiou Cirino.
.Vejam s, continuou Pereira retendo o seu
interlocutor para deixar Meyer
distanciar-se, em boas me fui eu meter! . . . Se no
fosse a tal carta do mano,
o cujo danava ao som do cacete... Malcriadao!
Uma mulher que daqui a dois dias
esta para receber marido... Deus nos livre que o
Maneco o ouvisse...
Desancava-o logo, se no o cosesse a facadas...
Vejam s, hem?... Sempre  gente
de outras terras... Cruz! Tambm vi logo... um
latago bonito. .. todo
faceiro... havra por fora de ser rufio.
Ouvia-o Cirino em silncio.
.E mulher, prosseguiu o mineiro com raivosa
volubilidade,  gente to levada da
breca, que se lambe toda de gosto com ditinhos e
requebros desta scia de
embromadores. Com elas, digo eu sempre, no h
que fiar... M hora me trouxe
este alamo... Mil raios o rachem!... E logo o
Chico... Tenho agora que ficar de
alcatia... meter-me em tocaia e fazer fojos para
que o bracai no me entre no
galinheiro. Ora que tal!
.Tambm, breve se vai ele embora, lembrou Cirino
a modo de consolo.
.Que o demo o leve quanto antes, replicou Pereira.
J estou todo enfernizado
com o tal homem...
Neste momento, como que de propsito, voltava-se
Meyer para os dois:
.Sr. Pereira, disse ele, ficarei em sua casa talvez
umas duas semanas. Os
burrinhos vo engordar no seu pasto e eu hei de
fazer compridas viagens nesta
sua fazenda, apanhando tudo o que nela
encontrar... Ouviu?
Reprimiu o interpelado um gesto de viva
contrariedade e, levado pelo instinto e
dever de hospitalidade, de pronto respondeu,
embora secamente:
.Fique duas semanas, ou dois meses ou dois anos.
J lho disse: a casa  sua, e
palavra de mineiro no volta atrs. Quem esta aqui,
no  o Sr.,  meu irmo
mais velho.
Agarrando ento com fora na mo de Cirino,
acrescentou em voz surda e
angustiada: .Olhe, doutor; veja s isto! Que lhe
dizia eu?... Ah! meu Meyer,
quer se engraar comigo, no ? Mas c fico... e,
uma vez avisado, nem dois, nem
trs me botam poeira nos olhos... No  com essa!
Nocncia nasceu filha de
pobre, mas, graas a Maria Santssima, tem ainda
pai com brao forte e muito
sangue nas veias para defend-la dos garimpeiros e
cruzadores de estrada... Ele
que no brinque com o Maneco;  homem de
cabelinho na venta e se lhe bota a mo
em cima, esfarela-lhe os ossos, como se fora
veadinho do campo enroscado por
sucuri...
Ia, contudo, Meyer, de todo ponto alheio ao
temporal provocado por suas
inconsideradas palavras e, sem dvida, estimulada
em suas reminiscncias pela
vista da menina que acabava de admirar,
cantarolava entredentes uma velha valsa
alem, danada talvez com alguma loura patrcia
em pocas remotas e de menos
rigorismo cientfico.
XIII.DESCONFIANAS
Muitas vezes, somos iludidos pela
confiana: mas a
desconfiana faz que sejamos por
ns mesmos enganados.
Prncipe de Ligne
Quando o nosso saxnio entrou na sala em que
estavam as suas cargas, vinha to
contente do agasalho recebido, da firmeza do
tempo, das futuras caadas de
borboletas, que despertou a ateno do seu
camarada Jos.
Estava este encostado a uma canastra, a
esgaravatar, de faca comprida em punho,
a planta dos ps, verificando se alguma pedrinha da
estrada no se havia
incrustado na grossa e j insensvel sola.
.Homem, disse ele com familiaridade, Mochu est
hoje muito alegre . . . Viu
passarinho verde ?
.Passarinho verde? perguntou Meyer. Que  isso?
No vi passarinho nenhum... Vi
uma moa muito bonita...
.Ol... melhor ainda... Conte-me isso... e quem 
ela.
.E a filha c do Sr. Pereira.
.Parabns! parabns! exclamou Jos com toda a
indiscrio. Moa bonita  fruta
rara por estas matarias e brenhas do inferno...
Quanto a mim, ainda no botei o
olho seno em velhas corcorcas e serpentes...
Outra coisa  no Rio... No se
lembra Mochu, da procisso de So Jorge?... A 
que sai  rua uma tafularia de
deixar a gente tonta de uma vez, de queixo cado.
Umas to alvas!... Outras cor
de caf com leite... crioulas chibantes.
.Juque, repreendeu o alemo revestindo-se de ar
severo, no tome confiana com
gente que no  da sua classe...
.Mas eu no disse nada de mau, Mochu,
desculpou-se o criado recolhendo-se meio
enfiado ao silencio e voltando ao exame dos ps.
Quem estava em cima de um
braseiro, era Pereira. Decididamente, aquele
hspede o punha a perder,
proclamando assim com a trombeta da fama que
vira Inocncia e com ela
conversara, que a achava do seu gosto... uma
rapariga j noiva! Quantas
incongruncias, que perigos,  Santos do Paraso!
Tornava-se caso de muita prudncia. Qualquer
passo menos pensado acarretaria
conseqncias irremediveis,
Necessrio e penetrar-se a fora dos sentimentos
que sobressaltavam o mineiro,
para bem aquilatar os transes por que passava e
achar natural que seguisse uma
linha de proceder toda de duvida e vacilaes.
Se, de um lado, criava involuntria admirao por
Meyer e, rodeando-o, em sua
imaginao, do prestigio de uma beleza irresistvel,
via aumentar o seu receio
em abrigar to perigoso sedutor; do outro, sentia
as mos presas pelas
obrigaes imperiosas da hospitalidade, a qual, com
a recomendao expressa de
seu irmo mais velho, assumia carter quase
sagrado. Juntem-se a isto os
preconceitos sobre o recato domstico, a
responsabilidade de vedar o santurio
da famlia aos olhos de todos, o amor extremoso 
filha, em quem no depositava,
contudo, como mulher que era, confiana alguma,
as suposies logo ideadas
acerca da impresso que naturalmente aquele
estrangeiro produzira no corao da
sua Inocncia, j quase pertencendo ela a outrem,
e as colises que previu para
manter inabalvel a sua palavra de honra, palavra
dada em dois sentidos agora
antagnicos.um mundo enfim de cogitaes e de
terrores. E tudo isto
revolvendo-se na cabea de Pereira, refletia-se com
sombrios traos de
inquietao em seu rosto habitualmente to jovial.
.Por que razo , perguntou ele a Jos Pinho para
desviar aquela conversa que
tanto o magoava, que vosmec chama Mochu ao Sr.
Meyer?
Sorriu-se o carioca com ar de superioridade e
respondeu desembaraadamente:
.Ah! E um modo de falar...
.Como assim?
.J lhe ponho tudo em pratos limpos... Vosmec
no lhe chama Sr.?
.Chamo.
.Pois, ento?... Eu tambm lhe chamo assim...
mas falo em francs, Mochu quer
dizer senhor, nessa lngua.
.Ah! replicou Pereira dando-se por convencido,
ento e isso? Pensei que fosse
outra coisa...
.Juque; avisou Meyer que estava a remexer nas
canastras, prepare tudo; ns
vamos ao mato agora mesmo...
.Venha comigo, props o mineiro com voz
insinuante. Eu lhe apontarei lugares
onde h dessa bicharia mida, coisa nunca vista.
.Com muito gosto, concordou o alemo.
E voltando-se para o camarada:
.Ande, Juque, ordenou ele, bote a pita para fora,
caixas de folha-de-flandres,
clorofrmio, rede pronta... Depressa homem,
depressa!
Jos Pinho, instigado por estas palavras, entrou a
voltear de um lado para o
outro, como que atarantado com o excesso de
servio.
.Minhas lentes, pediu o naturalista, o saco para os
bichos de casca grossa...
Depressa... Vou ajud-lo.
E, por seu turno, comeou a tirar das canastras os
objetos de que necessitava,
enfiando a tiracolo dois ou trs talabartes finos que
sustentavam umas caixinhas
encouradas. Numa delas, havia um copo de prata
com a competente corrente noutra,
um faqueiro de peas dobradias e de metal do
prncipe. Tambm assentou ao
flanco uma frasqueira defendida de choques
externos por fino tranado de vime e
que continha aguardente, comprada de fresco na
Vila de Sant.Ana do Paranaba.
No contente com o peso de todos esses apndices
 sua pessoa, fingiu largo
talim com uma espcie de patrona de folha-deflandres
e que sustentava um grande
faco ingls, um revlver e uma espada de caa.
Depois de ter vagarosamente arranjado sobre si
cada uma destas peas com grande
espanto de Pereira e at de Cirino, substituiu Meyer
os culos habituais por
outros, de vidros afumados, multo grandes e
convexos, destinados a proteger-lhe
amplamente os olhos dos ardores do Sol. Muniu-se,
alm disso, de outro singular
meio de preservao: uma rodela ampla de pano
branco forrado de verde que
aumentava as abas do chapu-do-chile,
descansando em parte sobre elas.
Com esse trajo ficou decerto a mais estapafrdia
figura que algum cristo
encontrar poderia naquelas trezentas lguas em
derredor; entretanto, Pereira,
ofendido com aqueles cuidados de preveno
meramente cientfica, que l no seu
bestunto qualificava de faceirice feminil:
.Veja s, disse ele para Cirino, como este maricas
gosta de se enfeitar!...
Voc no me engana, no, Sr. alamo das dzias...
Mirava-se nesse momento o naturalista, para
verificar se lhe faltava alguma coisa.
.Estou pronto, exclamou afinal, e muito desejoso
de entrar no mato.
.Ponham-te a tinir os carrapatos, resmoneou
Pereira.
.Ah! disse Meyer, e as minhas luvas?... Juque,
procure na canastra n 2, 
esquerda, no segundo canto.
Sacou o camarada umas grandes lavas de l,
brancas, muito largas, j usadas e
sujas, nas quais o alemo enfiou de um jacto as
mos espalmadas.
.Agora, sim! anunciou ele com satisfao.
E, dando um sonoro e prolongado hum! empunhou a
rede de apanhar borboletas.
Depois, levando um dedo  testa:
.Ah! exclamou, e o vinho! No me ia
esquecendo?... O vinho para sua filha, Sr.
Pereira, sua linda filha.
Encolheu o mineiro com furor os ombros e disse em
parte a Cirino:
.Fez-se de esquecido s para falar na menina...
Veja bem. Este calunga no me
bota areia nos olhos.
E acrescentou alto, recebendo a garrafa que o
camarada Jos Pinho tirara de uma
das canastras:
.Agradeo o seu presente, Sr. Meyer, mas se... lhe
faz a menor falta .. a
menina h de curar-se sem isto...
. No, no, no, no, respondeu o saxnio com
uma srie de negativas que
pareciam no dever ter fim.
.Neste mundo, rosnou Pereira mais para si do que
para ser ouvido, ningum mete
prego sem estopa; mas com sertanejos... no se
brinca.
Cirino tomara a garrafa.
.Isto, afirmou ele, acaba com certeza a cura.
E, esquivando-se de pronunciar o nome e a
qualidade da pessoa de quem estava tratando:
.Ela h de ter hoje algum apetite e poder
levantar-se um pouco, pois j tomou
o seu caldinho.
.Ento, ao meio-dia, recomendou Pereira muito
baixinho a Cirino, vosmec mande
chamar a nossa doente e d-lhe a mezinha. Ouviu?
J avisei l dentro...
Cirino abanou a cabea, tomando ar misterioso.
.Eu por mim estarei de olho vivo no bicho...
Parece-me suuarana  espreita de
veadinhas campeiras... No ter este vinho algum
feitio?
Contestou o outro com energia tal possibilidade.
.Eu sei l, insistiu Pereira. Estes namoradores so
capazes de muita coisa...
Nunca ouviu contar histrias de pirlas e
beberagens.. hem? diga-me, nunca?
.Sossegue, Sr. Pereira, acudiu Cirino, hei de
examinar o liquido... tenho
certeza de que no haver novidade.
.Muito que bem .. Ento, ao meio-dia em ponto...
chame a Maria Conga ou o Tico.
Nocncia h de arrastar-se at c... e o doutor lhe
dar a dose...
.Ela sair j? objetou Cirino com admirao. No,
senhor; em tal no consinto...
Irei dar-lhe o remdio... No me custa nada...
Pereira ficara meio perplexo.
.No sei...
E com sbita resoluo:
.Pois bem, virei da roga at c... Se eu no
aparecer, ento o Sr. d um pulo e
faa-lhe tomar a poo... Quanto a este alamo
melado, levo-o para longe e no o
trago seno bem tarde e to modo do passeio que
s h de pensar em dormir.
Com Pereira se dava um fato natural e comezinho
nas singularidades do mundo
moral.
A medida que as suspeitas sobre as intenes do
inocente Meyer iam tomando vulto
exagerado, nascia ilimitada confiana naquele outro
homem que lhe era tambm
desconhecido e que a princpio lhe causara tanta
preveno quanto o segundo.
E que as dificuldades e colises da vida, quando se
agravam, to fundo nos
incutem a necessidade do apoio, das simpatias e
dos conselhos de outrem, que
qualquer aliado nos serve, embora de muito mais
proveito fora bem pensada
reserva e menos confiana em auxiliares de
ocasio.
XIV.REALIDADE
Cordlia..H de o tempo desvendar
o que hoje esconde a
discreta hipocrisia.
Shakespeare, O Rei Lear, Ato I
Depois que Cirino viu sumir-se Pereira com os dois
companheiros alm do laranjal
da casa, seguindo em direo  roa por uma
vereda pedregosa e cheia de seixos
rolados, nos quais iam as patas dos animais
batendo; depois que teve certeza de
que ficara s naquela vivenda, entrou em grande
agitao.
Ora, passeava pelo quarto rpida e
inquietantemente; ora, media-o com passo
lento em muitas direes; ora, enfim, saia para o
terreiro e ali, com a cabea
descoberta, ficava a olhar atentamente para
diversos lados, abrigando com a mo
aberta os olhos, dos vivssimos raios do sol.
Prometia o dia ser muito clido. Por toda a parte
chiavam as estrdulas
cigarras, e ao longe se ouvia o metlico cacarejar
das seriemas nos campos.
s vezes, encarava Cirino o Sol; depois tapava os
olhos deslumbrados e, tomado
de vertigem, voltava para a sala, onde recomeava
os seus passeios.
Por que, porm, no descansava o mancebo?
Entrando familiarmente pela sala adentro, os
bacorinhos se haviam abrigado dos
ardores do dia e, deitados debaixo de uns jiraus,
ressonavam, presa de gostoso sono.
Tudo quanto vivia apetecia a sombra e o repouso.
Fora, o Sol reverberava
violento em seus fulgores, e as sombras das
arvores iam cada vez mais
diminuindo. At uma gua com o esguio e peludo
poldrinho deixara o distante
pasto e viera abrigar-se,  proteo da casa, junto
 qual parara j meio a cochilar.
A enervadora ao do calor estival, juntavam sua
influncia as montonas
modulaes de umas chulas e modinhas, cantadas
ao som da viola de trs cordas
pelos camaradas de Cirino, acomodados no rancho
junto ao paiol de milho.
A tudo, entretanto, resistia o jovem, e com
ascendente desassossego consultava o
seu relgio de prata, tirando-o cada instante do
bolso.
Passaram-se segundos, minutos e horas. Afinal
soltou ele um suspiro de alivio:
.Meio-dia!,.. Cuidei que nunca havia de chegar!...
Saindo todo animado para o terreiro, chamou com
voz forte:
.Maria... O Maria Conga!...
Ningum lhe respondeu. S do lado da cozinha
ladraram uns ces.
Depois de esperar algum tempo, rodeou Cirino toda
a casa, como fizera com
Pereira e, encostando-se  cerca que impedia a
aproximao do lano dos fundos,
tornou a chamar:
. Maria?... Maria!... Est dormindo, minha velha?
Vendo que os gritos ficavam sem resposta, saltou
ento o cercado e foi
caminhando para a porta da cozinha, devagar,
porm, e como que a medo.
. Maria?!... Minha tia!... Ol!  de casa! chamava
ele.
Afinal apareceu no a velha escrava, mas o ano
Tiro, que pareceu, com imperioso
movimento de cabea, indagar a causa daquele
intempestivo alarma.
.Que  da Maria Conga? perguntou Cirino
chegando-se a ele.
Por meio de moderada gesticulao, mas muito
expressivamente, deu Tico a
entender que a preta fora ao crrego lavar roupa.
.E no h mais ningum em casa? inquiriu o outro.
Mostrou o ano, com singular expresso de orgulho
e despeito, que ali estava .
ele e deitou um olhar de clera para o imprudente
curioso.
.Bem, replicou Cirino sorrindo-se, v voc ento
dizer  sinh dona, que j
chegou a hora de tomar o remdio. Trago o vinho, e
 preciso quanto antes
preparar caf.
Desapareceu Tico, fazendo um aceno ao intitulado
medico para que esperasse fora.
.Ora, exclamou este com aborrecimento e tom de
chacota, aqui ao Sol?... No
est m esta!. .. E tal o mestre nanica?. . .
Sem mais cerimnia entrou, pois, na casa,
penetrando no quarto que ficava entre
a cozinha, teatro da atividade de Maria Conga e a
sala de jantar, onde se dera a
apresentao de Meyer a Inocncia.
Da a pouco, ouviu passos arrastados e aos seus
olhos mostrou-se Inocncia
embrulhada em uma grande manta de algodo de
Minas, de variegadas cores, e com
os longos e formosos cabelos cados e puxados
todos para trs. Os grandes e
aveludados olhos orlados de fundas olheiras, e o
quebrantamento do semblante,
muita fraqueza denunciavam ainda; entretanto, as
cetinosas faces como que se
apressavam a tomar cores,  semelhana de rosas
impacientes de desabrochar e
expandir-se vivazes e alegres. Ao chegar  porta,
no a tranps; mas
encostando-se  grossa trave que fazia de umbral,
ali ficou parada, indecisa,
com o olhar turbado e esquivo.
. Ao v-la, deu Cirino com timidez alguns passos
ao seu encontro; depois, por
seu turno estacou junto a uma cadeira de comprido
espaldar, antigo e slido
traste trazido por Pereira da sua casa de Piumi.
Aps longa pausa, em que por vezes se cruzaram
incertos os olhares perguntou com
esforo:
.Ento... minha senhora... como est?... Sente-se
melhor?
.Melhor, obrigada, respondeu Inocncia com voz
aflautada e muito trmula.
.Comeu j alguma coisa?
.Nhor-sim... uma asa de frango, mas com...
bastante vontade.
.Sente o corpo abatido?
. A canseira est passando... ontem muito mais...
A pouco e pouco, fora Cirino recuperando o sangue
frio e se aproximando da moa,
que mais se apegou  umbreira, como que a
procurar abrigo e proteo.
De um lado da porta ficou ela: do outro Cirino,
ambos to enleados e cheios de
sobressalto que davam razo s olhadas de
espanto com que os encarava Tico,
empertigado bem defronte dos dois em suas
encurvadas perninhas.
.Pois chegou a hora de tomar o remdio...
.J, seu doutor? implorou Inocncia.
.Nh-sim.
.Eu no tenho mais nada...
. para cortar de uma vez as sezes... Olhe, se
elas voltassem... era um grande
desgosto para mim...
.Mas  to mau, objetou ela.
. No  bom deveras... mas bem melhor  voltar 
sade...
Com um bocadinho de coragem, a gente engole
tudo sem muito custo... J que lhe
amarga tanto... beberei tambm um pouco...
.Oh! no! protestou Inocncia.
.: para lhe mostrar... que quero sentir... o que
mec sente.
Fez-se a menina da cor da pitanga, levantou uns
olhos surpresos e voltou logo o
rosto para fugir dos olhares ardentes de Cirino.
.A mezinha? pediu ela por fim toda comovida.
.Ah!  verdade! exclamou Cirino. Ande, Tico: v
buscar caf a cozinha. Lave bem
um pires... percebeu?
O ano fitou o moo com altivez e no se mexeu.
.Voc  surdo?
.No, respondeu Inocncia. Tico, s vezes, por
manha  que se faz ansim de
mouco.
Voltando-se ento para o homnculo, insistiu com
voz meiga e carinhosa:
.Vai, Tico;  para mim, ouviu?
Transformou-se repentinamente a fisionomia do
ano. Pairou-lhe nos lbios
inefvel sorriso, meneou a cabea duas ou trs
vezes com a fora de uma
afirmao, mas, colrico, enrugou a testa e moveu
olhos inquietos e duvidosos.
Inocncia teve que repetir o recado. .J lhe disse,
Tico: vai buscar o caf.
A esta quase ordem no ousou ele resistir mas saiu
devagarzinho, voltando-se
vrias vezes antes de entrar na cozinha, onde muito
pouco se demorou.
Neste entrementes tomara Cirino o pulso de
Inocncia e, sem pensar no que fazia,
quebrando a dbil resistncia da menina, cobrira-lhe
de beijos o brao e a
mozinha que havia segurado.
.Meu Deus! balbuciou ela, que  isto?... Olhe, a
vem Tico.
Recuou ento o mancebo e, para melhor disfarar a
comoo adiantou-se para o
ano que vinha trazendo na mo direita uma
vasilha de folha-de-flandres, e na
outra um pires com colher.
.Muito bem, disse ele, ponha tudo em cima da
mesa.
E preparando rapidamente o medicamento
apresentou-o a Inocncia. que sem
hesitao o sorveu todo.
.Deixe-me um pouco, exorou com ternura Cirino,
um pouco s... Se  to mau...
sofra eu tambm.
.No, respondeu ela com alguma energia, por que
havra de mec sofrer?
E, ou por efeito do inexprimvel e desconhecido
abalo que experimentara no
estado de debilidade a que chegara, ou por ser
aquela a hora em que costumava a
febre salte-la, o certo  que teve de encostar-se
ou melhor, agarrar-se ao
umbral para no cair a fio comprido no cho.
.Oh! exclamou com angstia Cirino, a senhora vai
desmaiar.
Transpondo ento o limiar da porta, tomou nos
braos a plida donzela, sem
relutncia encostou a desfalecida cabea ao seu
ombro e, com o hlito ofegante,
aos poucos lhe foi fazendo voltar s faces o
precioso sangue.
.Estou melhor, balbuciou ela procurando afastar a
cabea de Cirino.
.No faa de forte  toa, acudiu este. Vamos ate
aquela cadeira.
E, com toda a lentido e cuidado, foi levando a
convalescente at sent-la,
desembaraando-a, depois, dos muitos cabelos que,
todos revoltos, lhe haviam
invadido o colo e se esparziam sobre o rosto.
.Quanto cabelo! exclamou Cirino meio risonho.
Com muita ateno seguira Tico as peripcias de
toda aquela cena. Ao ver
Inocncia perder quase os sentidos, soltou um grito
surdo de desespero; depois,
foi seguindo-a at a cadeira e, ajoelhado diante
dela, contemplou-a com
inquietao.
Cirino quis aproveitar a ocasio para um.
congraamento.
.Ento est com cuidado, Sr. Tico?... No  nada...
sua ama fica boa logo...
No  o que voc quer?
Ao ouvir esta interpelao, levantou-se o ano e
correspondeu ao simptico
anncio do moo com um olhar de desprezo e pouco
caso, como que a dizer:
.No se meta comigo, que no quero graas com
voc, mdico de arribao!
.Agora, disse Cirino voltando-se para Inocncia,
vai mec beber dois goles
deste vinho .. Vera logo, que sustncia h de sentir
dentro do corpo.
Desarrolhou ento, com a ponta da comprida faca
que tirou do cinto, a garrafa de
vinho oferecida por Meyer, e num caneco de lousa
branca apresentou  moa um
pouco do ruborante lquido.
Molhou a doentinha os lbios e gratificou o
obsequioso mancebo com um sorriso
encantador.
Decididamente lhe agradava aquele medico: curava
do seu corpo enfermo e
entendia-lhe com a alma. Raros homens que no
seu pai e Maneco, alm de pretos
velhos, tinha at ento visto; mas a ela, to
ignorante das coisas e do mundo,
parecia-lhe que ente algum nem de longe poderia
ser comparado em elegncia e
beleza a esse que lhe ficava agora em frente.
Depois, que cadela misteriosa de
simpatia a ia prendendo quele estranho, simples
viajante que via hoje, para,
sem duvida, nunca mais tornar a v-lo?
Quem sabe se a meiguice e bondade que lhe
dispensava Cirino no eram a causa
nica desse sentimento novo, desconhecido, que de
chofre nascia em seu peito,
como depois da chuva brota a florzinha do campo?
A muito obriga a gratido.
Rpidos correram esses pensamentos pela mente
de Inocncia, ao passo que as suas
pupilas se iam erguendo at se fixarem em Cirino,
lmpidas, grandes, abertas,
como que dando entrada para ele ler claro o que se
lhe passava na alma.
.Sinto-me to bem, disse ela com metal de voz
muito suave, to leve de corpo,
que parece nunca mais hei de ficar mofina.
.No, no, decerto! exclamou Cirino, nunca mais.
Alm disso, aqui estou e...
Com a sua chegada, interrompeu Maria Conga, a
velha negra, aquele comeo de
dilogo. Vinha da fonte com volumosa trouxa de
roupa que entrou a estender em
compridos bambus, assentes horizontalmente sobre
forquilhas fincadas no cho.
Despedindo-se, ento, Cirino de Inocncia: .Agora,
lhe disse ele risonho e
pegando-lhe na mo, sossegue um pouco: depois
tome um caldo e... queira-me bem.
.Gentes! Por que lhe no havra de querer?
perguntou ela com ingenuidade. Mec
nunca me fez mal...
.Eu, retrucou Cirino com fogo, fazer-lhe mal? Antes
morrer... Sim...dona... da
minha alma, eu...
E, sem concluir, disse repentinamente:
.Adeus!
Depois, com passo lento, foi se retirando e passou
diante da janela junto  qual
ficara Inocncia sentada.
.Olhe! recomendou ele recostando-se ao peitoril,
cuidado com 0 sereno...
.Nhor-sim...
.No beba leite...
.Mec j disse.
.Coma s carne-de-sol...
.J sei...
.Ento, adeus... adeus, menina bonita!
E, a custo, despegou-se daquele lugar, onde quisera
ficar, ate que de velhice
lhe fraqueassem as pernas.
XV . HISTRIAS DE MEYER
Grande felicidade  ter um filho
prudente e instrudo;
mas, quanto a filhas,  para todo o
pai carga bem pesada.
Menandro, Os Primos
Com a tarde voltaram Meyer, Jos Pinho e Pereira e,
pouco depois pois deles,
trs avelhantados escravos; estes dos trabalhos
agrcolas, aqueles de grandes
excurses entomolgicas.
Vinha o mineiro meio risonho e em altos gritos
acordou Cirino, que, deitando-se
a dormir, sonhara todo o tempo com a graciosa
doente.
.Ol, amigo! ol, doutor! chamou Pereira com voz
retumbante, isso e que  vida,
hem? Enquanto ns trabalhamos, eu e o Mochu do
Jos, voc est nessa cama de
veludo!...
. verdade, concordou o moo, apenas os Srs. se
foram, estendi as pernas e at
agora enfiei um sono s...
.E o remdio da menina? perguntou Pereira
abaixando a voz.
.Ora, Sr., e eu que me esqueci!... No faz mal... se
ela no teve febre... Ah!
espere... agora me lembro!... Eu lho dei... estou
ainda tonto de sono.
Riu-se Pereira.
.Estes doutores matam a gente, como se tosse
cachorro sem dono... Num momento,
lhes passa da cachola se deram ou no mezinhas e
venenos a cristos. ..
Vendo que Meyer sara da sala, mudou
repentinamente de tom prosseguindo em voz
baixa e muito rapidamente:
.Ento, sabe que o tal alamo levou todo o dia, s
querendo puxar conversa
sobre a menina?
.Deveras?
. o que lhe digo... E... eu com as mos atadas
por aquele oferecimento de
lev-lo a comer l dentro!... Nada, nem que
desconfie e se arrenegue dos meus
modos... no me pisa em quarto de famlia. . . Deus
te livre! . . .
Com efeito,  hora da ceia, Meyer manifestou
surpresa de comer na mesma sala;
no que tivesse motivo para desejar outro qualquer
local; mas, metdico como
era, gravara na mente a promessa de Pereira e, por
delicadeza, supunha dever
lembrar-lha.
As desculpas que o mineiro apresentou foram
arranjadas de momento e ajudadas
vitoriosamente por Cirino, carregando este com a
responsabilidade de haver
recomendado  enferma muito sossego, quase
completa solido.
De modo muito expansivo se manifestou tambm o
reconhecimento de Pereira.
.Estou conhecendo, disse ele em aparte e
apertando a mo de Cirino, que o
doutor  homem srio e com quem se pode contar...
Deixe estar... o Maneco h de
ser amigo seu... Isso h de s-lo... Pessoas de bem
devem conhecer-se e
estimar-se... Ora, veja o tal cujo... que temvel,
hem?... No faz mal, h de
ter o pago.
Se Pereira se mostrava contrariado e inquieto,
muito pelo contrrio parecia o
naturalista nadar em mar de rosas.
.Sr. doutor, declarou ele a Cirino  mesa da ceia,
por muitos motivos estou em
extremo contente com a minha estada aqui... Hoje
achei mais bichinhos curiosos
do que em todas as zonas por que tenho andado.
.Vosmec nem imagina, interrompeu Pereira
dirigindo-se para Cirino, o que faz
este senhor quando est dentro do mato. Ainda h
de quebrar o pescoo nalgum
barranco a que se atire, pois caminha com as
ventas para o ar... No sei como
no tem ambos os olhos furados... no repara em
galhos nem em nada... s o que
quer e agarrar anicetos... J o avisei umas poucas
de vezes; agora, sua alma,
sua palma...
Judiciosas eram as advertncias do mineiro e bem
cabidas; tanto assim que numa
das tardes seguintes voltou Meyer todo arranhado e
com um gilvaz to grande, que
imediatamente deu nas vistas de Cirino.
.Que foi isso, Sr. Meyer? perguntou ele com
admirao. O Sr. andou por ai afora
aos trambolhes com alguma ona?
.Oh! no  nada, respondeu fleumaticamente o
alemo.
.E a sua roupa vem suja de barro... toda rota...
Desatou Pereira a rir.
.Isto so histrias deste homem... Bem lhe dizia
eu que mais dia menos dia isso
havia de acontecer. Meu amigo no sabe do ditado:
...Fia-te na Virgem e no
corras, veras o tombo que levas!... Tambm foi um
dia em que me ri a mais no
poder. Tomei um farto... Imagine vosmec que o
tal Sr. Meyer, como j lhe
contei, anda pulando dentro da mata como se fosse
veado mateiro... O Jos Pinho,
que  mitrado, vai sempre pela estrada limpa...
.Preguioso, atalhou Meyer a modo de observao.
.Juzo tem ele, prosseguiu o mineiro: mas, como ia
dizendo c, o Sr. com seus
arrancos e saltos parece anta disparada. Em
aparecendo bichinho voador, zs-trs
que dars l vai ele logo sem olhar para os paus,
podendo pisar em cobras e
espinhos, com aquela rede na mo, e tanto faz que
engalfinha sempre algum
animalejo... Hoje fui para a roa, e o homem furou
o mato, enquanto Jos buscava
uma sombrinha e entrou logo a roncar como um
perdido...
.Eu, no senhor, protestou Jos Pinho, que queria
ouvir a historia.
.Vce sim, corroborou Meyer com severidade,
preguioso!... Ande... d c a pita.
.Pois bem, continuou Pereira, da a duas horas
voltou Mochu neste estado pouco
mais ou menos; mas trazia uma caixa cheia de
bichos do mato...
.Oh! perguntou Cirino, e so bonitos?
.No h mais nada, suspirou Meyer com tom
dolente, o trabalho ficou perdido!...
Eu tinha apanhado cinco espcies novas... Uma
queda...
.Deixe-me contar o caso, atalhou Pereira. Oh! eu
ri-me... ri -me. E, para
confirmar a assero, ps-se novamente a dar
gargalhadas, que foram acompanhadas
por Jos Pinho e at por Meyer, da parte deste com
menos expanso, contudo.
.Apareceu-me o Mochu muito contente com a sua
caixa, como se tivesse o rei na
barriga. Era uma imundcie de besouros, cascudos e
cigarras, que o Sr. nem pode
imaginar... Havia de tudo; depois, quando voltamos
da roa, enxergou ele num pau
podre um aniceto vermelho e foi correndo a apanh-
lo. Eu bradei-lhe: . Olhe,
que ai tem barranco: a rvore  podre e oca, e
vosmec rola pelo despenhadeiro,
que nem a sua alma se salva. . Qual! O homem 
teimoso, como um cargueiro
empacador... Eu gritava-lhe: .Tome tento, Mochu!.
Sem atender a nada, comeou a
caminhar em cima da cipoada que cobria a boca de
um percipcio, fundo como tudo
neste mundo... Quando ia botar a mo no tal bicho
encarnado, encostou-se ao pau
e... zs!... afundou-se, dando um grito esganiado
que parecia de cotia. Mal
teve tempo de agarrar-se aos cips e ia ficou entre
a vida e a morte, chamando
Juque, Juque!... Eu, quando vi isso, mandei a toda
pressa buscar  roa uma vara
comprida e, se ela no chega logo, o Sr. Meyer e
toda a sua bicharada rolavam de
uma vez por aqueles fundes.
.No, retificou o alemo, bicho rolou; caixa abriu e
tudo l se foi no
fundo...
.Pois bem, o Mochu segurou-se com unhas e
dentes ao pau e nos puxamos
devagarinho, devagarinho, com um medo, um
medo!... Maria Santssima! . . .
Fazendo breve pausa:
.0 mais engraado ainda no chegou, avisou o
mineiro: Ah! vosmec vai tomar uma
boa data de riso. Quando o Mochu ganhou p em
terra, ps-se a pular como um
cabrito doido, por aqui, por acol, pulo e mais pulo,
e gritando como se o
estivessem esfolando... Estava .. ah! meu Deus!...
estava cheio de formigas
novatas!
. Sim, exclamou Meyer com desespero, formiga de
pau podre!... mein Gott ... Eu
rasgo a roupa... eu pulo... eu gemo... fico nu como
quando minha me me botou no
mundo!... Horrvel Formiga do diabo! . . . Faz
calombo em todo o meu corpo. . .
Muita dor!
Com reiteradas e estrondosas gargalhadas
acolheram Pereira, Cirino e Jos Pinho
essas enrgicas imprecaes.
.Poder isso, observou o mineiro, cur-lo da mania
de no ouvir os outros que
conhecem as coisas.
E voltando-se para Cirino:
.Verdade  que o corpo dele... Que corpo, Sr.
doutor, to arvo!... ficou todo
empolado que foi preciso esfreg-lo com folhas de
fumo. Depois, tomou um banho
no ribeiro...
.Tudo estava muito bem, observou Meyer, se caixa
no abre e atira no buraco meu
trabalho...
.Ora, ficar para amanh, consolou filosoficamente
o camarada.
Pereira, acalmado o frouxo de riso, aproximara-se
de Cirino e lhe falava a meia voz:
.Ah! doutor, tive uma vontade de deixar este
alamo sumir-se no socavo!...
Se no fosse meu hspede, enfim, e recomendado
de meu mano, palavra de honra
pinchava-o de uma vez no inferno...
No sou nenhum pinia...
.Mas por qu? indagou Cirino simulando
admirao...
.O Sr. ainda me pergunta?... Porque o homem no
me faz seno falar em
Nocncia... Outra vez me disse que ela era muito
bonita e mil coisas.. perguntou
se estava casada, se no; que era preciso casar as
mulheres para bem delas. Eu
l sei o que mais?... Isto  um bruto perdido... um
namorador!...
.Qual, Sr. Pereira!...
. o que lhe digo!... Por acaso sou cobra de duas
cabeas(4) que no veja?...
Ah! que peso uma filha! Ah! E ento uma menina
que j est apalavrada... Isto 
uma anarquia! Que diria meu genro, o Maneco?...
.No poder dizer nada, retrucou o moo. E que
diga, no faltar quem queira
sua filha...
.Louvado Deus, no decerto! Eu  que no quero
que ela ande de mo em mo... Ou
casa com o Doca ou...
. Ou... o qu? perguntou Cirino com inquietao,
mas fingindo pouca
curiosidade.
.Ou mato a quem lhe vier transtornar a cabea ..
Comigo ningum h de tirar
farofa!... E no hei de ter mil cuidados quando vejo
este estranja estar com
suas macaquices a dar no fraco das mulheres ?
.Por ora, nada fez ele...
.Por ora .. s leva a falar na pobre menina, que a
Sr Sant.Ana guarde de todo
o mal!... Pudesse eu adivinhar, e macacos me
mordam, se punha os olhos em cima
de Nocncia. Nem que viesse com cartas e ordens
do Sr. D. Pedro II .
Chamei o Jos Pinho, prosseguiu ele em voz baixa e
dei-lhe uns toques. . Ento,
disse-lhe eu, seu amo  o diabo com mulheres,
hem? Ele, que  muito ladino,
respondeu-me logo. .Nhor-no. .Assuntei a
embromao..Qual, voc, carioca,
tem levado areia nos olhos. . Eu?... no  capaz..
Ento voc no tem visto o
que faz seu amo? . Tem sido um santo, retrucou o
espertalho. No Rio, sim. .Na
Corte?.Nhor-sim, na Corte. Ia todas as noites a
uma casa de bebidas, assim uma
espcie de venda de muito luxo e l estava horas
perdidas petiscando e
conversando com senhoras muito bonitas, bem
limpas... algumas com o pescoo e os
braos todos  mostra...
.Contou-lhe isso? atalhou Cirino com alguma
dvida e sobressalto.
. Contou, afirmou Pereira com furor.
Vejam s que homem, hem?  um mequetrefe!...
Esta noite e dora em diante, venho
dormir nesta sala a ver se ele se mexe da cama.
Ah! se eu pudesse!... caia-lhe
de calaboca em cima, que lhe deixava as costelas
em. lascas.
Acabavam as imprudentes histrias de Jos Pinho
de pr a ultima pedra no
edifcio da desconfiana que to depressa erigira a
imaginao de Pereira em
desconceito de Meyer. O que nelas havia de
verdade, eram apenas algumas horas de
lazer, consagradas, durante a estada no Rio de
Janeiro, pelo naturalista ao
consumo de grandes copzios de cerveja no caf
Stadt Coblenz, e nas quais
entretivera risonhos, bem que inocentes colquios,
com pessoas do sexo amvel,
freqentadoras daquele estabelecimento e de
costumes no l muito rigorosos.
XVI.O EMPALAMADO
Ao homem no faltam
importunaes quanto  vossa
capacidade, bem a conhecemos.
Molire, O Mdico  Fora
Conforme o prometido, trouxe Pereira a rede para a
sala dos li hspedes e,
encetando um modo de vigilncia muito especial
ainda que perfeitamente intil em
relao  pessoa suspeitada, associou os sonoros
roncos do valente peito 
ruidosa respirao de Meyer.
Se, contudo, no tivessem seus olhos a venda da
confiana ou, melhor, se o sono
no os acometesse sempre com tamanha
imposio,, decerto em breve houvera
estranhado a cruel agitao em que vivia Cirino e
que este no podia mais encobrir.
Na verdade, o modo por que o infeliz mancebo
passava as noites era de fazer
nascer suspeitas no esprito mais indiferente e
desprevenido. Ou se revolvia na
cama, dando mal abafados suspiros, ou ento saia
para o terreiro, onde se punha
a passear e a fumar cigarros de palha uns aps
outros, at que os galos,
alcandorados na cumeeira da casa e nas rvores
mais prximas, anunciassem as
primeiras barras do dia.
Desabrida paixo enchia o peito daquele malsinado;
dessas paixes repentinas.
explosivas. irresistveis, que se apoderam de uma
alma, a enleiam por toda a
parte, prendem-na de mil modos e a sufocam como
as serpentes de Netuno a
Laocoonte. Conhecedor como era, dos hbitos do
serto, do jugo absoluto dos
preconceitos, do respeito fatal  palavra dada,
antevia tantas dificuldades,
tamanhos obstculos diante de si, que, se de um
lado desanimava, do outro mais
sentia revoltado o nascente e j to violento afeto.
.Deus me ajudar, pensava consigo mesmo: o que
s quero e a amizade de
Inocncia H dias que no a vejo... se no puder
mais v-la... dou cabo da vida...
Sublevava-se o seu corao, girava-lhe o sangue
com vertiginosa rapidez nas
velas e vinha toldar-lhe a vista, trazendo ondas de
rubro calor ao descorado
rosto.
.Nossa Senhora da Abadia, implorava ele puxando
os cabelos com desespero,
valei-me neste apuro em que me acho! Dai-me pelo
menos esperanas de que aquela
menina poder um dia querer-me bem.., Nada mais
desejo... Possa o fogo que me
consome abrasar tambm o seu peito...
Costumava a fervorosa prece dirigida  santa da
especial devoo de toda a
Provncia de Gois acalmar um pouco o mancebo,
que alquebrado de foras pegava
no sono para, instantes depois, acordar
sobressaltado e cada vez mais abatido.
Tambm estava sempre de p quando Pereira
costumava saltar da rede.
.Oh! observou ele da primeira vez, isto  que se
chama madrugar.
.Pois  contra o meu costume, replicou Cirino,
todas estas noites tenho passado mal...
.Na verdade vosmec no est com boa cara...
.Creio que me entraram no corpo as maleitas.
.Essa  que  boa! Ento o doutor foi emprestar(.)
da doente a molstia?...
Olhe,  preciso por-se forte, porque hoje mesmo h
de lhe chegar uma boa maquina
de doentes...
.Melhor...
.J est tudo espalhado por ai da sua chegada e a
romaria no h de tardar.
.C a espero...
.Naturalmente vir primeiro o Coelho... t: boa
ocasio de pagar a sua divida...
No tenha receio de puxar mais no preo...
.Daqui mesmo pretendo despachar um prprio para
me ver livre dessa obrigao...
.Isso mostra que o Sr. pessoa de brio... No 
como certa gente que conheo...
Ao dizer estas palavras, voltara-se Pereira para
Meyer a contempl-lo
atentamente.
Estava na verdade o alemo digno de exame, posto
ainda de parte outro qualquer
motivo que no o de simples curiosidade.
Dormia com as pernas e braos abertos e caldos
para fora do estreito leito das
canastras: tinha o queixo muito levantado pela
posio incmoda da cabea,
deixando a boca meio aberta ver uma fieira de
magnficos dentes.
.Est roncando, hem? murmurou o mineiro.
Cavouqueiro... a mim voc no
engana..., mas  o mesmo!
Iam as prevenes de Pereira tomando propores
de idia fixa, e Meyer, na
simplicidade da ignorncia, como que de propsito
ministrava elementos para que
elas mais e mais se fossem arraigando.
Assim, ao almoo, lembrou-se de perguntar entre
duas enormes colheradas de
feijo:
.Sua filha, Sr. Pereira? Como vai?  melhor?
. melhor o qu, Mochu? exclamou o pai com modo
esquivo.
.A sade dela  melhor?
.Est melhor; est, est, respondeu Pereira muito
secamente. Est boa... vai
fazer uma viagem...
.Viagem, para onde?... At a vila?
.Homem; Mochu, observou o mineiro um tanto
desabrido, vosmec est que nem
mulher velha, tudo quer saber...
Meyer, nessa repreenso, que lhe causou vexame e
alguma admirao, s enxergou
censura justa a sua curiosidade, falta que
confessou com toda a nobreza, embora
agravando a situao.
. verdade, Sr. Pereira, concordou ele. A boa
educao no manda o que eu fiz
.. mereo, porm, desculpa, mereo... Sua filha 
to interessante... que me
lembro sempre dela... Tenho comigo uns
presentezinhos...
.Guarde-os, rosnou Pereira abafando a reflexo
num acesso de tosse.
E para evitar o prosseguimento de semelhante
assunto, deu por finda a refeio,
levantando-se da mesa.
. A vem o Coelho, doutor, exclamou ele olhando
para fora. Xi! como esta
amarelo!... H tempos que o no via... j parece
alma do outro mundo...  do tal
em quem falamos... Aperte-o, porque  mofino
como tudo...
E, interpelando a quem chegava gritou: .Bons
olhos o vejam!... Se no fosse,
amigo Sr. Coelho, ter mdico em casa, nunca havra
de v-lo por c; no 
verdade?
.Ora, respondeu o outro com um gemido, ando
sempre to doente. Nem faz gosto
viver assim... Mas qu. dele, o homem?
.Est aqui...
.J me disseram que faz milagres. Deixou nome
para l das Parnabas... Sabia?
. L que tivesse deixado nome, no: mas que 
cirurgio de patente, tenho
certeza, porque, num abrir e fechar de olhos, me
ps de p uma pessoa c de
casa.
.Se ele me curar... no sei mesmo como lhe
agradecer.
. pagar-lhe, concluiu Pereira, tratando logo de
advogar os interesses do
hspede.
.Sim, hei de... pagar-lhe, confirmou o outro com
alguma hesitao.
.Em todo caso, desa do animal.
Pouco depois, entrava na sala e cumprimentava a
Cirino e a Meyer a pessoa a quem
o mineiro chamara Coelho. Era homem j de idade,
muito mais quebrantado por
enfermidades que pelos anos; tinha a testa
enrugada, as bochechas meio inchadas
e balofas, os lbios quase brancos e os olhos
empapuados.
.Qual dos senhores  o doutor? perguntou ele.
.Sou eu, respondeu Cirino, revestindo-se de
convicto ar de importncia,
enquanto Meyer apontava para ele, cedendo direitos
que talvez pudesse contestar.
Interveio Pereira com amabilidade:
.Sente-se, Sr. Coelho, sente-se. No se ponha logo
a falar de molstias... Isto
no vai de afogadilho... Descanse um pouco... Olhe,
j almoou?
.O pouco que como, retrucou o outro, j est
comido.
.Pois bem, ponha-se primeiro a gosto: depois
ento, converse com o doutor...
Diga-me: que h de novo pela vila?
.Que eu saiba, nada... Tambm h mais de ano
que de l nenhuma noticia tenho...
j no se me d do que vai pelo mundo... Quem
no goza sade, perde o gosto de
tudo... E mesmo uma calamidade . . .
Enquanto Coelho, em toada montona, desfiava
outras queixas no mesmo sentido,
tirara Cirino da canastra o seu Chernoviz e algumas
ervas secas que deps em
cima da mesa.
.O senhor, declarou ele voltando-se para o doente,
est empalamado..
. verdade, Sr. doutor.
. Eu, que no sou fsico, observou Pereira, diria
logo isso...
.Xi, compadre! atalhou Coelho com impacincia e
pedindo silncio.
.O senhor, continuou Cirino com entono, teve
maleitas muitos anos afios depois
comeou a sentir fastio e o estmago embrulhado;
inchou todo e em seguida
definhou... Aos poucos, foi perdendo a sustncia e
o talento.
.Tal qual! murmurou Coelho seguindo com
cautelosa ateno a marcha do diagnstico.
.Agora, o Sr. no pode comer que no sinta
afrontao, no ?
.Muita, Sr. doutor.
.Este homem, disse Pereira para Meyer, leu
bastante nos livros . . . .Veio-lhe
depois uma canseira, e, quando o Sr. anda, do-lhe
uns suores e tremuras por
todo o corpo... O bao est ingurgitado e o fgado
tambm... De noite fica o Sr.
sem poder tomar respirao, mais sentado que
deitado... As vezes tosse muito,
uma tosse sem escarrar, como quem tem um pigarro
seco...
.Tal qual! repetiu o enfermo com uno e quase
entusiasmo.
.Pois bem, terminou Cirino, como j lhe disse, o Sr.
est empalamado.
.E no h cura? perguntou Coelho meio duvidoso.
.H, mas o remdio  forte
.Contanto que faa bem...
.Muita gente, replicou Cirino, tenho j curado em
estado pior que o Sr.; mas,
repito, o remdio  violento...
.Tomarei tudo, afirmou Coelho: h anos que fao
um horror de mezinhas e de
nenhuma delas tiro proveito. Vamos ver.
Cirino neste porto mudou o tom de voz e olhando
para Pereira:
.O Sr. sabe, observou ele que o meu modo de vida
 este...
Com um movimento de cabea aplaudiu o mineiro
aquela entrada em matria.
O mesmo no pensou Coelho, que tartamudeou:
.Ah!... Estou pronto... Sou pobre, muito pobre...
Piscou Pereira um olho com malcia.
.Costumo, continuou Cirino, receber o pagamento
em duas ametades. . .
Depois acrescentou, um tanto vexado:
.Se falo nisto agora com esta pressa,  porque
tambm tenho preciso urgente de
dinheiro. . No acha, Sr. Meyer?
.Pois no, pois no, concordou o alemo: tem todo
o direito.
.Meu amigo, corroborou Pereira, o doutor no
trabalha para o bispo; tem que
ganhar honradamente a vida.
.Ento, como lhe dizia, prosseguiu o outro
dirigindo-se para Coelho, o senhor
pagar-me- no principio da aplicao e no fim.
Assim, no h enganos...
Serve-lhe?
.Que remdio! suspirou Coelho. Eu lhe darei... at
trinta mil-ris... ou...
quarenta...
.Qual! retorquiu Cirino. O meu preo  um s.
.E a quanto monta?
.A cem mil-ris.
.Cem mim ris! exclamou Coelho aterrado.
.Cinqenta no principio, cinqenta no fim.
Gemeu o doente l consigo.
.Ora o que  isto para voc, compadre? interveio
Pereira. Um atilho de milho
para quem tem tulhas cheias a valer!...
.Nem tanto, nem tanto assim, objetou Coelho.
.Deixe-se de historias, continuou Pereira. Se
vosmec no tivesse bons patacos,
eu diria logo ao nosso amigo:.Olhe que este  dos
nossos, no tem onde cair
morto . e ele havra de curar de graa... no ?
.Decerto, decerto, declarou Cirino com muita
prontido.
.Mas com vosmec o caso  defronte! Doutra
maneira, por que razo havia um
cirurgio de andar por estes socaves? Tambm
quer bichar um pouco...
.  muito justo...
.Cinqenta... mil... ris, balbuciava Coelho; assim
de pancada. . .
.Se o mdico o cura, disse Meyer intrometendo-se,
 negcio da China.
Nada dizia Cirino por dignidade prpria. Estava
folheando o Chernoviz, cujas
pginas mostravam continuo manusear, algumas
at enriquecidas de notas e
observaes  margem.
Assim no artigo opilao ou hipoemia intertropical
havia ele escrito ao lado: .E
o que se chama no serto molstia de
empalamado.. E, no fim abrira grande chave
para encerrar esta ousada e peremptria sentena:
.Todos estes remdios de nada
servem. Sei de um muito violento, mas seguro. Foime,
h anos, ensinado por
Matias Pedroso, curandeiro da Vila do Prata, no
serto da Farinha Podre, velho
de muita prtica e que conhecia todas as razes e
ervas do campo..
.Pois bem, disse Coelho depois de grande
hesitao, est o negcio fechado.
Mas, olhe que entrar no pagamento o preo das
mezinhas, e as visitas ho de ser
feitas em minha casa...
.No h duvida, concordou Cirino; irei  sua
fazenda todos os dias... No 
longe daqui?
.Nhor-no... duas lguas pequenas, pela estrada.
.Bem. O senhor, em voltando a casa, meta-se logo
na cama.
Coelho fez sinal que sim.
.Amanh, continuou o moo, deve tomar estes ps
que lhe estou mostrando. Divida
isto em duas pores; h de fazer-lhe muito efeito;
depois descanse dois ou trs
dias, se acaso se sentir muito fraco; em seguida:
E parando de repente, encarou Coelho alguns
instantes:
.O Sr. quer mesmo curar-se?
.Oh! se quero!
.E tem confiana em mim?
.Abaixo de Deus s mec pode salvar-me.
.Ento, tomar s cegas o que eu lhe receitar?
.At carvo em brasa.
.Olhe bem o que diz . . No gosto de comear a
tratar para depois parar...
.No tenha esse medo comigo...
Viver como vivo, antes morrer...
.Ento, continuou Cirino com pausa, acabados os
dias de sossego, h de o senhor
engolir uma boa data de leite de jaracati.
. Jaracati?! exclamaram com assombro o doente e
Pereira.
.Jarracati?! gaguejou por seu turno Meyer,
arregalando os olhos, que  jarracati?
.Mas isso vai queimar as tripas do homem,
observou o mineiro.
Cirino replicou um tanto ofendido:
.No sou nenhum crianola, Sr. Pereira. Sei bem o
que estou dizendo. Este
remdio  segredo meu, muito forte, muito
daninho; mas no  nem uma, nem duas
vezes, que com ele tenho curado empalamados. A
coisa est no modo de dar o leite
e na quantidade: por isso,  que no fao mistrio,
avisando contudo que com uma
porozinha mais do que o preciso, o doente est
na cova...
.Salta! atalhou Pereira, tal mezinha no quero
eu... antes ficar empalamado.
.Que  jarracatia? tornou a perguntar Meyer.
Coelho abaixou a cabea e parecia estar refletindo
na resoluo que havia de
abraar.
Depois, com voz melanclica:
.O dito, dito, declarou, aceito tudo o que vosmec
me der. Agora, quanto fizer
est bem feito... Como  que devo tomar o
jaracati??
.Em tempo lhe direi, replicou Cirino. Fazem-se trs
cortes no p da rvore e
deixa-se correr o primeiro leite: eu mesmo hei de
recolher o que for bom. Tenha
toda a confiana em que o senhor ficar so... Bem
sabe, ningum em negcio de
doena, mais do que outro qualquer, pode nunca
dizer: isto h de ser assim ou
assado... Todos estamos nas mos de Deus. S Ele
pode saber se a molstia nos
sair do corpo ou nos h de atirar  sepultura. Todo
o bom cristo conhece isto
e deve conformar-se com a vontade divina... O que
o mdico faz  ajudar a
natureza e dar a mo ao corpo quando ele pode
ainda levantar-se...
.Justo, justo! apoiou Meyer, ento todo empenhado
em picar um formoso coleptero.
.Assim tambm  que eu entendo, disse o mineiro.
.Mas, o que  jarracati, Sr. Pereira? insistiu o
alemo.
Voltou-se o interpelado com impacincia:
.E uma rvore, Sr Meyer, rvore grande, de folhas
cortadas, que d umas
espcies de mamezinhos. Deitam leite muito
grosso e queimam os beios quando a
gente no tem cuidado. E uma rvore, ouviu? Uma
rvore!
.Ah! exclamou o alemo concertando a garganta.
Nesta ocasio sacou Cirino da canastra outros
remdios e passou-os a Coelho,
dando-lhe minuciosas informaes sobre o modo por
que havia de usar deles.
.Tem muito enjo, quando come? perguntou o
curandeiro.
.Muito, Sr. doutor.
.Assim , mas deixe estar; depois do leite de
jaracati, volta-lhe a apetncia.
Nos primeiros tempos, o senhor s h de beber
claras de ovos bem batidas.
Depois, ira a pouco e pouco tomando mais
alimento.
.Deus o ona...
Levantou-se Pereira e, chegando-se  porta,
anunciou:
.Ai vem gente... Estou ouvindo passos de animal
montado... Sem dvida e algum
pobre engorovinhado de doena. Isto de molstias,
no faltam no mundo. Tambm h
tanta maldade, que no pudera ser por menos.
Depois de ligeira pausa, acrescentou em tom de
surpresa e aborrecimento.
.Hi meu Deus!... Nossa Senhora nos socorra...
Sabem quem vem chegando?...  o
Garcia; est com o mal! h mais de dois anos e no
quer crer na desgraa...
Pobre coitado, sem dvida vem comprar o
desengano... Tenho muita pena dessa
gente... mas, deveras, no a quero ver em minha
casa... Vamos, Sr. doutor,
despache o Garcia depressa. Com lzaros no se
brinca. A Senhora Sant.Ana de tal
nos livre! Nem olhar  bom.
E, Pereira, voltando-se para dentro, pediu
apressadamente:
.No deixe o homem desapear, doutor: ficava-me
depois o desgosto de ter que lhe
fazer alguma m-criao. Pelo amor de Deus v l
fora... Veja o que ele quer...
e d-lhe boas tardes da nossa parte... Olhe, esta
chamando... Sala, doutor,
saia!
Ouvia-se, com efeito, uma voz perguntar se estava
em casa o Sr. Pereira.
Este, vendo que Cirino no se apressava  medida
dos seus desejos, ou temendo
que o recm-chegado lhe entrasse na sala, sem
demora apareceu  soleira da porta
e, com manifesta sequido, respondeu ao humilde
cumprimento de chapu e  meiga
saudao que lhe era dirigida.
XVII.O MORFTICO
O leproso. . Interesse? Ah! nunca
inspirei seno
compaixo...
O militar . Quo feliz fora eu se
pudesse dar-vos algum
consolo!...
No devo ter sociedade seno
comigo mesmo, nenhum amigo,
seno Deus.
Generoso estrangeiro, adeus, se
feliz. Adeus para sempre!
Xavier de Maistre, O Leproso de Aosta
A pessoa que chegara, bem que tivesse
descavalgado, no se adiantou ao encontro
do dono da casa. Pelo contrrio como que recuou,
conservando-se depois imvel,
encostado a um burrinho, cujas rdeas segurava.
De seu lugar, perguntou-lhe Pereira com expresso
no muito prazenteiro:
.Ento, como vai, Sr. Garcia?
. Como hei de ir, respondeu o interpelado. Mal...
ou melhor, como sempre.
.Pois esteja na certeza de que muito sinto.
.Est ai o cirurgio? indagou Garcia.
.No tarda a vir v-lo ai fora... Olhe,  um
instantezinho.
Palavras to cruis no pareceram fazer mossa ao
desgraado.
. Esper-lo-ei com toda a pacincia, replicou
melanclico.
.J sei que volta hoje para casa, afirmou Pereira.
.Volto. Se a noite me pegar em caminho, ficarei no
pouso das Perdizes.
.E verdade: l h uma tapera. Mas o Sr. no tem
medo de almas do outro mundo?
Dizem que o tal rancho velho  mal-assombrado. .
Eu? exclamou o infeliz. S
tenho medo de mim mesmo. Quisesse um defunto
vir gracejar um pouco comigo, e de
agradecido lhe beijava os dedos rodos dos bichos.
Olhe, Sr. Pereira, continuou
com voz um tanto alta e agoniada, no levo a mal o
senhor no me convidar para
entrar em sua casa; no, no seu caso havia de fazer
o mesmo.
Oh! Sr. Garcia! quis protestar Pereira.
.Nada;... digo-lhe isto do corao... Na minha
famlia sempre tivemos nojo de
lzaros... Sou o primeiro... O Sr. nem imagina... Vivi
muitos anos meio
desconfiado... A ningum contei o caso... De
repente, arrebentou o mal fora. J
no era mais possvel enganar nem a um cego...
Ah! meu Deus, quanto tenho
sofrido!...
.Permita Ele, interrompeu Pereira em tom
compassivo, que este doutor tenha
algum remdio... Bem v... s vezes...
.Curar a morfia? replicou Garcia com sorriso
pungente de sarcasmo. No h esse
pintado... que em tal pense...
.Ento para que quer ver o mdico?
. S para uma coisa... Saber pelos livros que ele
tem lido e pelo conhecimento
das molstias, se isto pega...  s o que quero...
Porque ento fujo de minha
casa. Desapareo desta terra... e vou-me
arrastando at tombar nalgum canto por
ai... Dizem uns que pega... outros que no... que 
s do sangue... Eu no
sei...
, abanando tristemente a cabea, apoiou-se ao
tosco selim.
Depois, ergueu os olhos para os cus, e exclamou:
.Cumpra-se tudo quanto Deus Nosso Senhor Jesus
Cristo houver determinado!... Se
o mdico me desenganar, no quero que a minha
gente fique toda... marcada...
Irei para So Paulo...
Pereira cortou este doloroso dilogo:
.Est bem, patrcio Garcia, disse, vou j mandarlhe
o homem. . . espere um
pouco. . .
E, entrando, reiterou o pedido a Cirino, que se
demorara a receitar a Coelho
umas beberagens de velame e ps-de-perdiz,
plantas muito abundantes naquelas
paragens, de grandes virtudes diurticas e que
deveriam ser empregadas um ms
depois da aplicao do leite de jaracati.
.Ande, doutor, instou Pereira, v l fora ver o
coitado do outro e despache-o
depressa. Estou todo enfernizado por v-lo no meu
terreiro.
Cirino saiu ento e, caminhando com lentido,
parou a alguns passos do
mal-aventurado Garcia, cujo rosto repentinamente
se contraiu enquanto tirava o
chapu com submisso e receio.
Vinha ento a tarde descendo, e a luz do crepsculo
irradiava por toda a parte,
to melanclica e suave que, sem saber por que, a
alma de Cirino de repente se
confrangeu.
Com assombro o encarava o lzaro. Diante dele se
erguera quem lhe ia apontar o
caminho da eterna proscrio. Dos seus lbios ia
cair a sentena ltima,
irremedivel, fatal! Quanta angstia no olhar
daquele homem! Que pensamentos
sinistros! Quanta dor!
Tambm ficara ali atnito, boquiaberto,  espera
que a palavra de Cirino lhe
quebrasse o horroroso enleio. .Ento, disse este
depois de breve pausa, que me
quer o senhor? .Doutor, balbuciou Garcia...
primeiro que tudo quero...
pagar-lhe;... trouxe algum... dinheiro... mas,
talvez... seja... pouco.
Interrompeu-o Cirino:
.No recebo dinheiro para tratar... da sua molstia.
.Quer isto dizer, replicou com acabrunhamento
Garcia, que ela no tem cura...
Eu bem sabia, mas. .  to duro ouvir sempre isso!.
. Olhe, o meu mal  de pouco
. . . est em principio. Quem sabe... se o Sr. no
conhecer alguma erva?...
. Infelizmente, respondeu Cirino, nem eu, nem
ningum conhece essa planta...
.Enfim!
E Garcia, fechando os olhos como que para
concentrar as foras, continuou:
.Ah! doutor, eu sou um pobre homem... velho j
cansado... Por que no me velo a
morte em lugar desta podrido que me esta
comendo as carnes?... Muito tempo a
senti dentro de mim... Disfarcei, at ao dia em que
minha neta... a filha do meu
corao.. a Jacinta. . . ela mesma, mostrou certo
receio de me abraar . . Ah!
senhor, quanto se sofre nesta vida!
E Garcia parou ofegante, empalidecendo muito.
.D-me gua, exclamou ele, gua... pelo amor de
Deus!... Pudesse agora... ser o
meu dia... A minha garganta... est que nem fogo! .
. .
E agarrou-se aos arreios para no cair no cho.
Cirino correu a buscar gua.
.Onde h de ser? perguntou Pereira.
.Onde queira, respondeu o outro com pressa, veja
que aquele cristo est
sofrendo...
.Ah! leve a caneca de loua... Depois a
quebraremos...
Com sofreguido tomou o lzaro o vaso, bebeu de
um trago e pareceu melhorar.
.Foi um vagado, disse reassumindo aos poucos a
calma. Mas, como lhe contava,
certeza tinha eu do mal. Agora, s quero saber uma
coisa e vou-me de partida.
Esse mal... pega, doutor?
.Pega, afirmou Cirino com tristeza.
.E que me resta fazer?
.Pedir  Senhora Sant.Ana pacincia e a Nosso
Senhor Jesus Cristo. . Garcia
abanava a cabea acabrunhado.
...que o proteja na sua vida de desgraas. .Meu
Deus, balbuciou o morftico a
meia voz, dai-me foras... coragem para que eu
faa o que devo fazer.
E, com sbita resoluo:
.Cumpra-se a vontade do Altssimo! exclamou,
enfim. Doutor, obrigado! O pobre
lzaro h de pedir ao Todo-Poderoso que neste
mundo e no outro lhe pague as suas
palavras de homem de letras... Adeus! Eu me vou
para as terras de So Paulo...
Talvez me junte  gente da minha espcie Adeus...
E, a custo montando a cavalo, voltou-se para as
pessoas que tinham de longe
vindo assistir  consulta.
. Adeus, disse ele acenando com o chapu, gente
e patrcios. Sr. Pereira, Sr.
Coelho, mais senhores, adeus! Eu me boto de uma
feita para l das Parnabas. . .
Este serto no me v mais nunca!,
Acolheu o silncio essas palavras de eterna
despedida.
Garcia ento, esporeando com o calcanhar o ventre
da cavalgadura, a passo tomou
rumo da estrada geral e sumiu-se numa das voltas
do caminho, quando j vinha a
noite estendendo o seu lgubre manto.
XVIII.IDLIO
Mas, que luz e essa que ali aparece
naquela janela? A
janela  o Oriente e Julieta o Sol.
Sobe, belo astro, sobe
e mata de inveja a plida lua.
Shakespeare, Romeu e Julieta, Ato II
Entretanto, desde algum tempo,
sentia-se Virgnia agitada
de mal desconhecido... Em sua
fronte, no pousava mais a
serenidade, nem o sorriso lhe
pairava nos lbios... Pensa
ela na noite, na solido, e logo
devorador a abrasa toda.
B. de Saint-Pierre, Paulo e Virgnia
Decorreram sem novidade dias e dias uns aps
outros; Cirino diagnosticando e
curando ou melhor, receitando; Meyer aumentando
cada vez mais a sua bela coleo
entomolgica, sempre feitorizado por Pereira, que
cautelosamente tratava de
mant-lo no suspeito crculo da sua apertada
vigilncia.
Confidente de todos os infundados e mal
empregados receios era Cirino.
.O alamo, dizia o mineiro, no me deixa pr p
em ramo verde, mas tambm
trago-o vigiado que  um gosto... Se desconfiasse,
teria medo at da sua
sombra... Estou em brasas... No sei por que no
chega o Maneco Doca... Quero
arriar a carga no cho... Agora, mais do que nunca,
devo casar Nocncia... Estas
mulheres botam sal na moleira de um homem.
Salta! E ainda isto tudo no  nada.
.Ento espera muito breve o Maneco? perguntou
o outro com ansiedade.
.No pode tardar... por estes dois ou trs dias
quando muito... Vem de Uberaba
e sem dvida por l arranjou todos os papis... Dei
a certido do meu
casamento... a do batismo da pequena... e adiantei
dinheiro para as despesas...
bem que ele refugasse meio vexado.
. Ento est tudo decidido? perguntou Cirino com
vivacidade.
.Boa dvida!... J lhe tenho dito mais de uma vez.
Hoje  coisa de pedra e
cal... Se at trato o Maneco de filho... A honra
desta casa  tambm honra
dele.
.Mas sua filha?
. Que tem?
.Gosta dele?
.Ora se!. . Um homenzarro... desempenado. E,
quando no gostasse,  vontade
minha, e est acabado. Para felicidade dela e, como
boa filha que  , no tem
que piar... Estou, porm, certssimo de que o noivo
lhe faz bater o corao...
tomara ver o cujo chegado!
J nesse tempo, como dissemos, Inocncia de todo
se restabelecera, ainda que
Cirino tivesse feito quanto possvel render a
enfermidade. Mas, quando o rubor
da sade voltou  acetinada ctis da sertaneja e 0
vigor ao esbelto corpo, no
houve pretexto a que se apegar, e as entrevistas
curtas e graves de mdico foram
cortadas, at mesmo para no desviar a ateno de
Pereira da pessoa de Meyer.
Com o corao, pois, partido de dor, declarou que os
e eus cuidados e presena
se tornavam completamente desnecessrios.
Seguiram-se ento semanas inteiras, sem que
pudesse por os ansiosos olhos na
formosa namorada, e por tal modo se exacerbou a
sua paixo que, para encobri-la
c disfarar a excitao nervosa, a falta de apetite e
palidez extrema, teve que
recorrer a desculpas de molstia; caiu realmente
doente.
A incerteza em que se via, sem, pelo menos, saber
se o seu afeto era ou no
correspondido, dava-lhe acessos de violenta
angstia, que a desoras tocava s
ratas da exasperao.
Uma noite, em que havia luar embaciado por ligeira
bruma, tomou a sua aflio
tal violncia que ele decidiu fugir daquele local de
sofrimentos e incertezas,
logo na manh seguinte.
Assente uma vez nesta resoluo, ergueu-se do
leito em que jazia prostrado pelo
mais cruel desalento e, com algum custo, saiu para
o terreiro, abrindo
cautelosamente a porta da casa, a fim de no
acordar os companheiros de quarto.
Uma vez fora, sentou-se num tronco de madeiro e
ali ao ar fresco e acariciador
da madrugada, entrou com mais tranqilidade a
pensar no caso.
Seria uma hora depois de meia-noite.
Estavam os espaos como que iluminados por essa
luz serena e fixa que irradia de
um globo despolido; luz fosca, branda, sem
intermitncias no brilho, sem
cintilaes, e difundida igualmente por toda a
atmosfera.
Haviam j  os galos cantado uma vez, e, ao longe,
muito ao longe, de vez em
quando, se ouvia o clamor das anhumapocas.
Levantou-se de repente Cirino.
Depois de alguma vacilao, deu uma volta por toda
a habitao, pulando os
cercados, e tomou o ramo do frondoso laranjal, a
cuja espessa sombra se abrigou
por algum tempo. Achegou-se, em seguida,  cerca
dos fundos da casa e parou no
meio do ptio, olhando com assombro para uma
janela aberta.
Um vulto ali estava!... Era o dela; Inocncia.. No
havia duvidar.
A principio, nenhum movimento fez; mas, depois,
lentamente se foi retirando e
aos poucos fechou o postigo.
Cirino deu um s pulo e de leve, muito de leve,
bateu apressadas pancadas na
tbua da janela.
.Inocncia!... Inocncia!... chamou com voz
sumida, mas ardente e cheia de
splica.
Ningum lhe respondeu.
.Inocncia, implorou o moo, olhe... abra, tenha
pena de mim... Eu morro por
sua causa...
Depois de breve tempo, que para Cirino pareceu um
sculo, descerrou-se a medo a
janela, e apareceu a moa toda assustada, sem
saber por que razo ali estava nem
explicar tudo aquilo.
Parecia-lhe um sonho.
Quis, entretanto, dar qualquer desculpa  situao
e, fingindo-se admirada,
perguntou muito baixinho e a balbuciar:
.Que vem... mec... fazer aqui?... j... estou boa.
Da parte de fora, agarrou-lhe Cirino nas mos.
.Oh! disse ele com fogo, doente estou eu agora...
Sou eu que vou morrer...
porque voc me enfeitiou, e no acho remdio para
o meu mal.
.Eu... no, protestou Inocncia.
.Sim... voc que  uma mulher como nunca vi...
Seus olhos me queimaram... Sinto
fogo dentro de mim... J no vivo... o que s quero
 v-la...  am-la, no
conheo mais o que seja sono e, nesta semana,
fiquei mais velho do que em muitos
anos havia de ficar... E tudo, por qu, Inocncia?
.Eu no sei, no, respondeu a pobrezinha com
ingenuidade. .Porque eu amo...
amo-a, e sofro como um louco... como um perdido.
.U, exclamou ela, pois amor  sofrimento?
.Amor  sofrimento, quando a gente no sabe se a
paixo  aceita, quando se no
v quem se adora; amor  cu, quando se est
como eu agora estou,
.E quando a gente est longe, perguntou ela, que
se sente?... .Sente-se uma
dor, c dentro, que parece que se vai morrer.. Tudo
causa desgosto: s se pensa
na pessoa a quem se quer, a todas as horas do dia
e da noite no sono, na reza,
quando se pede a Nossa Senhora, sempre ela, ela,
ela!... o bem amado... e...
.Oh! interrompeu a sertaneja com singeleza, ento
eu amo... .Voc? indagou
Cirino sofregamente.
.Se  como... mec diz...
. ... eu lhe juro!...
.Ento... eu amo, confirmou Inocncia.
.E a quem?... Diga: a quem? Houve uma pausa, e
a custo retrucou ela ladeando a
questo: .A quem me ama.
.Ah! exclamou o jovem, ento  a mim...  a mim,
com certeza, porque ningum
neste mundo, ningum, ouviu?  capaz de am-la
como eu... Nem seu pai... nem sua
me, se viva fosse... Deixe falar seu corao... Se
quer ver-me fora deste
mundo... diga que no sou eu, diga!...
.E como ia mec morrer? atalhou ela com receio.
.No falta pau para me enforcar, nem gua para
me afogar.
.Deus nos livre! no fale nisso... Mas, por que 
que mec gosta tanto de mim?
Mec no  meu parente, nem primo, longe que
seja, nem conhecido sequer... Eu
lhe vi apenas pouco tempo... e tanto se agradou de
mim?
.E com voc... no sucede o mesmo? perguntou
Cirino.
.Comigo?
.Sim, com voc... Por que  que est acordada a
estas horas? Por que  que no
pode dormir?... que a cama lhe parece um braseiro,
como a mim tambm parece?...
Por que pensa em algum a todo o instante?
Entretanto, esse algum no  primo
seu, longe que seja, nem conhecido sequer?...
. verdade, confessou Inocncia com doce candura.
Depois quis emendar a mo:
.Mas, quem lhe disse que vivo pensando em mec?
.Inocncia, implorou o moo, no queira negar,
vejo que sou amado . . .
.Sempre amar! observou ela, mais para si do que
para quem a ouvia. No ano que
j passou e por ocasio da Sra. Sant.Ana, aqui
vieram umas parentas minhas e
caoaram comigo, porque eu no as entendia: tanto
assim que uma delas, a Nh
Tuca, me disse: .Deveras, mec ainda no gostou
de nenhum moo? E eu respondi:
No assunto o que mecs esto a prosear.. Aquilo
era certo, e to verdade como
estar nosso Deus no paraso... Hoje...
.E hoje?
.Hoje? repetiu a moa. Quem sabe se no era bem
melhor no ter nunca gostado de
ningum?
.Isso no est na gente. . .  ordem l de cima. . .
.Enfim, se for destino, que se cumpra.
Conservava-se Inocncia ainda um pouco arredada
da janela, de modo que Cirino,
para lhe falar baixinho, tinha o corpo inclinado do
lado de dentro. Segurava as
mos da namorada e puxava-a com doce violncia,
quando mostrava querer
afastar-se.
Era o ardente colquio dos dois cortado de
freqentes pausas, durante as quais
se embebiam recprocos os olhares carregados de
paixo.
.Deixa-me ver bem o teu rosto, dizia Cirino a
Inocncia Para mim,  muito mais
belo que a Lua e tem mais brilho que o Sol.
E, apesar de alguma resistncia, fraca embora, mas
conscienciosa, que lhe foi
oposta, conseguiu que a formosa rapariga se
recostasse ao peitoril da janela.
.Amar, observou ela, deve ser coisa bem feia.
.Por qu?
.Porque estou aqui e sinto tanto fogo no rosto!...
C dentro me diz um palpite
que  pecado mortal que fao...
.Voc to pura! contestou Cirino.
. Se algum viesse agora e nos visse, eu morria de
vergonha. Sr. Cirino,
deixe-me . . . v-se embora! . . . o Sr. me atirou
algum quebranto... aquela sua
mezinha tinha alguma erva para mim tomar... e me
virar o juzo...
. No, atalhou o mancebo com fora, eu lhe juro!
Pela alma de rainha me... o
remdio no tinha nada!
.Ento por que fiquei... ansim, que me no
conheo mais?... Se papai
aparecesse... no tinha o direito de me matar?...
Foi-se-lhe a voz tornando cada vez mais baixa e
sumiu-se num golfo de lgrimas.
Atirou-se Cirino de joelhos diante dela.
.Inocncia, exclamou, pela salvao de minha
alma lhe dou juramento, nada de
mau fiz para prender o seu corao.. Se voc me
quer, e porque Deus assim
mandou... Sou um rapaz de bons costumes . Ate
hoje nunca tinha amado mulher
alguma... mas no sei como deixar de amar uma
moa como voc... Perdoe-me; se
voc sofre... eu tambm padeo muito... perdoeme...
Alara o mancebo um pouco a voz.
De repente Inocncia estremeceu.
.No ouviu ruido? perguntou ela com terror.
.No, respondeu Cirino.
.Algum acordou l dentro...
.Pois... ento v ver... o que ... e se no for
nada, volte... Aqui a espero,
escondido  sombra da parede...
Minutos depois, reapareceu a moa.
.No vi nada, disse.
. Ento foi abuso.
. melhor que o Sr. se v embora.
.No, Inocncia tenha pena de mim... Eu no
poderei v-la to cedo e... preciso
conversar... mesmo para arranjo da nossa vida. . O
Maneco no tarda...
.Ah! exclamou ela com sobressalto, ento mec
sabe...
.Sei; e desgraadamente, breve est ele batendo
aqui...
.Eu bem dizia que o Sr. me havra de perder...
Antes de o ter visto... casar
com aquele homem, me agradava at... Era uma
novidade... porque ele me disse que
me levava para a vila... Mas agora esta idia me
mete horror! Por que  que mec
mexeu comigo? Sou uma pobre menina, que no
tem me desde criancinha... No h
tanta moa nas cidades... nos povoados?... Por que
veio tirar o sono... a
vontade de viver a quem era .. to alegre... que at
hoje no pensou em
maldade... e nunca fez dano a ningum?
.E eu? replicou com energia Cirino, pensa ento
que sou feliz?... Olhe bem uma
coisa Inocncia: Digo-lhe isto diante de Deus: ou
hei de casar com voc... ou
dou cabo da vida... Quem arranjou tudo assim... foi
o meu caiporismo... Se eu
tivesse passado aqui antes daquele homem, que
odeio, que quisera matar... nada
impediria que eu fosse hoje o ente mais feliz do
mundo!... Mais feliz aqui neste
serto, do que o Imperador nos seus paos l na
corte do Rio de Janeiro! Eu j
lhe disse... culpa no tive...
.No h nada que nos possa salvar, atalhou a
moa.
.Nada?... Talvez... Soou nesse momento, e
repentinamente, do lado do laranjal
um assobio prolongado, agudssimo, e uma pedra,
arremessada por mo misteriosa e
com muita fora, sibilou nos ares e veio bater na
parede com surda pancada,
passando rente  cabea de Cirino.
Deu Inocncia abafado grito de terror e fechou
rapidamente a janela, ao passo
que o mancebo, esgueirando-se com celeridade pela
sombra, resoluto correu para o
ponto donde presumia ter partido a pedra.
No viu ningum.
Por toda a parte, o rudo misterioso e peculiar a
uma noite calma de vero.
Percorreu em todos os sentidos o pomar, e s ouviu
a bulha dos seus passos.
Afinal, de cansado, deixou o sitio e cautelosamente
se dirigiu para o terreiro
da frente.
Quando l chegou, parou atnito.
O mesmo assobio, prolongado e finssimo, desta
feita talvez mais estridente,
feriu-lhe os ouvidos.
XIX.CLCULOS E ESPERANAS
Apesar, porm, de jovem, apesar da
violncia do amor que a
prendia a Julio, sabia ela conter os
movimentos do
corao e desconfiar de si mesma.
Walter Scott, Peveril do Pico
Lisa. . Contento que tenhas
bastante resoluo...
Lucinda.. Que queres que eu faa
contra autoridade de um
pai? Se ele for inexorvel aos meus
pedidos?...
Molire
Durante os dias de estada nas terras de Pereira, as
quais no tinham limites nem
vizinhos dali a muitas lguas, aumentou Meyer a
sua interessante coleo com
extraordinria variedade de bichinhos e sobretudo
borboletas.
Tal era a alegria de que se possura por esse fausto
motivo, que a cada momento
a manifestava num tom de franqueza capaz de por
si 80 convencer o mais descrente
dos homens em questo de sinceridade.
.Sr. Pereira, dizia o naturalista, afiano-lhe que em
parte alguma do Brasil
estive ainda to bem como em sua casa.
.Eu te entendo, maroto, rosnava o mineiro.
.Deveras!... S o que sinto  que sua filha no nos
aparecesse mais... Sinto
muito, na verdade...
Sorriu-se Pereira com riso amarelo e replicou,
apertando os punhos de raiva:
.Mochu sabe. isto so costumes c da terra. As
mulheres no so feitas para...
. Para qu? perguntou Meyer com pausa.
. Para prosearem com qualquer um...
.Que  prosearem?
. conversar, dar de lngua, explicou Cirino.
. Obrigado, doutor, retorquiu Meyer, agradecendo
mais aquela indicao
filolgica que foi imediatamente enriquecer o seu
caderno de notas. Prosear e
conversar. Muito bem!. . Pois  pena, Sr. Pereira,
porque sua filha  uma bonita senhora!
.Nesta arapuca no caio eu, seu tratante... Hei de
toda a vida andar com olho
em ti, murmurava o mineiro.
.E pena, confirmava Meyer duas e trs vezes .. 
pena...
Por certo no era esta a linguagem mais prpria
para desvanecer as prevenes e
receios de Pereira; ao invs, mais e mais recrescia
a sua vigilncia sobre
Meyer, o que proporcionava ao verdadeiro culpado a
liberdade de que carecia para
tornar a ver o mal guardado tesouro.
No foi todavia sem custo a nova conferncia.
Ficara a pobre menina to
impressionada com o final da primeira entrevista,
que, por alguns dias, mal saia
do quarto.
Escrever-lhe Cirino, era de todo intil, por isso que
ela nunca aprendera a ler;
e, depois, qual o meio de lhe fazer chegar s mos
qualquer papel ou recado?
Sobravam, portanto, razes para que o jovem se
ralasse de impacincia e quase
desesperasse da sorte. Passava as noites em claro,
metido no laranjal e
procurando uma soluo a tanta dificuldade;
atordoavam-no ainda aqueles dois
assobios que no podia explicar e sobretudo aquela
pedrada to bem dirigida, que
por pouco talvez o houvesse estendido por terra.
Numa dessas noites de ansiedade, viu afinal
reabrir-se a janela de Inocncia
A pobrezinha, abrasada tambm de amor, queria
respirar o ar da noite e beber na
virao do serto um pouco de tranqilidade para
sua alma no afeita ao
tumultuar dos sentimentos que a agitavam e, quem
sabe? verificar se por ai no
andava rondando aquele que no seio lhe inoculara
tamanho desassossego, mpetos
to desconhecidos e violentos, superiores a todas
as suas tentativas de
resistncia.
Cirino, rpido como uma seta, rpido como aquela
pedra arrojada to
vigorosamente, achou-se ao p da janela e cobriu
de beijos as mos da sua amada.
.O grito? balbuciou ela. Dois gritos... e a
pedrada... Que foi?
.Ah! no foi nada, respondeu apressadamente
Cirino; foi ver no laranjal... era
um macau O que pareceu pedrada era um noitib
que frechou para mim e veio dar
com a cabea na parede.
.Deveras? perguntou ela incrdula.
.Deveras. A principio tomei tambm um grande
susto. Depois, verifiquei que no
passava de miragem. De noite, a gente em tudo v
maravilhas... Para mim, a nica
que vi era voc, minha vida, meu anjo do cu...
Com este madrigal encetou Cirino uma conversao
como a da primeira noite, como
a que balbuciam duas cndidas almas na eterna e
sempre nova declarao de amor,
desde que Ado e Eva a trocaram. a sombra das
maravilhosas rvores do den.
Mostrou-se o moo receoso da rivalidade de Meyer.
Riu-se ela e gracejou, com
esprito e bondade, da figura do estrangeiro. Com
toda a confiana, chegou a
idear planos de risonho futuro:
.Agora, que sei o que  amar, direi a meu pai que
j no quero o Maneco, ..
. E se ele insistir?
. Hei de chorar .. chorar muito...
. Lgrimas, muitas vezes, de nada servem.
.Mas tenho c comigo outro recurso...
. Qual  ? perguntou Cirino.
. Morrer! . . .
.No! H outros... hei de dizer-lhe...
Tomou Inocncia ar grave e meio ofendido.
.Escute, Cirino, observou ela, nestes dias tenho
aprendido muita coisa. Andava
neste mundo e dele no conhecia maldade
alguma... A paixo que tenho por mec
foi como uma luz que faiscou c dentro de mim.
Agora comeo a enxergar melhor...
Ningum me disse nada; mas parece que a minha
alma acordou para me avisar do que
 bom e do que  mau... Sei que devo de ter medo
de mec porque pode botar-me a
perder... No formo juzo como, mas  minha honra
e a de toda a minha famlia
esto nas suas mos...
Inocncia quis interromper Cirino.
.Deixe-me falar, deixe contar-lhe o que me enche o
peito... Depois ficarei
sossegada... Sou filha dos sertes; nunca morei em
povoados, nunca li em livros,
nem tive quem me ensinasse coisa alguma... Se eu
o magoar, desculpe, ser sem
querer... Lembra-me que, h j um tempo, pararam
aqui umas mulheres com uns
homens e eu perguntei a papal por que  que ele
no as mandava entrar c para
dentro, como  de costume com famlias... O pai me
respondeu: .No, Nocncia,,
so mulheres perdidas, de vida alegre. Fiquei muito
assombrada..Mas, ento,
melhor, se so alegres ho de divertir-me..Aquilo 
gente airada, sem-vergonha,
secundou ele. .Tive tanto d delas que mec no
imagina. Depois fui espiar..
caam tontas no cho... pitavam e cantavam muito
alto com modos to feios, que
me fizeram corar por elas! E so os homens que
fazem ficar ansim as coitadas!...
Antes morrer... Parece-me que Nossa Senhora h de
ter pena dos que amam... mas
desampara com certeza os que erram... & no
houver outro remdio, temos que nos
lembrar que as almas, quando se acaba tudo neste
mundo, vo, pelos cus cheios
de estrelas, passeando como num jardim... Se eu
me finasse e mec tambm,
punha-se a minha alma a correr pelos ares,
procurando a de mec procurando,
procurando, e ento ns dois juntinhos amos
viajando ora para aqui, ora para
ali, s vezes pelo carreiro de So Tiago, as vezes
baixando a este ermo a ver
onde  que botaram os nossos corpos... No era to
bom?
Envolvida em sua pureza como num manto de
bronze, entregava-se Inocncia com
exaltamento e sem reserva a fora da paixo. E
essa natureza pudica e delicada a
tal ponto dominava a Cirino que invencvel
acanhamento o prendia ante a dbil
donzela, alheia a todos os mistrios da existncia.
Por isso, ao inflamado mancebo no acudia a idia
de saltar por aquela janela e
menos a de praticar qualquer ao desrespeitoso.
Consumia o tempo em beijos nas
mos da namorada, em tagarelices de amor,
protestos, juras e iluses de futuro.
.Amanh, dizia Cirino, hei de, com cuidado,
assuntar a seu pai.. falando no seu
casamento... depois... hei de virar a conversa para
mim...
.Papai, observou a menina,  muito bom, muito
mesmo. Mas tenho um medo dele!
Tem um gnio meu Deus!...
.Quanto a mim... hei de falar bem claro e
explcito... O que quero,  que voc
me seja constante.
Mas do sentimento de temor, que sobressaltava
Inocncia, tambm participava
Cirino. Por isso, chegado o dia, no ousava tocar na
melindrosa questo, bem que
as continuas queixas de Pereira contra Meyer lhe
dessem ensejo mais ou menos
favorvel para desembaraadamente encet-la. Com
gosto adiava o momento decisivo
e esperava perplexo qualquer incidente, que melhor
servisse a seus planos,
Entretanto, apesar de se acumularem os dias sem
que trouxessem modificaes
naquele estado de coisas, doce esperana pairava
no fundo do seu corao,
consentindo-lhe planos de venturoso porvir e feliz
desenlace s dvidas e
sofrimentos em que vivia.
XX.NOVAS HISTRIAS DE MEYER
Disse-me Sancho:Cada qual abra
bem o olho e fique alerta,
porque o diabo entrou na dana e
se lhe deram ensejo,
ver-se-o maravilhas. Virai-vos em
mel, e as moscas vos
comero
Cervantes, D. Quixote, Cap. XLIX
Uma ocasio, de volta do trabalho dirio, atingiu a
habitual irritao Pereira
contra Meyer grande intensidade. Entrara
cabisbaixo, sorumbtico e fez gesto a
Cirino de que precisava falar-lhe a ss. Dali a
pouco, saindo ambos, caminharam
silenciosos pela estrada ate a um regato que ficava
a meio quarto de lgua da
casa.
.Que ter este homem hoje? dizia Cirino consigo
mesmo. Talvez v chegando o
momento de tratar do assunto.
Voltou-se de repente Pereira e, com voz alterada,
prorrompeu em exclamaes:
.Sabe, doutor, que no posso mais aturar esse
alamo?... Aquilo  um
mandingueiro, uma suuarana, vinda do inferno para
me botar a perder!... Meu
irmo... meu irmo, que presente me fez voc! . . .
.Mas, que houve? perguntou Cirino.
.Olhe... se no fosse aquela carta, e a palavra que
dei ao maldito... mil raios
o partam, surucucu do diabo! potro melado!... j um
bom balzio lhe teria varado
os miolos.
.Que novidades h ento, Sr. Pereira? tornou a
inquirir Cirino.
.Vim mesmo ate aqui para tirar este peso do
corao...
.Mas...
.Sabe o senhor que aquele Mochu  pior que um
tigre preto?... Parece homem
-toa, um punga, incapaz de matar uma pulga, no
?... Pois aquilo  uma alma
danada... um sedutor...
.Sempre as suas desconfianas! observou Cirino.
.Desconfianas, no: agora, certeza. Pois o que
quer dizer o homem todo o
dia... estar a lembrar-se da menina..- Procurar
traz-la a conversa?.Como est
sua filha? pergunta-me ele sempre. .Esta boa, de
uma vez para todas. E ele,
toda a vida a insistir... Isto me pe o sangue a
ferver, mas vou-lhe respondendo
com bom modo... Hoje, saiu-se o cujo de seus
cuidados e disse-me como quem toma
leite com farinha de milho: .Sua filha vai casar?.
Vai, respondi-lhe todo
trombudo. . Com quem? Tive vontade de lhe dizer:
No  da tua conta, seu
bisbilhoteiro, seu biltre, e atacar-lhe uma cabeada,
mas, como  meu hspede,
secundei-lhe enfarruscado: com um homem do
serto que h de amolar a faca na
pele da barriga do mariola que vier mexer com a
mulher dele. O alamo no se deu
por achado e, com todo o sem-vergonhismo, me
retrucou: Pois o senhor faz mal. A
sua filha  muito mimosa e deveria casar com
algum da cidade..Ento, perdi a
pacincia: Mochu, lhe disse, cada um manda em sua
casa como entende: eu na
minha, no quero ser anarquizado; ele, quando me
viu fulo de raiva, pediu-me mil
desculpas, contou-me muitas histrias, isto, aquilo,
aquilo outro, et coetera e
tal, que era para bem de minha filha e no sei mais
o que, numa lngua que pouco
entendi...
. No fez bem, atalhou Cirino.
.Boa dvida! Aquilo  uma alma danada... boa
para as caldeiras de Pedro
Botelho, um judeu... enfim, um caador de
anicetos: est dito tudo! . . . Mas
ainda no lhe contei o mais. . . Parece que hoje
estava mesmo com o diabo no
corpo... Meteu-se no mato perto da minha roca,
onde eu trabalhava com os meus
cativos, e l fazia um barulho a quebrar galhos e
romper o cipoal como se fosse
anta; de repente ouvi uma gritaria muito grande;
era o tal Meyer com o camarada
Jos Pinho a berrar como dois minhoces. Corri a
ver o que era e os achei muito
contentes a olhar para uma barboleta grande j
fincada num pau de pita. 0 alamo
ps-se a pular como um cabrito.
. novo, me disse ele,  novo! .Novo o que,
Mochu?.Este bicho, ningum o
descobriu antes de mim!  coisa minha... Entendeu?
E vou botar-lhe o nome de sua filha!...
Quando ouvi aquilo, fiquei to passado, que no
pude engolir o cuspo da boca...
Vejam s... o nome de Nocncia numa bicharada!.
At parece mangao... Agora,
quero saber do doutor o que devo fazer... Venho
pelo menos desabafar... No
posso meter uma bala naquele patife como bem
merecia... mas tambm e demais
t-lo em casa...  demais! Peo-lhe um conselho...
Felizmente, sempre o trago
arredado de casa, e a menina de nada desconfia; do
contrrio como mulher que ,
havra de me dar que fazer... Tambm no sei por
que  que o Maneco no
chega... s ele  quem havia de me livrar destes
apuros... Uma vez que o tal
alamo visse a rapariga com o noivo, deixava-a
sossegada... No acha? Olhe,
palavra de honra, isto ansim no  viver! Fui feito
para dizer o que penso,
tratar bem a todos. .. mas estes modos que tenho
agora, s Deus sabe quanto me
custam... At o meu servio vai sofrendo, porque
muitas vezes largo a roga e
ponho-me a correr atrs dos bichinhos, s para no
deixar de olho o tal marreco,
em lugar de feitorar o trabalho dos negros... O meu
fazendeiro  um diabo ruim e
j velho... Ah! meu irmo, que carga voc me ps
em cima das costas! Eu ento,
que no nasci para esconder o que sinto c
dentro!...
E Pereira, de to atribulado que trazia o esprito
deixou-se cair num cmoro de terra.
Cirino, defronte dele, ficara de p e pensativo.
Afinal, depois de breve dvida, decidiu tentar
fortuna e encetar a grave questo
que lhe importava a felicidade.
.Sr. Pereira, disse bastante comovido, acho que o
alemo faz mal em andar
batendo lngua em pessoa da sua famlia e dou
razo s suas inquietaes...
.Ah! vosmec  homem de confiana.
.Mas, continuou o moo a custo e parando em cada
palavra, penso que num ponto
tem ele alguma razo...  quando... lhe deu...
conselho... que o senhor no
casasse sua filha... assim... sem perguntar a ela...
se... enfim no sei... mas
talvez o Maneco lhe no agrade...
Ergueu-se Pereira de um pulo e, aproximando a
face, repentinamente incendida de
clera, junto ao rosto de Cirino:
.O qu? exclamou com voz de trovo, eu...
consultar minha filha? Pedir-lhe
licena... para cas-la?... O senhor est doido?...
Ou est mangando comigo...
Ai... que tambm...
E vago lampejo de desconfiana lhe iluminou a
chamejante pupila.
Compreendeu logo Cirino a perigosa situao e,
sem demora, tratou de desfazer a
m impresso que produzira.
.Ah! disse com fingido riso,  verdade... Isto so
costumes da cidade... aqui,
no serto, h outros modos de pensar... Desculpeme,
Sr. Pereira, este Meyer 
que est a contundir-me todas as idias. Pois eu
julgo... j que pede a minha
opinio, que o senhor deve continuar a ter olho no
estrangeiro... e eu hei de
ajud-lo, quanto estiver nas minhas foras.
.Tambm agora, disse o mineiro depois de ligeira
pausa, no h de ser por muito
tempo... H mais de um ms que ele aqui pra e j
me... contou que breve segue
viagem para Camapu....Desenganou-se afinal... O
tal meco no chegar ate l...
mas  o mesmo. Um destes dias, leva por ai algum
tiro para lhe botar juzo na
cachola, ou alguma facada que lhe ponha as tripas
a mostra... Nem sempre h de
ter cartas de irmo para sair-se bem da rascada... O
diabo o leve para longe!...
Voltemos, Sr. Cirino... J demais temos deixado o
bicharoco sozinho,
E encaminhou-se para a vivenda, acompanhado de
Cirino. Ia este desalentado; na
realidade, bem rentes lhe ficavam cortadas as
esperanas que o haviam animado na
tentativa de oposio ao projetado casamento da
amada com o terrvel e fatal
Maneco.
Ainda a meio do caminho, voltou-se Pereira e disselhe
peremptoriamente:
.Deveras, Sr. Cirino, aquelas suas palavras me
buliram com o sangue todo...
Ainda o sinto galopar nas veias... Que idias
estrdias!... Que lembrana! Ah...
a tal vida das cidades... cruzes!
XXI.PAPILIO INNOCENTIA
Considerai a arte da composio
das asas da borboleta: a
regularidade da escamas, cobrindoas
como se fosse penas;
a variedade das cambiantes cores:
a tromba enrolada, com
que suga o alimento no seio das
flores : as antenas,
rgos delicados do tato, que lhe
coroam a cabea, cercada
de uma rede admirvel de mais de
mil e duzentos olhos...
Bernadin de Saint-Pierre, Harmonias da Natureza
Meyer, que estava sentado na soleira da porta com
as compridas pernas
encolhidas, ergueu-se precipitadamente ao avistar
Cirino e correu ao seu
encontro.
Trazia o corao no rosto, um corao cheio de
alegria e triunfo.
.Oh! Sr. doutor, exclamou. todo risonho, venha,
venha ver uma preciosidade. ..
uma descoberta. .. espcie nova. :. no h em
parte alguma... Ouviu? Coisa assim
vale um tesouro... E fui eu que o descobri!... Nem
sequer Juque me ajudou...
pois estava deitado e dormindo... No  verdade,
Sr. Pereira?
.Veja, murmurava o mineiro, que barulhada faz ele
com o tal aniceto... Ao
menos, se fosse um animal grande!
.E uma espcie... nova... completamente nova!
Mas j tem nome... Batizei-a
logo... Vou-lhe mostrar... Espere um instante...
E, entrando na sara, voltou sem demora com uma
caixinha quadrada de
folha-de-flandres, que trazia com toda a reverencia
e cujo tampo abriu
cuidadosamente.
Da prpria garganta saiu um grito de admirao,
que Cirino acompanhou, embora
com menos entusiasmo.
Pregada em larga tbua de pita, via-se formosa e
grande borboleta, com asas meio
abertas, como que disposta a tomar vo.
Eram essas asas de maravilhoso colorido; as
superiores, do branco mais puro e
luzidio; as de baixo, de um azul metlico de brilho
vivssimo.
Dir-se-ia a combinao aprimorada dos dois mais
belos lepidpteros das matas
virgens do Rio de Janeiro, Laertes e Adnis, estes,
azuis como cerleo cantinho
do cu, aqueles, alvinitentes como ptalas de
magnlia recm-desabrochada.
Era sem contestao lindssimo espcime,
verdadeiro capricho da esplndida
natureza daqueles paramos. Tambm Meyer no
tinha mo em si de contente.
.Este inseto, prelecionou ele como se o ouvissem
dois profissionais na matria,
pertence  falange das Helicnicas. Denominei-a
logo, Papilio Innocentia, em
honra  filha do Sr. Pereira, de quem tenho recebido
to bom tratamento. Tributo
todo o respeito ao grande sbio Linneu .e Meyer
levou a mo ao chpeu.mas mas
a sua classificao j est um pouco velha. A classe
e, pois, Diurna; a falange,
Helicnia; o gnero Papilio e a espcie, Innocentia,
espcie minha e cuja glria
ningum mais me pode tirar... Daqui vou, hoje
mesmo, oficiar ao secretrio
perptuo da Sociedade Entomolgica de
Magdeburgo, participando-lhe fato to
importante para mim e para a sbia Germnia.
Dizia Meyer tudo isto com legtima ufania e lentido
dogmtica.
Depois, com mais volubilidade, e apesar de tropear
amiudadas vezes em palavras,
o que, para comodidade dos leitores, temos quase
sempre deixado de indicar,
continuou:
.Reparem, meus senhores, neste lepidptero com
os olhos cuidadosos da cincia.
Tem quatro ps caminhantes: as antenas de
terminao comprida e oval, cavada em
forma de colher; os palpares maiores do que a
cabea e escamosos; tromba toda
branca e lbio quase nulo. No perdi nem sequer
um pouco do seu p, porque o p,
um s gro de p, vale tanto como uma pena de
pssaro, e a comparao 
perfeita, visto como cada uma destas escamas, 
semelhana das penas, 
atravessada por uma traquia, por onde circula o ar.
Oh! que achado! prosseguiu
ele. Que triunfo para mim! A Sociedade
Entomolgica de Magdeburgo h de ficar
muito orgulhosa... Sem dvida alguma faro uma
sesso solene, extraordinria.
Mein Gott!... Estou que no posso de alegria...
Tambm, daqui a trs ou quatro
dias, vou-me embora desta casa... ainda que cheio
de saudades. . .
Deveras? atalhou Pereira, vai partir?
.Sim, senhor. O meu itinerrio  para Camapu;
depois. vou a Miranda e talvez
Niac... Hei de subir at ao Coxim e ai, ou embarco
para Cuiab no Rio Taquari,
ou sigo por terra pelo Pequiri.
.E o senhor volta para sua ptria?
.Boa dvida!... Daqui a ano e meio, pretendo
apresentar a minha coleo toda
arranjada  Sociedade Entomolgica...
.Homem, observou Pereira com inteno que seu
hspede no podia nem de leve
perceber, eu quisera j estar nesse dia. Daqui a ano
e meio, que voltas ter
dado o mundo?...
.Ter percorrido, respondeu Meyer gravemente,
dezoito signos do Zodaco
.Pois bem, eu queria ver isso... J me tarda esse
dia.
.Quando ele chegar, continuou o alemo com
sinceridade e um tanto comovido, hei
de lembrar-me com gratido do tratamento que
recebi... nos sertes do Imprio...
e hei de dizer... bem alto... que os brasileiros:.. so
felizes porque so
morigerados e tm muito boa ndole hospitaleiros
como ningum.
.Acrescente, interrompeu Pereira com algum
azedume, que zelam com todo o
cuidado a honra de suas famlias.
Obedeceu docilmente Meyer e repetiu palavra por
palavra.
.E zelam com todo o cuidado a honra de suas
famlias.
.Multo bem, replicou o mineiro, diga isso, e o Sr.
ter dito uma verdade.
XXII . MEYER PARTE
Adeus, pois amigos bela companhia!
Aos lares distantes
cada qual de ns, por caminhos
diversos, deve um dia
chegar.
Catulo, Epigrama XLVI
No haviam descontinuado as visitas feitas a Cirino
por enfermos de muitas
lguas em torno. To freqentes e teimosos eram
os casos de sezes ou maleitas
que a poro de sulfato de quinina que trouxera em
suas canastras estava toda
esgotada, pelo que se vira levado a substituir esse
medicamento sem tanta
confiana, porm, por plantas verdes do campo ou
ervas secas, fornecidas por uns
bolivianos que encontrara em Minas, vindos de
Santa Cruz de ia Sierra em
peregrinaro pelo interior do Brasil e a tratarem de
doentes, sem Chernoviz em
punho, nem aqueles resqucios de conhecimentos
teraputicos que ostentava o
nosso doutor.
Entre os enfermos que o vinham diariamente
procurar, alguns acusavam molstias
cujas qualificaes eram complicadas e
estrambticas; assim declaravam-se
salteados de engasgue, espinhela cada, mal de
encalhe, tosse de cachorro,
feridas brabas, almorreimas, eripelas, at
assombrao e mau-olhado.
Quem se queixava de engasgues era o capataz de
uma fazenda minada do Vau,
distante umas boas cinqenta lguas.
.Sr. doutor, disse c enfermo, a minha vida  um
continuo lidar de sofrimentos.
Estou com este mal vai fazer cinco anos no So
Joo por sinal que me veio com
uma grande dor na boca do estmbago. Vezes h
que no posso engolir nada, sem
beber muitos galos de gua, de maneira que me
encharco todo e fico que mal me
mexo de um lugar para outro.
.E a dor, perguntou Cirino, ainda a sente?
. Toda a vida, respondeu o capataz... O que me
aflege mais  que h comidas
ento que no me passam a goela...  um fastio
dos meus pecados... Boto uns
pedacinhos no bucho e parece-me que dentro tenho
um bolo que me est a subir e
descer pela garganta...
Receitou o mdico umas doses de erva-demarinheiro
como emtico, e fez mais
algumas prescries que o enfermo ouviu com toda
a religiosidade.
No estado de perturbao moral em que se achava
o jovem facultativo, natural e
que fosse uma coisa por outra; mais importante
porm, era a f que suas
indicaes incutiam a f, essa alavanca poderosa da
medicina, esse contingente
precioso que o esprito ministra aos ingentes
esforos da natureza na sua
constante lota contra os princpios mrbidos.
O doente de espinhela cada acusava um peso
muito forte e perene no peito e a
impossibilidade de levantar as mos juntas a
mesma altura.
Prescreveu-lhe Cirino amargo do campo, genciana e
quina, e ordenou-lhe certas
cautelas firmadas na voz geral, mas com. algum
fundo de razo; verbi c rata.
engolir sempre a saliva e sobretudo deixar de fumar
depois de comer.
O infeliz moo, ao passo que tratava de curar os
outros, mais que ningum
precisava de quem nele cuidasse, pelo menos da
alma.
Via no s Meyer fazendo os seus preparativos de
partida, e em vspera de
deix-lo a ss com Pereira, podendo este descobrir
afinal o engano em que havia
laborado, como tambm a clnica quase esgotada,
aconselhando-lhe a convenincia
de transportar-se para outro ponto e continuar a
interrompida jornada.
Tudo isto, e o amor a aumentar, a tirar-lhe todo o
sossego, a consumi-lo a fogo lento...
Meyer, na realidade, desde o achado da sua
magnfica borboleta. no pensava
seno em partir
.Oh! dizia ele, eu quisera estar j em
Magdeburgo... Quantas lguas, Mein
Gott!... Papilio Innocentia... a minha glria! Que
diz, Sr. Cirino?...
.E verdade... mas quem sabe se o senhor no
deveria ficar mais tempo aqui?...
Talvez achasse outra borboleta nova...
.No,  impossvel... Era felicidade demais... Alm
disso, o dinheiro no me
havia de chegar.
.Oh! posso emprestar-lhe....
.Muito obrigado... mas  de todo Impossvel a
minha estada aqui... Veja o
senhor: tenho ainda que ir a Camapu, a Miranda, a
Cuiab para ento voltar... E
s me restam poucos meses... A Sociedade
Entomolgica de Magdeburgo conta comigo
na primavera do ano que vem...
Metida uma vez essa idia na cabea, Meyer no
deixou mais de falar na sua
viagem um s instante e, para que a execuo
correspondesse ao prometido, mandou
na tarde seguinte, Jos Pinho, o camarada, alar
cargas s costas do burro,
depois de as ter, ele prprio, arranjado e revistado
com toda a cautela.
Julgou o carioca nesse momento dever lavrar um
protesto:
.Mochu, disse ele, vai recomear com o seu modo
de andar por essas estradas 
noite.. Afinal havemos todos de cair nalguma
buraqueira, eu, o senhor, o barro
de carga e os bichos; e no chegaremos, nem eu ao
Rio de Janeiro, nem eles e o
senhor  sua terra. Enfim, j estou cansado de o
avisar.
No momento da partida, apresentava o naturalista
aquele mesmo aspecto da clebre
noite da chegada; eram aquelas mesmas
frasqueiras a tiracolo, aquele mesmo ar
tranqilo e bonacho com que viera, fora de horas,
pedir pousada a casa de Pereira.
Este, ao ver o hspede a cavalo e prestes a deixar
para sempre a sua morada,
sentiu-se possudo de alegria, mesclada, sem saber
por que, com surpresa
repentina e intima, de tal ou qual comoo. No
fundo, achou de si para si as
desconfianas mal empregadas, e deixou-se levar
pela simpatia que em todos
incutia o carter naturalmente inofensivo e meigo
do saxnio.
.Chegou, declarou Meyer, a hora da minha
despedida.
E, sacudindo com fora a mo e o brao do mineiro:
.Sr. Pereira, meu amigo,
adeus!... nunca mais nos havemos de ver... mas hei
de lembrar-me do senhor toda
a vida... Quando eu estiver na minha ptria, daqui a
miihares e milhares de
lguas... pelo pensamento recordarei os dias
felizes... que aqui passei.
.Oh! Sr. Meyer, balbuciou Pereira.
.Sim, felizes, continuou Meyer com muita lentido,
felizes porque correram...
sem eu perceber que o tempo estava caminhando...
De todo o Brasil fica em mim a
lembrana... mas desta sua casa... essa lembrana
 mais viva e mais forte.
Acompanhara o alemo o seu pensamento com
acentuado gesto, acenando com o punho
fechado para mostrar a lealdade daquelas
impresses.
Voltando-se para Cirino, acrescentou:
.Sr. doutor, as suas receitas esto todas marcadas
no meu caderno... O senhor
pode enganar-se s vezes... mas as suas intenes
so sempre boas... e isso
basta para desculp-lo... Eu...
Interrompendo o que ia dizendo, ficou instantes a
olhar para Cirino e Pereira,
que estavam igualmente silenciosos, e uma lgrima
comprida deslizou-se-lhe pela
face, sem que a fisionomia mostrasse a menor
alterao.
.Adeus! concluiu ele de repente.
.Boa viagem, Sr. Meyer, boa viagem, disse Pereira
ajudando-o a montar a cavalo.
.Adeus! adeus... repetiu ele...
E interpelando o camarada:
.Juque, v na frente!... Toque pouco no burrinho...
Nosso pouso  daqui a meia
lgua...
Deu Meyer ento de rdeas e caminhou a passo,
logo aps de Jos Pinho, este
munido de cabeudo cacete, evidentemente hostil
as costas do cargueiro entregue
aos seus cuidados.
.L vai o homem, exclamou Pereira ao ver a
tropinha pelas costas. E um
alivio... Ele, coitado, no era mau... mas no tinha
modos... Safa, hei de me
lembrar para sempre do tal Sr. Meyer! Foi uma
campanha.. U... Olhe, Sr.
Cirino... no est ele de volta?... Teria esquecido
alguma bugigangas
Com efeito reaparecia a trote o alemo em carne e
osso, como quem vinha procurar
ou dizer coisa de importncia.
.Ento que tem? perguntou Pereira adiantando-se
e alando a voz. Deixou algum
trem? Daqui a pouco  escuro.
Meyer, no entanto, ia chegando e de certa distancia
entrou a explicar a raso da volta:
.No deixei coisa alguma, Sr. Pereira. To-somente
faltei a um dever.
.Qual ? indagou o mineiro.
.No me despedi de sua filha...
.Ah! replicou Pereira com vivacidade... no era
preciso... tanto mais que
ela... est dormindo... meio adoentado... H pouco
tinha muito peso na cabea...
Eu lhe hei de dizer... No se incomode . . .
.Pois ento, observou Meyer com muita gravidade,
diga-lhe que tem em mim um
criado, em toda a parte onde esteja... O seu nome
ficou para sempre na cincia e
a estima em que a tenho  grande... E uma moa
muito bela... digna de ser vista
na Europa... .Pois no, pois no, interrompeu
Pereira, v sem susto...
.Sim, eu me vou, adeus!
.V indo... olhe que o Sol dobra de repente aquele
mato e a noite cai logo...
.Sim, sim, adeus, disse ele despedindo-se de uma
vez.
E na estrada areenta,  luz do astro que
descambava, foi-se tornando comprida a
mais e mais a sombra do bom Meyer,  medida que
ele marchava atrs do seu
camarada, do cargueiro e da coleo entomolgica.
XXIII . A LTIMA ENTREVISTA
Est a mscara da noite sobre meu
rosto: a no ser ela,
verias as minhas faces tintas do
rubor virginal.
Shakespeare, Romeu e Julieta, Ato 11
Mais cresce a luz, mais aumentam
as trevas das nossas
desgraas.
Shakespeare, Romeu e Julieta,Ato IV
Grave modificao trouxe a retirada de Meyer no
sistema de viver daquela
vivenda, onde se agitava um dos problemas mais
comezinhos da natureza moral, mas
que ali apresentava cores algum tanto carregadas,
seno j sombrias.
Fora Pereira dormir no interior da casa, passando ali
a maior parte do tempo.
Assim os encontros dos dois apaixonados tornaramse
de todo impossveis, e, no
tendo mais a ateno do mineiro o alvo que sempre
colimara durante a estada do
alemo, comeava como era de prever, a voltar-se
para Cirino, a quem confessou
ter tratado Meyer com injusta preveno.
. Hoje, dizia o mineiro, di-me a conscincia do
modo por que desconfiei
daquele homem... Quem sabe se tudo que eu
parafusei no foi abuso c da
cachola? Sr. Cirino, quando a gente entra a dar volta
ao miolo..  que v que
todos tm queda para malucos... Sim senhor!...
Hoje estou convencido que o tal
alamo era bom e sincero... Olhou para a menina...
achou-a bonitinha... e disse
aquele despotismo de asneiras sem ver a mal... Em
pessoa que no guarda o que
pensa,  que os outros se podem fiar... s vezes o
perigo vem donde nunca se
esperou... Enfim no me arrependo muito de ter
feito o que fiz... Receei e tomei
tento...
Amiudando-se estes e outros dizeres iguais, deram
que refletir a Cirino. De uma
hora para outra compreendeu que as vistas
inquisitoriais poderiam tornar a sua
posio insustentvel.
Por enquanto tratou de encontrar-se com Inocncia.
Grandes eram as dificuldades;
o meio nico, tentar novamente as entrevistas
noturnas; pelo que do laranjal no
arredava p, noites e noites inteiras, ficando ali
com os olhos presos  janela
da querida do corao.
Certa madrugada, viu afinal a sombra de Inocncia.
Achou-se, num pice, o mancebo junto dela e
agarrou-lhe com violncia nas mos.
.Enfim, exclamou ele, eu a vejo.
.Meu pai, murmurou a moa com voz to fraca que
mal se ouvia, pode acordar...
. No importa, replicou Cirino desabrido, descubrase
tudo... no posso mais
viver assim,..
.Xi! observou ela, cuidado! Se ele nos acha aqui,
mata-nos logo... Olhe, v-me
esperar junto ao corguinho para l do laranjal...
daqui a nada vou ter com
mec... A porta esta s encostada . . .
O moo fez sinal que obedecia e sumiu-se
incontinenti na escurido do pomar.
Aquela hora dava a Lua de minguante alguma
claridade  terra; entretanto, como
que se pressentia outra luz a preparar-se no cu
para irradiar com sbito
esplendor e infundir animao e alegria  natureza
adormecida. Nos galhos das
laranjeiras, ouvia-se o pipilar de pssaros prestes a
despertar, um gorjeio
intimo e aveludado de ave que cochila; e ao longe
um sabia mais madrugador
desfiava melodias que o silncio harmoniosamente
repercutia. Riscava-se o
oriente de dbias linhas vermelhas, prenncio mal
percebvel da manh; nos
espaos pestanejavam as estrelas com brilho
bastante amortecido, ao passo que
fina e amarelada nvoa empalecia o tnue
segmento iluminado do argnteo astro.
No era mais noite; mas ainda no era sequer a
aurora.
To comovido se sentia Cirino, que teve de sentarse,
enquanto esperava por Inocncia.
Esta no tardou: vinha vestida de uma sala de
algodo grosseiro e,  cabea,
trazia uma grande manta da mesma fazenda, cujas
dobras as suas mos prendiam
junto ao corpo. Estava descala, e a firmeza com
que pisava o cho coberto de
seixinhos e gravetos, mostrava que o hbito lhe
havia endurecido a planta dos
ps, sem lhes alterar, contudo, a primitiva elegncia
e pequenez.
Parecia muito assustada, e, mau grado seu, dos
olhos lhe rolavam lgrimas a fio.
O mancebo, apenas a avistou, correu-lhe ao
encontro.
.Inocncia, exclamou ele notando um gesto de
dvida, nada receie de mim... Hei
de respeit-la, como se fora uma santa... No
confia ento em mim?...
.Sim! disse ela apressadamente. Por isso  que
vim at c... Entretanto, estou
com a cara ardendo... de vergonha...
E levando uma das mos de Cirino s suas faces:
.Veja, Cirino, como tenho o rosto em brasa...
Por que  que mec veio bulir comigo? Eu era uma
moa sossegada... agora, se
mec no gostasse mais de mim... eu morria...
. Deveras?
.Eu lhe juro... t: mais fcil apagarem-se de
repente estas estrelas todas, do
que eu deixar de am-la...
.E Maneco? perguntou ela com terror.
.Oh! esse homem, sempre esse nome maldito!...
.H de ser meu marido...
.Isso nunca, Inocncia...  impossvel!... E se
fugssemos?... Olhe, amanh a
estas mesmas horas ou mais cedo, trago para aqui
dois bons animais... Voc monta
num, eu noutro... batemos para Sant.Ana e, a
galope sempre, havemos de chegar a
Uberaba... onde acharemos um padre que nos
case... Vamos, ouviu?
.E mec havia de me estimar toda a vida?
.Sempre... Diga, sim... diga pelo amor de Deus, e
estamos salvos. . . diga!
. E meu pai, Cirino? Que havra de ser? .. Atiravame
a maldio... eu ficava
perdida... uma mulher de m vida... sem a bno
de meu pai... No... mec est
me tentanto... No quero fugir... Antes a desgraa
para toda a existncia... mas
fique eu sendo o que meu nome diz que sou... J
muito peco, fazendo o que fao..
Mec  moo da cidade; no lhe custa enganar uma
criatura como eu... At...
.Pois bem, interrompeu Cirino, voc no quer?...
no falemos mais nisso .. No
hei de querer, senso aquilo que achar bom... E se
eu, por fim, me decidir a
falar a seu pai?
.Deus nos livre! retorquiu ela aterrada. Pensei a
principio que pudera ser, mas
depois vi que era pior... Mec no conhece o que 
palavra de mineiro... ferro
quebra, ela no... Maneco? h de ser genro dele...
.Quem sabe, Inocncia? Hei de falar tanto... pedir
com tanta humildade.
.Ch, que esperana!... de nada serviria...
.Ento, que fazer? bradou o moo. A que Santa
agarrar-nos? Por que  que o cu
nos quer tanto mal?
E ocultando a cabea entre as mos, desatou a
chorar ruidosamente. Inocncia,
por seu lado, encostou a fronte ao ombro do
amante, e ambos, unidos, choraram
como duas crianas que eram.
Foi ela quem primeiro rompeu o silncio
.Ah! meu Deus, se o padrinho quisesse!...
. Seu padrinho? perguntou Cirino. Quem ?... quem
 ele?
.Um homem que mora para l das Parnabas, j
nos terrenos Gerais.
.Onde?...  longe?...
.Meio longe, meio perto. .. Mec no conhece o
Pauda ?
.Conheo... A 16 lguas do Rio Paranaba...
.Pois  a que padrinho pra... A esquerda da
fazenda do Pauda, numas terras de
sesmaria...
.E como se chama ele?
.Antnio Cesrio... Papai lhe deve favores de
dinheiro e faz tudo quanto ele
manda... Se dissesse uma palavra, Maneco?
havra de ficar atrapalhado...
.Oh! exclamou Cirino com confiana, estamos
salvos ento!,.. Amanh mesmo,
monto a cavalo e toco para l... Daqui  vila so
sete lguas... At l, umas
dezessete... f: um passeio... Chego... conto-lhe
tudo... ponho-me de rastos aos
seus ps... e...
.Mas, interrompeu Inocncia, no lhe fale em mim,
ouviu? No lhe diga que
tratou comigo... que comigo mapiou... Estava tudo
perdido... Invente umas
histrias... faa-se de rico... nem de leve deixe
assuntar que foi por meu juzo
que mec bateu  porta dele... Hi! com gente
desconfiada,  preciso saber
negacear ..
.Oh! meu Deus, disse Cirino no auge da alegria,
estamos salvos!... No h
dvida... Vejo agora como h de tudo acontecer...
Depois de um dia ou dois de
parada na casa, desembucho o negcio. O velho
escreve uma carta a seu pai e,
pelo menos, se no se arredar logo o Maneco? ..
ganha-se tempo... Eu j quisera
estar montado na minha besta tordilha queimada, a
bater a estrada por ai
afora... Dois dias para ir, dois para voltar, dois ou
trs de pousada... Com
pouco mais de uma semana, estou de volta,
trazendo ou a felicidade ou a caipora
de uma vez. No! Tenho f em Nossa Senhora da
Abadia... Ela nos ajudar... e
juntos havemos ainda de cumprir a promessa que j
fiz...
.Que permessa foi? perguntou Inocncia com
curiosidade.
.Irmos ns daqui at a vila a p, botar duas velas
bentas no altar de Nossa
Senhora.
.Sim, confirmou a moa com fogo, eu juro... Fosse
at ao fim do mundo! . . .
.Oh! minha santa do Paraso, exclamou o moo
apertando-a de encontro ao peito,
quanto voc me ama!!
E assim abraados, quedaram eles inconscientes,
enquanto a aurora vinha
clareando o firmamento e desferindo para a terra
raios indecisos como que a
sondarem a profundidade das trevas; enquanto os
pssaros chilreavam  surdina,
preparando as gargantas para o matutino concerto,
enquanto o orvalho subia da
terra ao cu molhando o dorso das folhas das
grandes rvores e suspendendo, s
das rasteiras plantinhas, gotas que cintilavam j
como diamantes.
Ao longe,  beira de algum rio, as aracus
levantavam a sonora grita, e o macau
atirava aos ares os pios prolongados da spera
garganta.
. dia, observou Inocncia desprendendo-se dos
braos de Cirino.
.J! exclamou este amuado.
.Meu Deus, e eu que tenho de ir at a casa... voume
embora...
.Ento, partirei hoje mesmo, disse o moo.
.Sim...
.E na semana que vem, estou de volta...
.Pois bem... Leve com mec esta certeza; a minha
vida ou a minha morte depende
do padrinho...
.A minha tambm, replicou o mancebo beijando
com fervor as mos de Inocncia...
.Deixe-me... deixe-me, implorou ela. Adeus, estou
com um medo!... Felizmente
ningum me viu...
Nesse momento e, como que para responder 
asseverao, de dentro do pomar
partiu aquele fino assobio que tanto assombrara os
amantes na primeira das suas
entrevistas.
Inocncia quase caiu por terra.
.Meu Deus! balbuciou ela, que agouro!... Quem
sabe se no  gente?
Ao assobio seguiu-se uma espcie de gargalhada,
que gelou o sangue nas veias dos
dois mseros.
Agarrou-se a menina a Cirino.
. alma do outro mundo, murmurou ela
persignando-se.
No perdera o mancebo o sangue frio. Invocando a
So Miguel, fez o sinal-da-cruz
na direo dos quatro pontos cardeais; depois
suspendeu a moa em seus braos e,
transpondo a toda a pressa o pomar, foi dep-la
junto  porta da casa, porta que
estava entreaberta, naturalmente pelo vento.
Quase desmaiara Inocncia entretanto, reunindo as
foras pde entrar, e
cautelosa correu o ferrolho interior.
Mais sossegado a esse respeito, voltou Cirino ao
laranjal e, como da primeira
vez, ps-se a percorr-lo em todos os sentidos,
indagando,  nascente claridade
do dia, se era ente humano ou fantasma quem dele
parecia fazer joguete.
No momento em que passava por junto de uma
laranjeira mais copada, viu de
repente certa massa informe cair-lhe quase na
cabea e no meio de folhas e ramos
quebrados vir ao cho com surdo grito de angstia.
.Cruz! T.esconjuro! bradou o moo.
E, como uma viso, passou-lhe por perto uma
criaturinha, desaparecendo logo
entre os troncos das rvores.
Ali esteve Cirino com os cabelos eriados, os olhos
fixos, os braos hirtos de
terror, os lbios secos a tartamudear um exorcismo,
e as pernas a tremer.
Uma voz, a certa distancia, arrancou-o desse
espasmo.
Era Pereira; com a mo encostada a boca,
interpelava a um dos seus escravos.
.Faz fogo, Jos!... Se for alma do outro mundo ou
lobisomem, a bala no pega...
Se for gente, melhor.
E um tiro troou.
Sibilou uma bala aos ouvidos de Cirino, indo cravarse
numa rvore prxima.
Por outra, no esperou ele. Com o favor da
escurido que ainda reinava, deslizou
rpido e foi buscar a frente da casa, quando j iam
acordando os camaradas.
Mal chegara a sala, apareceu-lhe Pereira  porta.
.Que foi isso? perguntou Cirino compondo a
fisionomia.
.L sei, respondeu o mineiro. Uma matinada de
gritos no laranjal, que parecia
um inferno... A pequena ficou toda que parecia
querer morrer de medo. Desconfio
que a alma do Coletor andou hoje me rondando a
casa... No seja pressgio de
mal... A Senhora Sant.Ana nos proteja.
.Pois eu c dormi como um chumbo, disse Cirino;
acordei com um tiro...
.No h de poder enfiar outra soneca daqui a um
nadinha, est o sol batendo no
terreiro.
Com efeito, depressa caminhava o alvorecer, e
debaixo daquelas vivas impresses
acordaram aqueles que haviam conciliado o sono,
na morada de Pereira.
XXIV.A VILA DE SANT.ANA
Debaixo do cu h uma coisa que
nunca se viu:  uma cidade
pequena sem falatrios, mentiras e
bisbilhotices.
Lavergne
Nesse mesmo dia, montou Cirino a cavalo e
despediu-se de Pereira por uma semana
ou pouco mais, dando por motivo de to inesperada
viagem, no s a necessidade
de visitar alguns doentes mais afastados, seno
tambm procurar, quer na vila,
quer mesmo nos campos da provncia de Minas
Gerais, uns remdios e smplices que
lhe iam faltando.
.Daqui a um terno de dias estarei de volta, disse
ao partir.
Desde a casa de Pereira at ao Albino Lata  to
ensombrada e agradvel a
estrada, que essas trs lguas lhe foram muito
fceis de vencer.
Ali, porm, comeam campos dobrados e soalheiros
que, num estiro de quatro
lguas, at a Vila de Sant.Ana tornam penosa a
viagem, sobretudo quando so
percorridos sob os ardentes raios do sol do meiodia.
Exaltam-se e irritam-se os incmodos do espritos,
no momento em que o fsico
comea a sofrer.
Quando Cirino passou por aquelas campinas
desabrigadas, abrasado de calor,
desanimou completamente do xito da empresa a
que se atirara. Tanta esperana o
alvoroara quando ia seguindo a vereda encoberta e
amena, quanto desalento
sentia agora; e, descorooado, deixava que o
animal o fosse levando a passo
vagaroso e como que identificado com a disposio
de animo do cavaleiro.
.Que vou eu fazer? pensava quase alto... Como
encetar aquela conversa?
Tamanha era a duvida que o salteava que chegou
quase a blasfemar contra a amada
do seu corao.
.Maldita a hora em que vi aquela mulher... Seguia
eu sossegado o meu rumo...
botaram-me a perder os seus olhos!... Depois,
exclamou contrito:
.Perdo, Inocncia! perdo, meu anjo! Estou a
amaldioar a hora da minha
felicidade... Eu, que sou homem, posso fugir...
deixar-te... mas tu, amarrada 
casa... Infeliz, fui o culpado!...
E, engolfado em dolorosa cogitao, alcanou a Vila
de Sant.Ana do Paranaba.
De longe  sumamente pitoresco o primeiro aspecto
da povoao.
Ponto terminal do serto de Mato Grosso, assenta
no abaulado dorso de um
outeirozinho. O que lhe d, porm, encanto
particular para quem a v de fora, 
o extenso laranjal, coroado anualmente de milhares
de ureos pomos, em cuja
folhagem verde-escura se encravam as casas e
ressalta a cruz da modesta igreja matriz.
Transpondo lmpido regato e vencida pedregosa
ladeira com casinholas de sap 
direita e  esquerda, chega-se  rua principal, que
tem por mais grandioso
edifcio espaosa casa de sobrado, de construo
antiquada. Ornamenta-a uma
varanda de ferro e um telhado que se adianta para
a rua, como a querer abrig-la
em sua totalidade dos ardores do sol.
 a que mora o Major Martinho de Melo Taques,
baixote, rechonchudo, corado.
Na sua loja de fazendas, ao rs-do-cho, rene-se
a melhor gente da localidade,
para ouvi-lo dissertar sobre poltica, ou narrar a
guerra dos farrapos no Rio
Grande do Sul e a vida que se leva na corte do Rio
de Janeiro, onde estivera
pelos anos de 1838 a 1839.
De vez em quando, naquela silenciosa rua em que
to bem se estampa o tipo
melanclico de uma povoao acanhada e em
decadncia, aparece uma ou outra tropa
carregada, que levanta nuvens de p vermelho e
atrai s janelas rostos
macilentos de mulheres, ou a porta crianas plidas
das febres do Rio Paranaba
e barrigudas de comerem terra.
Tambm aos domingos,  hora da missa, por ali
cruzam mulheres velhas,
embrulhadas em mantilhas, acompanhando outras
mais mocinhas, que trajam capote
comprido at aos ps e usam daqueles pentes
andaluzes, de moda em tempos que j
vo longe.
Atravessou Cirino a vila, e passando por defronte do
Sr. Taques saudou-o com a
mo, e sem parar.
Estava o major, como de costume, sentado ao
balco, de chinelos, sem meias, e
rodeado das pessoas gradas do lugar, a contar no
s as prprias proezas, que
muitas tinha aquele estimvel cidado, seno
tambm as faanhas dos antigos
sertanejos, histrias que sabia na ponta da lngua.
.L vai o doutor, disse um dos presentes a
palestra da loja.
.O Sr. Cirino! interpelou o major correndo para a
porta. Ento que  isso? Por aqui?
. verdade, respondeu Cirino, e vou de passagem;
tambm por pouco tempo: talvez
nesses oito ou dez dias esteja de volta.
Tudo quanto enchia a salinha havia sado para a
rua, de modo que o moo ficou
logo cercado. Recostavam-se uns quase  anca do
animal; afagavam-lhe outros a p
do pescoo ou brincavam com o freio.
Achava-se a curiosidade aguada: era preciso darlhe
pasto.
Compreendeu o major o alcance da situao.
.Cada qual tem os seus negcios particulares,
disse logo para comear; mas, se
no h segredo que quer dizer esta sua volta?
.J devia estar bem longe de ac, observou um
sujeito. H quase dois meses que
parou aqui na cidade e...
Espere, interrompeu o vigrio, no h tal dois
meses. O doutor passou por esta
rua h um ms e vinte dois dias, s oito horas da
manh.
.Pois bem, continuou o major, tinha tempo. de
sobra para estar j por bandas de Miranda...
.Isso, se fosse escoteiro, replicou Cirino, reparem
que levava cargas... e,
demais, viajava curando...
. verdade! confirmou o coletor (homem esguio,
que trazia um chapu muito alto
e afunilado), no pensam nisso. O que querem 
falar... falar...
.Creio que o senhor no atira a mim, observou o
vigrio com ar rusguento.
.Quem em tal cuida, senhor padre? protestou logo
o outro. Estou dizendo em
geral... Em geral. Eu no...
.Mas, doutor, atalhou o major, onde esteve o
senhor de molho este tempo
todo?... nalguma fazenda?
Prometia ir longe o interrogatrio.
.Eu j estava quase perto do Sucuri, disse Cirino
meio perturbado, no...
.No  to perto assim, objetou o vigrio. Uma
vez...
.Ouamos, senhor padre, atalhou o coletor
denunciando rixa velha com o clrigo.
O moo no disse que seja perto daqui...
Repetiu o major as palavras de Cirino, acentuandoas
de certo modo:
.Ento o doutor j estava quase perto do Sucuri,
no ?
.De fato. Ali encontrei uma pessoa que me devia,
h meses um dinheiro...
.Um dinheiro? perguntou o vigrio. Uma pessoa?...
Que pessoa? Quem ser?
.Homem, quem poder ser? indagaram a um tempo
vozes sfregas.
Prosseguiu o major implacvel:
.Deixem o doutor explicar-se... Vocs fazem logo
uma algazarra! . .
Foi quase a balbuciar que Cirino procurou continuar:
.Sim... certo tropeiro... mandou ordem para mim
cobrar... de um parente uma
bolada... Tambm eu tinha que... pagar outra
pessoa... que...
.Espere, espere, interrompeu o major, ento o
senhor velo receber dinheiro ou
desembolsar? No  uma e a mesma coisa...
.Por certo, apoiaram os circunstantes.
Cirino fez repentina parada nas suas explicaes.
.Tambm, disse com alguma volubilidade, muito
breve estarei voltando c. Tenho
de ir para l do rio...
.Vai at as Melancias? Indagou o coletor ajeitando
o nome de um pouso para ver
se acertava.
.Mais adiante, respondeu o moo. E vendo a
impossibilidade de escapar de to
terrvel inquirio, mudou de ttica.
.Na volta, disse ele dirigindo ao major, hei de lhe
comprar algumas fazendas...
.J adivinhei, exclamou o vigrio cortando a
palavra a Cirino, o doutor vai
casar.
.Ora, chasquearam alguns, para que tanto
segredo?... Ningum lhe vai roubar a
noiva!...
.Sobretudo quando as coisas tm de me vir parar
s mos, ponderou o padre.
Por instante, deram o acanhamento e o silncio de
Cirino azo a muitas
observaes.
.Parabns! dizia um.
.Quem  essa feliz sertaneja? perguntaram outros.
.Juro-lhes, meus senhores, protestou o moo, no
h nada...
Prosseguiu o padre:
.Pois, se quer um conselho, apresse isso; de uma
cajadada matarei dois
coelhos... E o senhor e o Maneco.
.Na verdade, concordaram os presentes.
.Mas, onde se meteu ele? perguntou um deles.
.H pouco estava aqui...
.Quem? o Maneco?
.Sim...
.Ali vem ele! anunciou algum
No fim da rua, aparecia, com efeito, um homem
montado em fogoso cavalo que
sofreava com firmeza e mo adestrada.
Era a personificao do capataz de tropa.
Cabelos compridos e emaranhados, ar selvticos e
sobranceiro tez queimada e
vigorosa musculatura constituam um tipo que
atraia de pronto a ateno.
Metidos os ps numa espcie de polainas de couro
cru de veado, grandes chinelas
de ferro, leno vermelho atado ao pescoo,
garruchas nos coldres da sela e
chicote de cabo de osso em punho, tudo indicava o
tropeiro no exerccios da sua lida.
.Nosso Senhor... convosco, disse ao chegar,
erguendo ligeiramente a aba do
chapu com a ponta do dedo indicador.
.Bons dias, Sr. Maneco? respondeu por todos o
major, ou melhor, boas tardes...
J sei que desta feita vai de batida..
.Boa dvida, grazinou o vigrio, vai ver a
pequerrucha.
Sorriu-se o capataz com melancolia:
.No  por isso Sr. vigrio. No me deixo
anarquizar por mulheres; mas, enfim a
gente deve um dia deitar a poita... A vida  uma
viagem...
Haviam Cirino e Maneco? ficado no meio dos
curiosos.
Fitaram-se: um, indiferente e altivo no modo de
encarar; outro, descorado meio
trmulo
.Este cujo  o cirurgio? Perguntou  meia voz
Maneco? adernando no selim para
o lado do coletor. A Cula da venda me disse que
tinha chegado... Tem-me cara de
enjoado.
.Xi! retrucou o outro, mas tem cabea. Por a fez
um despotismo de curas.
Cirino, notando que tratavam dele, cumprimentou
com um sorriso de amabilidade
.Boa tarde, patrcio.
.Ora viva, correspondeu o tropeiro em tom spero.
E, olhando para o Sol, acrescentou:
.Vejam l o que  um homem estar como mulher...
a bater lngua... A tarde vem
descendo, e muito tenho hoje que palmear... Minha
gente, adeus... Sr. major, at
mais ver... Sr. vigrio, breve estou por c...
Esporeou o animal o circulo abriu-se, e Maneco?
partiu em boa marcha.
Aproveitando, por seu turno, aquela sada rpida,
que rompera a cadela dos que o
rodeavam, apertou Cirino a mo do major e tomou
rumo do Rio Paranaba em cuja
margem contava passar a noite.
Mal desaparecera, e choveram comentrios que nem
saraiva.
.Notou o senhor, disse o vigrio para o major,
como esta mudado? .. todo
jururu...
.Nem tanto, contrariou o coletor, nem tanto...
O Sr. Taques, major e juiz de paz, tomou ar de
profunda meditao.
.Ho de os senhores ver, disse por fim levantando
um dedo para o ar, que ai h
dente de coelho.
Durante aquela noite e muitos dias subsequentes,
repetiu a vila todas estas
clebres palavras.
.Foi o major quem o disse, asseveravam convictos,
ali h dente de coelho.
XXV.A VIAGEM
s vezes sinto necessidade de
morrer, como pessoas
acordadas sentem necessidade de
dormir.
Mme Du Deffand
Encantador pas! Teu aspecto, teus
solitrios bosques ar
puro e balsmico, tem o poder de
dissipar toda a sorte de
tristezas, menos a da perda da
esperana.
Carlota Smith
Cirino em pouco mais de uma hora, transps a
distancia da povoao ao rio.
Tambm, na lgua e quarto que ate l media s h
de ruim o trecho em que fica a
floresta que borda as margens da majestosa
corrente.
Nessa mata, trazem os troncos das rvores vestgio
das grandes enchentes; o
terreno  lodacento e enatado; centro de putrefao
vegetal donde irradiam os
miasmas que, por ocasio da retirada das guas, se
formam em dias de calor
abrasador e sufocante.
Abundam ali coqueiros de estpite curto e folhuda
coroa chamados aucuris, a que
rodeiam numerosas lagoinhas de gua empoada e
coberta de limo.
Em nada , pois, aprazvel o aspecto, e a lembrana
de que ali imperam as
temidas sezes faz que todo o viajante apresse a
travessia de to tristonhas paragens.
Ouve-se a curta distancia o rudo do rio que corre
largo, claro e com rapidez.
Como duas verdes orlas refletem-se no espelhado
da superfcie as elevadas
margens, a cujo sop moitas de sarandis, curvadas
pelo esforo das guas e num
balancear continuo, produzem doce marulho.
Causa-nos involuntrio cismar a contemplao de
grande massa liquida a rolar, a
rolar mansamente, tangida por fora oculta.
Bem como a ondulao incessante e montona do
oceano agita a alma, assim tambm
aquele perpassar perene, quase silencioso, de uma
corrente caudal,
insensivelmente nos leva a meditar.
E quando o homem medita, torna-se triste.
Franca e espontnea  a alegria, como todo o fato
repentino da natureza. A
tristeza  uma vaga aspirao metafsica uma
elao inquieta e quase dolorosa
acima da contingncia material.
Ningum se prepara para ficar alegre. A melancolia,
pelo contrrio, aos poucos 
que chega como efeito de fenmenos psicolgicos a
encadear-se uns nos outros.
De que modo nasceu aquela enorme mole de gua?
Donde velo? Para onde vai? Que
mistrios encerra em seu seio?
Largo tempo ficou Cirino a olhar para o rio. Em sua
mente tumultuavam negros
pensamentos.
J se havia difundido o crepsculo, e bandos
folgazes de quero-queros saudavam
os ltimos raios do Sol e despertavam os ecos em
descomunal gritaria. De vez em
quando, passava algum pato selvagem, batendo
pesadamente as asas; sobre as
guas, adejavam garas estirando e encolhendo o
nveo colo e pombas, aos centos,
cruzavam de margem a margem a buscar inquietas
o pouso de querncia.
Foi a luz gradativamente morrendo no cu, seguida
de perto pelas sombras; e o
rio tomou aspecto uniforme como se fora imensa
lmina de prata no brunida.
.Enfim, -conheci o Maneco? pensava Cirino. E
para esse  que reservam a minha
gentil Inocncia . . . Bonito homem para qualquer...
para mim, para ela,
horrendo monstro!... E como  forte ! . . .
Digamo-lo, sem por isso amesquinhar o nosso
heri, a Idia de fora no rival
acabrunhava-o..Se eu pudesse... esmagava-o!... E
que ar sombrio e
desconfiado!... Meu Deus, dai-me coragem... dai-me
esperanas... Nossa Senhora
da Abadia!... Nosso Senhor da Cana-Verde... vaieime!...
E o mancebo, diante daquela natureza
acabrunhadora a quem tanto Importava a
paixo que lhe atanazava-o peito, como o inseto a
chilrar debaixo da folha de
humilde erva, caiu de joelhos, orando com fervor
ou, melhor, desfiando
automaticamente as preces que sua me lhe havia,
em pequeno, ensinado.
E o rio l se ia sereno; e uma ona ao longe urrava,
ou algum pssaro da noite
soltava gritos de susto, esvoaando s tontas.
Transpondo na manh seguinte, o Rio Paranaba,
pisou Cirino territrio de Minas literais.
Depois de lgua e meia em mata semelhante  da
margem direita, abrem-se campos
dobrados, um tanto arestados do sol, de aspecto
pouco variado, mas
abundantssimos em perdizes e codornas. To
preocupado levava o moo o esprito
que, nem sequer uma s vez, imitou o pio daquelas
aves; distrao, a que alis
no se furta quem por l viaja, to Instantes os
motivos de instigao.
Foi com impacincia mais e mais crescente que
percorreu as dezesseis lguas
intermdias  fazenda do Pauda.
Ia com o corao cheio de apreenses e os olhos se
lhe arrasavam de lgrimas, de
cada vez que contemplava o melanclico buriti.
Ento pelo pensamento voava 
casa de Inocncia. Tambm, ali junto ao crrego em
cuja borda se dera a ltima
entrevista, se erguia uma daquelas palmeiras,
rainha dos sertes.
Que estaria fazendo a querida dos seus sonhos?
Que lhe aconteceria? E Maneco?! J teria l
chegado?
Ao pensar nisto, aumentava-se-lhe a agitao e
com vigor esporeava a
cavalgadura.
Transformava-se para ele o caminho em dolorosa
via, que numa vertiginosa
carreira quisera vencer mas que era preciso ir
tragando pouso a pouso, ponto a ponto.
A majestosa impassibilidade da natureza
exasperava-o.
Quando o homem sofre deveras, deseja nos raptos
do alucinado orgulho, ver tudo
derrocado pela fria dos temporais, em harmonia
com a tempestade que lhe vai no intimo.
.Meu Deus! murmurava Cirino, tudo quanto me
rodeia est to alegre e  to
belo! Com tanta leveza voam os pssaros: as flores
so to mimosas; os ribeires
to claros... tudo convida ao descanso... s eu a
padecer! Antes a morte... Quem
me dera arrancar do corao este peso! esta certeza
de uma desgraa imensa! Que
 afinal o amor?... Daqui a anos talvez nem me
lembre mais da pobre Inocncia...
Estarei me atormentando  toa... Oh no! Essa
menina  a minha vida!  o meu
sangue... o meu farol para os cus... Quem ma
rouba mata-me de uma vez. Venha a
morte... fique ela para chorar por mim... um dia
contar como um homem soube
amar! . . .
Levantara Cirino a voz. De repente, deu um grande
grito, como que o sufocava:
.Inocncia!... Inocncia!
E as sonoridades da solido, dceis a qualquer
rudo, repetiram aquele adorado
nome, como repetiam o uivo selvtico da
suuarana, a nota plangente do sabi ou
a martelada metlica da araponga.
Como tudo, afinal, tem termo, alcanou Cirino, no
quarto dia, a casa de Antnio
Cesrio. Acolheu-o este com toda a amabilidade e
franqueza.
XXVI.RECEPO CORDIAL
Assinalemos este dia entre os mais
felizes no se poupem
nforas; e, como Sbios, descanso
no demos aos nossos ps.
Horcio Ode XXVI
Em breve chegara Maneco  casa do futuro sogro.
No  grande a distancia de Sant.Ana at l, e
entretanto o animal brioso e
descansado que montava o tropeiro viera sempre
estimulado do frreo acicate.
Batia de impacincia o corao do capataz, e a
lembrana da formosa noiva que o
esperava, enchia-o de desconhecido alvoroo.
Tambm, por vezes, fugia-lhe do
rosto o toque habitual de severidade e tnue
sorriso afastando a custo os densos
bigodes lhe pairava nos lbios,
Acolheu-o Pereira com verdadeira exploso de
alegria.
.Viva! viva! exclamou de longe acenando com os
braos, seja bem-vindo neste
rancho... Ora, at que afinal!... Faltam rojes para
festejar a sua chegada...
Que demora!... Pensei que no topava mais com o
caminho da casa... Nocncia vai
pular de contente. . .
Enquanto o mineiro enfiava estas palavras quase
em gritos, apeou-se o sertanista
que, de chapu na mo, veio pedir-lhe a bno.
.Deus o faa um santo, disse Pereira abenoandoo
com fervor. Voc no queria
chegar...
.Como vai a dona? perguntou Maneco.
.Agora, muito bem. Teve sezes, mas j est de
todo boa...
.E lembrou-se de mim?
.Olhe, que enjoado... Pois se ele enfeitia a
gente... Eu mesmo s pensava em
voc... Quando estar por c aquele marreco? dizia
eu comigo mesmo:... e botava
uns olhos compridos por essa estrada afora...
quanto mais, mulher! Isto  um no
acabar nunca de saudades. Mas, observou ele,
estamos a bater lngua e no o fao
entrar... Agorinha mesmo, Nocncia foi para o
crrego... Desencilhe o pingo e
deixe-o por ai...
Fez Maneco o que disse Pereira. Tirou os arreios,
no de sbito, mas com
cautela e lentido para que o animal, encalmado
como estava, no ficasse airado,
deixou sobre o lombo a manta e, apanhando um
sabugo de milho, esfregou devagar a
anca e o pescoo.
Depois de dar termo aqueles cuidados, penetrou na
casa fazendo soar ruidosamente
as esporas, que pelas dimenses desproporcionadas
o obrigavam a caminhar firmado
nos dedos do p e com a planta levantada.
O mineiro no cabia em si de contente.
.Ento, est tudo arranjado? perguntou
alegremente.
.Tudo. Os papis j foram tirados... Tive que ir at
Uberaba, e foi o que me
atrasou... Quando mec queira... botamo-nos de
partida para a Senhora
Sant.Ana... Amanh c chegam os cavalos que
comprei... Est falado o Lata... o
vigrio avisado; s... falta o dia...
.Nestes casos, quanto mais depressa melhor...
No acha?
. Certo que sim...
.Ento, se quiser, daqui a dois domingos...
.Como queira . . Eu, c por mim. . . Bem sabe, isto
de casrios, o que custa
... tomar resoluo... depois... deve-se pegar na
carreira... A rapariga esta
pronta?...
.No sei... h de estar... Vejo-a sempre cosendo...
Quero ficar bem certo do
dia, porque mando chamar a gente do Roberto...
Afinal,  preciso matar a porcada
e mandar buscar restilo. Quando se casa uma filha
e... filha nica, as
algibeiras devem ficar veleiras. J esto todos
combinados...  s dar o
sinal... Tudo se arma logo... Aqui, em frente da
casa, faz-se um grande
rancho... A latada para a janta h de ser no oito
direito... J encomendei de
Sant.Ana alguns rojes, e o mestre Trabuco
prometeu-me uns que deitam lgrimas
.. Depois, tiros de bacamarte e ronqueiras ho de
troar . . .
.Eu, interrompeu Maneco, mandei com a sua
licena vir da cidade duas dzias de
garrafas de vinho da casa do major...
.Olar! Voc meteu-se em gastos!... Duas dzias
de garrafas de vinho?
.Nhor-sim...
.Pois essas, meu caro, ho de ser reguladinhas da
silva... Para o vigrio..
para o major... o coletor... o professor... Enfim,
gente de alguma
representao, porque com ela conto, sem falar na
arraia miada. Isto h de haver
um despotismo. Quero que, dez dias antes da
fononata venha a comadre do Ricardo
com o seu povaru para prepararem sequilhos,
tarecos, broas, biscoitos de
polvilho e brevidades. Haver regalo de chicolate
todas as manhs... Voc ver
que desta festa falaro... E o sapateado  noite?
Os descantes?... Talvez se
possa arranjar um cururu valente...
.Mas, perguntou Maneco, qu. de sua filha?
Riu-se Pereira.
.Magano! no pensa noutra coisa, hem? Tambm
fui ansim... cada qual tem o seu
tempo... Isto  regra de Nosso Senhor Jesus Cristo.
E, saindo para o terreiro, gritou com fora, fazendo
das mos buzina:
.Nocncia!... Nocncia!...
No teve resposta.
.Coitadinha da pequena, disse ele, h de saltar
que nem veadinha, quando voltar
do rio.
E acrescentou:
.J que ela no vem... entremos. Voc  de casa:
tome por c e chegue at o meu
quarto... Rede e peles macias no faltam.
Ao dizer estas palavras, Pereira bateu
amigavelmente no ombro de Maneco e f-lo
seguir para o lano do fundo da casa.
XXVII. CENAS NTIMAS
Santa Maria, advogada nossa, ouvi
nossos rogos. Virgem
pura, ante Vs se prostra uma
infeliz donzela.
Walter Scott, Os Dois Desposados
Descrever o abalo que sofreu Inocncia ao dar, cara
a cara com Maneco fora
impossvel Debuxaram-se-lhe to vivos na
fisionomia o espanto e o terror, que o
reparo, no s da parte do noivo, como do prprio
pai habitualmente to
despreocupado, foi repentino,
.Que tem voc? perguntou Pereira
apressadamente.
.Homem, a modos, observou Maneco com
tristeza, que meto medo a senhora dona...
Batiam de comoo os queixos da pobrezinha:
nervoso estremecimento
balanceava-lhe o corpo todo.
A ela se achegou o mineiro e pegou-lhe no brao.
.Mas voc no tem febre?... Que  isto, rapariga
de Deus?
Depois, meio risonho e voltando-se para Maneco:
.J sei o que ... Ficou toda fora de si... vendo o
que no contava ver...
Vamos, Nocncia, deixe-se de tolices.
.Eu quero, murmurou ela, voltar para o meu
quarto.
E encostando-se  parede, com passo vacilante se
encaminhou para dentro.
Ficara sombrio o capataz.
De sobrecenho carregado, recostara-,se  mesa e
fora, com a vista, seguindo
aquela a quem j chamava esposa.
Sentou-se defronte dele Pereira com ar de
admirao.
.E que tal? exclamou por fim... Ningum pode
contar com mulheres, iche!
Nada retorquiu o outro.
.Sua filha, indagou ele de repente com voz muito
arrastada e parando a cada
palavra, viu algum?
Descorou o mineiro e quase a balbuciar:
.No... isto , viu... mas todos os dias... ela v
gente... Por que me pergunta
isso?
.Por nada...
.No;... explique-se... Voc faz assim uma
pergunta que me deixa um pouco...
anarquizado. Este negcio  muito, muito srio.
Dei-lhe palavra de honra que
minha filha havra de ser sua mulher... a cidade j
sabe e... comigo no quero
histrias... t: o que lhe digo.
.Esta bom, replicou ele, nada de percipitaes.
Toda a vida fui ansim... J
volto; vou ver onde pra o meu cavalo.
E saiu, deixando Pereira entregue a encontradas
suposies.
Decorreram dias, sem que os dois tocassem mais
no assunto que lhes moa o
corao. Ambos, calmos na aparncia, viviam vida
comum, visitavam as plantaes,
comiam juntos, caavam e s se separavam  hora
de dormir, quando o mineiro ia
para dentro e Maneco para a sala dos hspedes.
Inocncia no aparecia.
Mal saia do quarto, pretextando recada de sezes:
entretanto, no era o seu
corpo o doente, no; a sua alma, sim, essa sofria
morte e paixo; e amargas
lgrimas, sobretudo  noite, lhe inundavam o rosto.
.Meus Deus, exclamava ela, que ser de mim?
Nossa Senhora da Guia me socorra.
Que pode uma infeliz rapariga dos sertes contra
tanta desgraa? Eu vivia to
sossegada neste retiro, amparada por meu pai...
que agora tanto medo me mete...
Deus do cu, piedade, piedade.
E de joelhos, diante de tosco oratrio alumiado por
esguias velas de cera, orava
com fervor, balbuciando as preces que costumava
recitar antes de se deitar.
Uma noite, disse ela:
.Quisera uma reza que me enchesse mais o
corao... que mais me aliviasse o
peso da agonia de hoje...
E, como levada de inspirao, prostrou-se
murmurando:
.Minha Nossa Senhora me da Virgem que nunca
pecou, ide adiante de Deus.
Pedi-lhe que tenha pena de mim... que no me
deixe assim nesta dor c de dentro
to cruel. Estendei a vossa mo sobre mim. Se 
crime amar a Cirino, mandai-me a
morte. Que culpa tenho eu do que me sucede?
Rezei tanto, para no gostar deste
homem! Tudo... tudo... foi intil! Por que ento este
suplcio de todos os
momentos? Nem sequer tem alivio no sono? Sempre
ele... ele!
As vezes, sentia Inocncia em si mpetos de
resistncia: era a natureza do pai
que acordava, natureza forte, teimosa.
.Hei de ir, dizia ento com olhos a chamejar, 
igreja, mas de rastos! No rosto
do padre gritarei: No, no!... Matem-me... mas eu
no quero...
Quando a lembrana de Cirino se lhe apresentava
mais viva, estorcia-se de
desespero. A paixo punha-lhe o peito em fogo...
.Que  isto, Santo Deus? Aquele homem me teria
botado um mau olhado? Cirino,
Cirino, volta, vem tomar-me... leva-me!... eu morro!
Sou tua, s tua... de mais
ningum.
E caia prostrada no leito, sacudida por arrepios
nervosos.
Um dia, entrou inesperadamente Pereira e achou-a
toda lacrimosa.
Vinha sereno, mas com ar decidido.
.Que tem voc, menina, perguntou ele, meio
terno, de alguns dias para c?
Inocncia encolheu-se toda como uma pombinha
que se sente agarrar.
Puxou-a brandamente o pai e f-la sentar no seu
colo.
.Vamos, que  isto, Nocncia? Por que se socou
assim no quarto?... Maneco l
fora a toda a hora est perguntando por voc... Isto
no bonito... , ou no, o
seu noivo?
Redobraram as lgrimas.
.Mulher no deve atirar-se a cara dos homens...
mas tambm  bom no se canhar
assim...  de enjoada... Um marido quase, como ele
j ...
De repente o pranto de Inocncia cessou.
Desvencilhou-se dos braos do pai e, de p diante
dele, encarou-o com resoluo:
.Papai. sabe por que tudo isto?
.Sim.
. porque eu... no devo...
.No devo o qu?
.Casar.
Arregalou Pereira os olhos e de espanto abriu a
boca.
.Que? perguntou ele elevando muito a voz...
Compreendeu a pobrezinha que a lata ia travar-se.
Era chegado o momento.
Revestiu-se de toda coragem.
.Sim, meu pai, este casamento no deve fazer-se..
.Voc est doida? observou Pereira com fingida
tranqilidade.
Prosseguiu ento Inocncia com muita rapidez, as
faces incendiadas de rubor:
.Conto-lhe tudo papai... No me queira mal... Foi
um sonho... O outro dia,
antes de Maneco chegar, estava sesteando e tive
um sonho... Neste sonho, ouviu,
papai? minha me vinha descendo do cu...
Coitada! estava to branca que metia
pena... Vinha bem limpa, com um vestido todo
azul... leve, leve!
.Sua me? balbuciou Pereira tomando de ligeiro
assombro.
.Nhor-sim, ela mesma...
.Mas voc no a conheceu! Morreu, quando voc
era pequetita... . .
.No faz nada, continuou Inocncia, logo vi que
era minha me... Olhava para
mim to amorosa!... Perguntou-me: Cad seu pai?
Respondi com medo: Esta na roga;
quer mec, que ele venha? . No, me disse ela,
no  perciso; diga-lhe a ele
que eu vim ate c, para no deixar Maneco casar
com voc, porque h de ser
infeliz... muito!... muito!...
.E depois? perguntou Pereira levantando a cabea
com ar sombrio, girando os
olhos.
.Depois... disse mais... Se esse homem casar com
voc, uma grande desgraa h
de entrar... nesta casa que foi minha e onde no
haver mais sossego. Bote seu
pai bem sentido nisso. E sem mais palavra, sumiuse
como uma luz que se apaga.
Cravou Pereira olhar inquiridor na filha.
Uma suspeita lhe atravessou o esprito.
.Que sinal tinha sua me no rosto?
Inocncia empalideceu.
Levando ambas as mos  cabea e prorrompendo
em ruidoso pranto, exclamou:
.No sei... eu estou mentindo... Isto tudo 
mentira! mentira! No vi minha
me!... Perdo, minha me, perdo!
E, caindo de bruos sobre a cama, ficou imvel com
os cabelos espargos pelas
espduas.
Contemplou-a Pereira largo tempo sem saber que
pensar, que dizer.
Sbito se inclinou sobre o corpo da filha e ao ouvido
lhe segredou com muita
energia:
.Nocncia, daqui a bocadinho Maneco chega da
roa... voc ha de ir para a
sala... se no fizer boa cara, eu a mato.
E erguendo a voz:
.Ouviu? Eu a mato!... Quero antes v-la morta,
estendida, do que... a casa de
um mineiro desonrada...
As pressas saiu do quarto, deixando Inocncia na
mesma posio.
.Pois bem, murmurou ela, j que  preciso... morra
eu!
XXVIII.EM CASA DE CESRIO
Ah! a perspectiva que pode mais
docemente sorrir ao meu
corao  a do aniquilamento.
Klopstock, A Messada
Cirino, logo que se estabeleceu em casa do seu
novo hospedeiro, tratou de lhe
captar as simpatias. Medicou um escravo que
estava de cama, fez valer o
conhecimento e amizade que tinha com
Pereira, conversou muito a respeito dele e
incidentemente deu noticias de
Inocncia.
Atalhou-o Antnio Cesrio neste ponto.
.Mec a viu? perguntou ele.
.Pois no, respondeu o moo, por sinal que a curei
de sezes.
.Ah!  uma guapa rapariga...
.Parece-me...
.Isso ... falo assim, porque afinal... daqui a
poucos dias est casada... no
sabe?
.Ouvi contar.
.Pois  verdade. O noivo passou por c e levou a
minha licena.  homem de
mo-cheia. A pequena deve estar contente. Ah!
nem todas no serto so felizes
assim. Tem-se por aqui o mau vezo de arranjar
casamentos as cegas, e s vezes se
encambulha um moceto com uma fanadinha ou
ento uma sujeita de encher o olho
com algum rapaz todo engrouvinhado. . . Cruz! E,
uma vez dada a palavra,
acabou-se...
Achou Cirino a ocasio prpria e redargiu com
vivacidade:
.Ento o senhor no  desse parecer.
. Conforme, respondeu logo Cesrio com reserva.
Aos pais  que convm inziminar
essas coisas.
.Boa dvida... Mas... se... sua afilhada... no
gostasse de Maneco?
.No gostasse?
.Sim.
.E que nos importa isso? Uma menina como ela
no sabe o que lhe fica bem ou
mal... Ningum a vai consultar. Mulheres, o que
querem  casar. No ouviu j o
patrcio dizer que elas no casam com carrapato,
porque no sabem qual  o
macho?
E Cesrio sorriu.
Depois, fechando de repente a cara, perguntou:
.Por que  que estamos a dar de lngua nesse
particular? No sou amigo disso.
Quer-me parecer que mec  um tanto namorador. .
.
.Eu? protestou Cirino com vivacidade.
.Boa dvida. Eu c nem falar nelas quero. Mulher 
para viver muito quietinha
perto do tear, tratar dos filhos e cri-los no temor
de Deus; no  nem para
parolar-se com ela, nem a respeito dela.
Sempre as mesmas teorias de Pereira: a mesma
grosseria repassada de desprezo ao
sexo fraco, a mesma suscetibilidade para desconfiar
de qualquer pessoa ou de
qualquer palavra que lhes parecesse menos bem
soante aos prevenidos ouvidos.
.Minha afilhada, continuou Cesrio, deve levantar
as mos para o cu. Achou um
marido que a h de fazer feliz e torn-la me de
uma boa dzia de filhos.
Estremeceu Cirino, mas nada disse.
Por toda a parte esbarrava de encontro a
preconceitos que nada podia vencer.
Nessa mesma tarde quis montar a cavalo e voltar
para Sant.Ana entretanto, o
pensamento da resistncia com que Inocncia
encetara a terrvel lata com seu
pai, atuou em seu esprito e o reteve.
Decidiu-se a atacar o touro pelas aspas.
Restar-lhe-ia ao menos o consolo do desabafo, e
num jogo perdido arriscava ainda
ousado lance.
.Sr. Cesrio, disse ele na manh seguinte, preciso
muito falar-lhe em
particular.
.A mim?
.Sim, senhor.
.Pois, estou aqui s suas ordens.
.Quisera que sassemos. O que lhe vou dizer...
ningum pode... ningum deve
ouvir.
.Oh! O senhor me assusta... Ento tem segredos
que me contar?
.Tenho...
.Pois v l... Mapiaremos fora... Ao meio-dia
esteja na minha roga... sabe onde
?
.Sei...
. Espere-me num pau de peroba seco que est
derrubado.
.L estarei.
Muito antes da hora aprazada, achava-se Cirino no
lugar indicado.
Devorava-o a impacincia.
Resolvido a desvendar sem rebuo os seus amores
a esse homem a quem mui
conhecia, que por ele no tinha seno razes de
passageira simpatia, e de quem,
contudo, estava dependente sua felicidade,
considerava decisivos os momentos.
Quem em tais circunstncias se acha, enxerga em
tudo quanto o rodela sintomas de
bom ou mau agouro, e nesse instante a Cirino
pouco parecia sorrir a natureza.
No chovia; mas o tempo estava carregado e
sombrio.
Tinha o cu cor acinzentada e do lado do poente
linhas negras e continuas
denunciavam trovoada talvez para a tarde.
Era o local, alm disso, tristonho. Enfileiravam-se
numa grande rea, ps de
milho j pendoados, dentre os quais surgiam
possantes madeiros de tronco rugoso
e galhada completamente despida de ramagem,
uns, da base  extrema ponta,
lugubremente enegrecidos pelo fogo lanado antes
da sementeira; outros perdidas
todas as folhas em conseqncia da inciso
profunda e circular com que o machado
impedira a ascenso da selva. Esses quedavam
vivos mas de uma vida latente e
esmorecida, denunciada por entanguidos brotos no
mais alto do tope.
Quando o dia  claro, aqueles gigantes da floresta,
que pela robustez do cerne
haviam desafiado as chamas e os esforos do
homem, servem de poleiro a inmeros
bandos de papagaios, periquitos, araaris, ou de
granas que formam concertos
capazes de ensurdecer os ecos.
Naquela ocasio, porm, tudo era silncio.
S de vez em quando se ouviam pancadas surdas e
intermitentes dos pica-paus de
crista vermelha, agarrados aos troncos das rvores
e a explorar-lhes os pontos
carunchosos, subindo em ziguezagues.
A hora ajustada, apresentou-se Antnio Cesrio.
Por cautela vinha armado de uma espingarda de
caa, que bem serviria para
derrubar alguma ona, ou animal daninho.
Seu rosto, habitualmente sereno, indicava certa
inquietao, repassada de
curiosidade.
.Aqui me tem, doutor, disse ele descansando a
arma sobre o pau derrubado e
sentando-se ao lado de Cirino. Estou pronto para
ouvi-lo quanto tempo queira...
Muito pensara Cirino nesse momento a que devia
chegar e, entretanto, no pudera
achar o modo por que encetasse as suas
declaraes. Parafusara de continuo mil
pretextos sem nada assentar
Foi, pois, a balbuciar que respondeu:
.0 Sr... h de me desculpar... o incmodo que... lhe
dou. .
.Incomodo nenhum.
.E deve estar... espantado do que lhe pedi... vir
falar comigo... em lugar
ermo... comigo que sou como qualquer hospede.
como tantos que sua casa to
franca todos os dias recebe
.Com efeito, confirmou Cesrio.
.Pois bem, daqui a nada tudo lhe ficar claro e
explicado . Se enquanto eu
falar... o ofender, perdoe-me, ouviu?
Sr. Cesrio, continuou Cirino aps breve pausa, se o
Sr. visse um homem
arrastado numa corredeira e pudesse atirar-lhe uma
corda e salv-lo... o faria?
.Boa dvida, replicou o outro com forca. Ainda que
corra perigo de vida, no
deixarei homem nenhum, branco ou preto, livre ou
escravo, rico ou pobre,
conhecido ou no, sem o socorro de meu brao.
.Pois bem, exclamou Cirino arrebatadamente, sou
eu esse homem que vai morrer,
que est perdido e a quem o Sr. pode salvar...
E respondendo  tcita suspeita de quem o ouvia:
.No acredite que esteja doido... no. Estou to
so de juzo como o Sr. e
falo-lhe a verdade. Uma palavra esclarece-lhe
tudo... eu morro de paixo por uma
mulher e essa mulher ... sua afiIhada! . . .
Inocncia!
De um pulo levantou-se Cesrio. Seus lbios
tremiam, os olhos de sbito
injetados de sangue. A mo procurou a arma que
lhe ficava ao lado.
.Que  isso? balbuciou encarando fixamente Cirino.
Adivinhara-lhe este todos os pensamentos.
Erguera-se tambm, cara a cara com Cesrio:
. Mate-me, bradou ele, mate-me... E um favor que
me faz.. D cabo desta vida
desgraada.
J arrependido do gesto que fizera e um tanto
corrido de sua precipitao,
replicou o outro todo sombrio:
.No tenho razes para mat-lo... O Sr. nunca me
fez mal...
.No, prosseguiu Cirino no meio desvairado, peolhe
por favor... Se o Sr. tem
caridade, e  bom, .se gosta de seus filhos, se tem
pai e me no cu... por tudo
isso eu lhe peo de joelhos! mate-me... mate-me!
E deixou-se cair aos ps de Cesrio, ocultando a
cabea entre as mos.
Contemplou-o largos instantes o mineiro com
surpresa.
Inclinando-se para o moo, bateu-lhe no ombro e
quase com brandura lhe disse:
. Que histria  essa, doutor?... Isso  loucura!
Conte-me que h... Quero
saber se a sua bola est girando ou no. Sou
homem do serto, mineiro de lei...
mas sei tratar com gente...
A estas palavras, recobrou Cirino algum alento e
ps-se de p.
Sentando-se ento ao lado de Cesrio, narrou-lhe
tudo, o desespero que o minava,
a certeza que tinha do amor de Inocncia e a
implacvel sentena preferida por
Pereira.
Ouvia-o Cesrio atentamente. S de vez em quando
deixava escapar esta
exclamao:
. Ah! mulheres!... mulheres!  a nossa perdio.
Depois que Cirino acabou de falar, encarou-o
detidamente e, com ar severo,
perguntou:
.Fale-me a verdade, doutor, o senhor nunca trocou
palavra com Inocncia?
Nunca esteve s com ela?
. Estive, respondeu o outro meio receoso.
As faces de Cesrio subiu uma onda de sangue.
.Ento, rouquejou ele, a desgraa...
.Deus meu, atalhou Cirino com fogo, caia a alma
de minha me no inferno, se
Inocncia no  pura... se...
Conteve-o Cesrio com um gesto.
.Basta moo: quem jura assim, no mente...
Tambm no meu tempo tive uma paixo
infeliz... e sei o que  sofrer..,
.Oh! Sr. Cesrio, salve-me!...
.Que posso eu fazer? No sabe o senhor que ela
hoje ho pertence nem mesmo ao
pai, ao seu prprio pai? Pertence a palavra de
honra, e palavra de mineiro no
volta atrs... No sabia o senhor disso, quando
deixou que o amor lhe entrasse
pelos olhos?... Mulheres no pensam... mulheres o
que querem  ver os homens
derretidos por elas... sacrificam tudo... e por um
requebro pincham na rua a
honra de suas casas ..
.No, protestou Cirino, ela no  assim...
.Ento  melhor que as outras? objetou Cesrio
com desdm.
.Sim, sim,  melhor do que tudo deste mundo.
Acima dela, s Nossa Senhora!
Ligeiramente sorriu o mineiro.
.Qual! observou ele, bem disse o outro: a paixo 
um transtorno. Fica um homem
que nem uma misria! . . .
.Ento? interrompeu Cirino.
.Ento o qu?... J lhe no disse quanto basta?
Minha afilhada pertence tanto a
Maneco, como uma garrucha ou um guampo
lavrado que Pereira lhe tivesse dado...
No h meios e modos de voltar atrs...
No desanimou o mancebo.
Falou por muito tempo com verdadeira eloqncia,
apelando principalmente para a
proteo que todo o cristo tem obrigao de
dispensar ao ente que leva  pia
batismal, a seu segundo filho, ao pagozinho por
quem o padrinho se torna
responsvel perante Deus.
Feriu o sentimento religioso do mineiro e comoveuo.
.No me fale assim, contrariou este, o senhor quer
ver se me puxa para o seu
lado... E quem me assegura que Nocncia gosta
tanto da sua pessoa?... Quem?
.O corao est-lho dizendo baixinho, respondeu
com calma Cirino. O senhor, que
 homem de honra, acredita que eu esteja
mentindo? Que tudo isso  falso?...
diga, acredita?
Cesrio tartamudeou:
.Sim... Assunto verdades, mas...
.Ah! exclamou Cirino, o Sr. sente a conscincia
bater-lhe que sua afilhada est
desamparada, que vai ser sacrificada... e agora
tapa os ouvidos e diz: No quero
ouvir, no quero cumprir a minha palavra! Por que a
deu ento o Sr. . . essa
palavra de honra de que tanto tala?... Nossa
Senhora que a proteja... que a tire
deste mundo .. Isso h de pesar-lhe no peito... e,
quando um dia tiver noticia
que Inocncia morreu de desgostos, h de dizer l
consigo que ajudou a cavar-lhe
a sepultura.
Estava Cesrio abalado; com verdadeira ansiedade
retorquiu:
.Que histrias me conta o Sr.? Eu metido no meu
canto... vivendo to
sossegado... no bulindo com ningum, e agora
anarquizado por estes mexericos! .
. . Quem o mandou vir c?
.Quem seria, retrucou Cirino, senso Inocncia?
Porventura eu o conhecia?...
algum dia o vi?... No; foi aquele anjo que me
disse: busca meu padrinho,  o ltimo recurso. Se
ele no nos amparar, ento...
estamos perdidos de uma vez.
Estas palavras convenceram de todo Cesrio.
Ficou em silncio, recolhido, a meditar; Cirino o
observava ofegante.
.Pois bem, disse por fim o mineiro em tom grave e
pausado, hei de pensar no que
o Sr. me conta...
.Oh! Sr. Cesrio!...
.Levarei dois dias a remoer sobre o caso... O que
disse uma vez, no digo
duas... No fim desse tempo, monto a cavalo e
apareo por casa de Pereira...
.Sim, sim, balbuciou o moo.
.Amanh mesmo, de madrugada, o Sr. sal daqui e
vai esperar-me na Senhora
Sant.Ana.
.Irei... salve-me...
Cesrio parou um pouco.
.Agora, quero que o Sr. me faa um juramento...
pelas cinzas de sua me.
.Estou pronto.
.Pela salvao de sua alma...
.Pela salvao de minha alma, repetiu Cirino.
.Pela vida eterna...
Cirino acenou a cabea.
. Jure!
O mancebo cruzou os dois ndices e beijo-os com
uno abaixando os olhos e
empalidecendo.
.O Sr., disse Cesrio, Jurou antes de saber o que
era... Deu-me boa idia do
seu carter... Farei tudo por ajud-lo, mas exijo-lhe
uma condio... Se quiser
aceit-la, fica valendo o juramento; seno... o dito
por no dito...
.Que ser, meu Deus? murmurou Cirino.
.E ficar o Sr. esperando em Sant.Ana. Se eu
aparecer por estes oito dias,
iremos juntos  casa do compadre. Se no,  que
decidi contrrio. Neste caso,
vir o Sr. at c e aqui esperar as suas cargas que
mandarei buscar. Ser sinal
de que nunca mais h de procurar botar as vistas
em Inocncia... nem sequer
falar nela. Aceita?
.Aceito, respondeu o moo com exaltao; mas
fique certo de uma coisa: se o
Sr., no tempo marcado, no estiver na vila, reze por
alma de Cirino, porque ele
ter deixado este mundo de aflies.
Cesrio meneou tristemente a cabea e retirou-se,
sem dizer mais palavra.
XXIX.RESISTNCIA DE CORA
Acasto.. No pode ela falar?
Osvaldo . Se falar  to-somente
fazer ouvir sons por
meio da lngua e dos lbios. e
aquela criatura muda; mas
se to maravilhosa faculdade
consiste tambm em tornar
compreensveis os menores
pensamentos por acionados e
expressivos gestos, pode dizer-se
que ela a possui, pois
seus olhos cheios de eloqncia
tm uma linguagem
inteligvel, embora falha de sons de
palavras.
Antiga Comdia Inglesa citada por Walter Scott
Deixamos Inocncia to abatida de corpo, quanto
resoluta de esprito.
Pressentia os choques que tinha de suportar, e
robustecia a alma na meditao
continua e firme de sua infelicidade.
Estava de joelhos diante da imagem de Nossa
Senhora, quando a voz de seu pai a
fez levantar.
.Nocncia! chamava ele.
Rapidamente passou a pobrezinha a mo pelo rosto
para apagar os vestgios de
copioso pranto, e com passo quase seguro penetrou
na sala.
Estavam Pereira e Maneco sentados junto  mesa.
O anozinho Tico aquecia-se aos
plidos raios de um Sol meio encoberto e, sentado
 soleira da porta, brincava
com umas palhinhas.
.Estou aqui, papai, disse Inocncia em voz alta e
um pouco trmula.
Encarou-a Maneco com ar entre sombrio e
apaixonado.
Julgou dever dizer alguma coisa.
.At que afinal a dona saiu do ninho... E que hoje
o dia est de sol, no ?
A moa nada lhe respondeu; fitou-o com tanta
insistncia que o fez abaixar os
olhos.
.Ela esteve doente, desculpou Pereira.
E voltando-se para a filha:
.Sente-se aqui bem perto de ns... O Maneco
quer conversar com voc em
negcios particulares.
. Bem percebe ela, observou o desazado noivo
intentando abrir o motivo para
risos.
Inocncia replicou em tom incisivo:
.No percebo.
.Est se... fazendo de... engraada, balbuciou
Maneco. Pois j... se
esqueceu... do que tratei com seu pai?... Parece
que comeu muito queijo.
Com a mesma entoao e cortando-lhe a palavra
retorquiu ela:
.No me lembro.
Houve uns minutos de silencio.
Acumulava-se a clera no peito de Pereira; seus
olhares irados Iam rpidos de
Maneco  imprudente filha.
.Pois, se voc no se lembra, disse ele de repente,
eu c no sou to
esquecido,
.Ora, recomeou Maneco levantando-se e vindo
recostar-se  beira da mesa para
ficar mais chegado  moa, faz-se de enjoada a
toa... o nosso casamento...
.Seu casamento? perguntou Inocncia fingindo
espanto.
.Sim...
.Mas com quem?
.U, exclamou Maneco, com quem h de ser...
Com mec...
Pereira fora-se tornando lvido de raiva.
O ano acompanhava toda essa cena com muita
ateno Cintilavam seus olhinhos
como diamantes pretos; seu corpo raqutico
estremecia de impacincia e susto.
A resposta de Maneco, levantou-se rpida
Inocncia e, como que acastelando-se
por detrs da sua cadeira, exclamou:
.Eu? .. Casar com o senhor?! Antes uma boa
morte!... No quero... no quero...
Nunca... Nunca...
Maneco bambaleou.
Pereira quis por-se de p, mas por instantes no
pde.
.Est doida, balbuciou, est doida.
E, segurando-se  mesa, ergueu-se terrvel.
.Ento, voc no quer? perguntou com os queixos
a bater de raiva.
.No, disse a moa com desespero, quero antes...
No pode terminar.
O pai agarrara-a pela mo, obrigando-a a curvar-se
toda.
Depois, com violento empurro, arrojou-a longe, de
encontro  parede.
Caiu a infeliz com abafado gemido e ficou estendida
por terra amparando o peito
com as mos. Mortal palidez cobria-lhe as faces e
de ligeira brecha que se
abrira na testa deslizavam gotas de sangue
Ia Pereira precipitar-se sobre ela como para
esmag-la debaixo dos ps, mas
parou de repente e, levando as mos ao rosto,
ocultou as lgrimas que dos olhos
lhe saltavam a flux.
Maneco no fizera o menor gesto. Exttico
assistira a toda essa dolorosa cena.
A fisionomia estava impassvel, mas, por dentro,
seu corao era um vulco.
Lgubre silencio reinou por algum tempo naquela
sala.
O ano chegara-se a Inocncia, tomando-lhe uma
das mos: depois, a fizera sentar
e, no meio de carinhos, mostrara-lhe por sinais a
necessidade de retirar-se.
A custo pde ela seguir aquele conselho. Quase de
rastos e ajudada por Tico 
que saiu da presena do pai e de seu perseguidor.
Nenhum movimento fizeram os dois para ret-la.
Calados como estavam, deixaram-se
ficar de p, um ao lado do outro, ambos
acabrunhados pela grandeza daquela
desgraa.
Com frenesi cofiava Maneco o basto bigode.
Pereira tinha a cabea pendida sobre o peito.
Afinal, exclamou:
. preciso que eu desembuche o que tenho c
dentro, seno estouro .. Quem for
homem que seja... Maneco, Nocncia para ns
est perdida... para ns, porque um
homem lhe deitou um mau-olhado . . . .E que
homem  esse? perguntou em tom
surdo e ameaador o outro.
.Agora vejo como tudo foi... Eu mesmo meti o
diabo em casa... Estive alerta...
mas o mal j caminhava.
.Mas, quem  ele? tornou a perguntar com
impacincia Maneco.
.Um maldito! um infame, um estrangeiro que aqui
esteve... Roubou-me o sossego
que Deus me deu...
Contou ento s pressas Pereira todas as
tentativas do alemo Meyer, tentativas
que haviam sido descobertas, mas que
infelizmente, pelo menos assim supunha, j
haviam produzido os seus danosos frutos.
.Ah! disse por fim abaixando a voz, pensou aquele
cachorro que tudo era namorar
mulheres e depois dar com os ps em polvorosa,
no ?... Amanh mesmo eu lhe
saio no rasto.
.Para qu? interrompeu Maneco.
.Respondam os urubus...
.Para mat-lo?
.Sim...
Houve breve pausa.
.No ser, o senhor, disse o capataz, que lhe h
de dar cabo da pele.
.Por qu?
. negcio que me pertence. O senhor  pai.,. eu
porem sou.,. noivo. Mangaram
com os dois... mas o alamo fica no cho.
.Pois seja, concordou Pereira, parta amanh
mesmo ou hoje... agora, se possvel
for. Co danado deve logo ser morto, para que a
baba no d raiva. V depressa e
venha contar-me que aquele homem j no existe...
Como velho, como pai...
abeno a mo que o h de matar. Cala o sangue
que correr... sobre os meus
cabelos brancos . . .
Havia toda esta conversa sido atentamente ouvida
por algum: o ano Tico.
Viera a pouco e pouco aproximando-se da mesa com
os olhos a fulgir.
De repente, colocou-se resolutamente entre
Maneco e Pereira.
.Que quer voc aqui? perguntou o mineiro com
aspereza. Comeou ento o
homnculo a explicar por gestos vagarosos, mas
muito expressivos, que de tudo
estava ciente, participando de todos os projetos e
do mesmo sentimento de
indignao e desespero que enchia os dois
ofendidos.
Depois, apressando mais a gesticulao e por sons
meio articulados, fez ver que
Pereira laborava em engano, to-somente quanto a
pessoa.
Com multa propriedade de imitao e perfeita
mmica, ora levantando o brao para
caracterizar as fisionomias, to exatamente
representou Meyer e Cirino, que o
mineiro logo os reconheceu.
.Bem sei, bem sei, Tico, murmurou ele. Voc fala
do doutor e daquele...
Ai o ano fez um gesto de negao e, apontando
para o quarto de Inocncia,
indicou que nada tinha ela com o alemo.
Ficaram pasmos os dois.
. Ento, balbuciou Pereira, quem ser?... Ci...rino,
meu Deus?!
.Sim... Sim! gritou o ano com violento esforo
abaixando muitas vezes a
cabea.
.Qual! protestou Pereira, o doutor?...
Com muita habilidade e segurana Tico desenvolveu
as provas que tinha.
Gesticulou como um possesso; correu para fora de
casa; denunciou as entrevistas;
reproduziu ao vivo todas as passadas de Cirino;
mostrou o lugar do laranjal
donde vira tudo, o galho quebrado em razo da sua
queda; repetiu o grito que
dera; lembrou a cena da madrugada, findando com
aqueles tiros; exprimiu-se por
sinais to adequados e tais movimentos de cabea
e fisionomia, que toda a dvida
desapareceu do esprito de Pereira.
Ento tudo se lhe descortinou claro e deslumbrante,
e sua clera subiu a um grau
de violncia inexprimvel.
Esteve a cair fulminado.
.Infame, murmurou roxo de ira, tu me pagas!
.Infame... Infame!
Depois voltando-se para Maneco:
.D-me esse... eu o quero...
Abanou o capataz a cabea.
. No, respondeu surdamente. Esse me pertence...
Caoou com o senhor... e fez
de mim chacota.
.Ento, disse apressadamente Pereira, parta
hoje... parta j . E quando voltar,
diga s: estamos desagravados... Inocncia ser
sua...
Parando um pouco. concluiu tomado de enleio:
.Se quiser aceit-la.
.Havemos de conversar,
Teve o mineiro uma exploso de desespero
.Meu Deus, exclamou com dor, em que mundo
vivemos nos? Um homem entra na minha
casa, come do que eu como, dorme debaixo do meu
teto, bebe da gua que carrego
da fonte, esse homem chega aqui e, de uma
morada de paz e de honra, faz um lugar
de desordem e vergonha! No, mil raios me
partam!... No quero mais saberque
esse miservel respire o ar que respiro. No! mil
vezes, no! E desde j enxoto
a canalhada que trouxe, gente do inferno como ele!
. . . Hei de cuspir-lhes na
cara. . . Pinch-los fora como ces que so!...
Ladres! .. Eu... Interrompeu-o
Maneco com calma:
.No faa nada... E preciso que ningum saiba do
que se est passando aqui...
Ningum!... percebe?
.E ento?
.Faa de conta que recebeu uma letra de Sant.Ana.
O cujo foi quem a mandou,
para que os camaradas o vo esperar no Leal...
Ouviu?
Pereira fez sinal de tudo compreender.
.Depois, acrescentou Maneco com voz sinistra,
mos a obra.
.Voc diz bem, retorquiu Pereira, tenha pena de
mim... Estou com esta cabea
corno um cortio de guaxups... E um zumbido!...
Mostre que j  dono desta casa
e faa como entender... Entrego-me de ps e mos
atados a voc... Tudo lhe
pertence... Enquanto a honra do mineiro no for
desafrontada .. no levanto o
rosto... Meu Deus, meu Deus, que vergonha! .
.Coragem, coragem, aconselhou o outro.
.Se este socavo no chegar para esconder minhas
misrias... mudo-me para as
bandas do Apa... Parece que vou morrer... sinto
fogo dentro da cabea...
E, vencido pela emoo, encostou a testa  mesa,
deixando cair os braos.
Bateu-lhe Maneco no ombro.
.Que  isso, meu pai? animo! De que serve ser
homem?... Olhe cara a cara a sua
desgraa... que tambm  minha. No o consola a
certeza de que aquele homem
brevemente...
.Sim, replicou Pereira levantando a cabea e
reparando que o ano se retirara,
mas que faremos deste tico de gente, que sabe
tudo ?
.No o deixe sair mais de casa.
.Qual!...  que nem muu. Quando a gente mal
pensa, surge no Sucuri e at no
Corredor.
.Pois bem... Ficar sabendo que... um s piscar de
olho... pode sair-lhe
caro... muito caro.
.Ento implorou Pereira, v quanto antes limpar o
meu paiol daquela gente v...
Se eu pudesse ainda dormir... esquecia um pouco,
mas .
Com estas palavras retirou-se a custo o mineiro.
Incontinenti foi Maneco despachar os camaradas
de Cirino, os quais, pouco
depois saiam com destino  casa do Leal.
Em seguida, montando o tropeiro a cavalo, partiu
em carreira desapoderada para a
Vila de Sant.Ana do Paranaba, onde chegou alta
noite.
XXX.DESENLACE
Esto contados os gros de areia
que compem a minha vida.
 aqui que devo tombar.  aqui que
ela h de acabar.
Shakespeare, Henrique V, Ato 1
Eis que vi um cavalo amarelo, e
quem o montava, era a
morte.
So Joo, Apocalipse
Durante trs dias, foi Cirino rigorosamente
espreitado pelo noivo de Inocncia.
Com a cautela prpria dos seus hbitos esquivos,
soube Maneco acompanhar-lhe
todos os passos sem ser pressentido.
Assim notou que o rival montava a cavalo e ia at
certo ponto da estrada como
que esperar por algum que no chegava. Na ida,
mostrava impacincia e
inquietao; na volta vinha melanclico e curvado
sobre si mesmo, absorto em
fundo meditar.
Ia o infeliz mancebo ao encontro de Cesrio; mas
este no aparecia.
Estava quase expirado o prazo combinado, e
prestes a soar a hora do completo
desengano.
Oh! se ele pudera!... Agarraria com foras de Josu
esse Sol que lhe marcava os
dias e o deixaria imvel, at que o seu salvador se
resolvesse a estender-lhe a mo.
E j ia findando a semana!...
Completo o crculo de horas, se Cesrio no
aparecesse, comeava a imperar o
juramento que dera, irrevogvel, implacvel!
.Matar-me-ei, dizia Cirino; ficaro sabendo que
no menti s minhas palavras.
Nessa firme resoluo saiu da vila; passou o Rio
Paranaba e, como costumava,
caminhou pela estrada de So Francisco de Sales,
talvez trs lguas. Contava
pousar por aqueles stios de modo que alongava o
seu passeio.
Claro era o dia; lindo: Por toda parte cantavam mil
pssaros. Gritavam as
gralhas nos cerrados; piavam as perdizes no relvoso
cho.
Cirino ia multo agitado. Nada ouvia; os seus olhos,
fitos sempre na frente,
buscavam na estrada, ansiosos, o vulto de um
cavaleiro.
Soou-lhe de repente aos ouvidos o tropel de um
animal.
Algum vinha a galope.
Seu corao pulsou que parecia ter entrado tambm
a galopar.
Mas o som partia de detrs.
Sem dvida, algum viajante vindo da vila.
Continuou Cirino na vagarosa marcha.
O estrupido vinha indicando carreira folgada e que
breve consigo estaria
emparelhando, quem extravagantemente em hora
to imprpria corria  desfilada.
O mancebo de nada cuidava, tanto que mal reparou
que algum a trote largo
passara por perto de si, quase a rogar animal contra
animal.
Dali a pouco, novo galope se fez ouvir.
Parecia que o mesmo cavaleiro havia dado de
rdeas, cortando o rumo que levava.
Dessa vez, porm, Cirino acordou do letargo,
esporeou vigorosamente a sua
cavalgadura e... esbarrou com Maneco.
Instintivamente empalideceu. O outro estava
tambm muito descorado.
Estacaram eles os animais e fitaram-se alguns
minutos, de um lado com
desconfiana e pasmo, de outro com mal
concentrado furor.
.Patrcio, interpelou por fim o capataz em tom
provocador, que faz mec por
aqui?
.Eu? perguntou Cirino.
.Nhor-sim, mec mesmo.
. boa... viajo.
.Ah! viaja! replicou Maneco. Ento  andejo?
.Andejo, no, contestou Cirino com fora. No sou
nenhum bruto.
E por preveno levantou a capa do coldre em que
havia uma pistola, fazendo
meno de a sacar.
.No ser andejo, continuou o capataz, mas ento
o que ?
.Sou o que sou, no  da sua conta.
Contraiu-se o rosto de Maneco.
De um tranco chegou o cavalo bem junto a Cirino e
disse-lhe em voz surda:
. um ladro...  um cachorro! .
A esse insulto, puxou Cirino a pistola.
.Mato-o j, bradou com violncia se continua a
destratar-me.
Sorriu-se o capataz com desprezo.
.Gentes, observou cuspindo para um lado, vejam
s que valento... E sabe
manejar garrucha!...
.Acabemos com isso, gritou Cirino.
.Acabemos, retorquiu Maneco com fingida calma.
.Mas quem  o Sr.? perguntou Cirino.
.Eu?
.Sim!... sim!...
.Ento no me conhece?
.No, balbuciou Cirino.
.Conhece Nocncia? uivou Maneco com voz
terrvel
E de supeto tirando uma garrucha da cintura,
desfechou-a  queima-roupa em
Cirino.
Varou a bala o corpo do infeliz e o fez baquear por
terra.
Dois gritos estrugiram.
Um de agonia, outro de triunfo.
Ficara Cirino estendido de bruos. Reunindo as
foras, que se lhe escapavam com
o sangue, voltou-se de costas e prorrompeu em
vociferaes contra o inimigo, que
o contemplava sardnico.
.Matador!. vil! .. sim! .. conheo Inocncia... Ela 
minha .. Infame! ..
Mataste-me... mas mataste tambm a ela!... Que
te fiz eu?... Deus te h de
amaldioar... sim, meu Deus, meus Santos ..
maldio sobre este assassino...
Foge, foge... minha sombra h de seguir-te
sempre...
.Melhor, interrompeu Maneco do alto do cavalo,
isso mesmo  0 que eu quero.
.Ah! queres? continuou Cirino com voz
rouquejante, no ?... Pois bem!... De
noite e de dia... minha alma h de estar contigo . .
sempre, sempre! . . .
Calou-se por um pouco e, revolvendo-se no cho,
passou a mo pela testa.
Lentejava-lhe dos poros o suor frio e visguento da
morte.
Foi seu rosto abandonando a expresso de rancor; a
respirao tornou-se-lhe mais difcil
.No murmurou com pausa e gravidade, no quero
morrer... assim. Devo sair desta
vida... como cristo... Hei de saber perdoar... E
reunindo as foras,
acrescentou com uno e energia: Maneco... eu te
perdo... por Cristo... que
morreu... na cruz, para nos salvar... eu te perdo
Nosso Senhor tenha pena de
ti... Eu te perdo, ouviste?
A medida que o moribundo pronunciava estas
palavras, esbugalhara Maneco os
olhos de horror com o corpo todo a tremer.
.No quero o teu perdo, bradou ele a custo.
.No importa, respondeu-lhe Cirino com voz suave.
Ele ... dado do fundo
d.alma... Cata sobre tua cabea...
Quero, quero morrer como cristo... Que me importa
agora o mundo, a vingana...
tudo?... s Inocncia!... Coitada de Inocncia...
Quem sabe... se... ela... no
morrer? Maneco, d-me gua. gua pelo amor de
Deus! . . . Desce do cavalo,
homem. . .  um defunto que te pede... Desce!...
E com os braos erguidos acenava para Maneco.
.gua, bradou o mancebo forcejando por levantarse,
d-me gua... eu te dou a
salvao...
Sentia o capataz escorrer-lhe o suor dentre os
cabelos. Queria fugir e no
podia. Parecia que os seus olhos tinham de
acompanhar passo a passo a agonia da
sua vitima. Aquela cena, se lhe afigurava um
pesadelo, e completo torpor lhe
tolhia os membros.
Tirou-o desse enleio o bater das patas de um
animal que vinha pela estrada a trote.
Ouvira tambm Cirino o estrupido e arregalara com
ansiedade os olhos.
Desabrochou-lhe nos lbios um sorriso de acre
tristeza.
Algum vinha chegando.
Esporeou Maneco com vigor o cavalo e, levantando
uma nuvem de poeira,
desapareceu num abrir e fechar de olhos.
Nisto assomava um cavaleiro numa das voltas do
caminho.
Era Antnio Cesrio.
Vendo um homem estirado por terra apressou o
passo.
. O doutor?! exclamou apeando-se rapidamente e
todo horrorizado.
.Eu mesmo, respondeu Cirino com voz fraca.
.Mas, quem lhe fez este dano, santo Deus?
E correndo para o moo ajoelhou-se junto dele e
levantou-lhe o corpo.
.Quem foi o assassino?
.Ningum, rouquejou o msero, foi... destino...
Morro contente... D-me gua ..
e fale-me de Inocncia...
.gua? exclamou Cesrio com desespero, aqui no
meio do cerrado?... O crrego
fica a trs lguas pelo menos...
.Ah! replicou Cirino meio desvairado, se no h...
com que estancar a sede do
corpo... estanque a... da alma... Inocncia... onde
esta? quero v-la...
Diga-lhe que morri... por causa dela...
.Mas, quem o matou? bradou o mineiro.
.No vale a pena diz-lo, respondeu o mancebo
entre gemidos. Cuide agora... s
de mim... Olhe nunca fui mau... no tenho pecados
.. grandes... Acha que Deus
me... h de perdoar?
. Acho, respondeu Cesrio com fora ..
.Que fiz eu... na minha vida? Talvez... enganasse
os outros... dizendo que era
.. mdico... Mas tambm curei alguns . De nada
mais me recordo . . . Ah! sim . .
. uma divida de honra . . . Na minha carteira... h
uns seiscentos mil-ris;
pague... trezentos -ao Tot Siqueira, da vila; de...
cinqenta mil-ris. a cada
camarada... meu... o mais... distribua.. todo...
pelos pobres, sobretudo...
morfticos... depois das .. missas... que por mim...
mandar... rezar...
ouviu?... ouviu?
Fez o mineiro sinal que sim.
Vinha a morte desdobrando as suas sombras no
rosto de Cirino. Ia-se-lhe
empanando o brilho dos olhos; ficara a lngua
trpega, afilara-se-lhe o nariz e
sinistro palor mais realava a negra cor dos seus
cabelos e barbas.
Sentara-se Cesrio no cho para segurar com mais
jeito o corpo do moribundo.
Duas lgrimas vinham-lhe sulcando as msculas
faces.
Ligeiro estremecimento agitava o corpo de Cirino.
.Agora, acrescentou com voz muito sumida,
chegou... o meu dia... Mas... eu lhe
peo... nada diga...  sua afilhada... No consinta...
que case com... Maneco.
.Ento, interrompeu Cesrio, foi ele quem?...
.No, no, contestou Cirino, mas... ela havia de
ser... infeliz... Ouviu?
Promete-me?
.Prometo, respondeu Cesrio com firmeza. Juro
at...
.Pois bem, suspirou o agonizante, agora...
agradeo a morte. Quero apegar-me...
s Santas do Paraso... e chamo por...
E com esforo, no ltimo alento, murmurou mais e
mais baixo:
.Inocncia!
Na tarde deste dia, o viajante que passasse por
aquele sitio poderia ver uma
cova coberta de fresco, sobre a qual se erguia uma
cruz tosca feita de dois
grossos paus amarrados com cips.
Eram mostras da caridade do mineiro Antnio
Cesrio
EPLOGO.REAPARECE MEYER
Possu-te do justo orgulho e coroem
os louros de Apolo tua
cabea.
Horcio
No dia 18 de agosto de 1863, presenciava a cidade
de Magdeburgo pomposo
espetculo, h muito anunciado no mundo cientfico
da sabia Germnia.
Era uma sesso extraordinria e solene da
Sociedade Geral Entomolgica, a qual
chamava a postos no s todos os seus membros
efetivos, honorrios,
correspondentes, como muitos convidados de
ocasio, a fim de acolher e levar ao
capitlio da glria um dos seus mais distintos
filhos, um dos mais infatigveis
investigadores dos segredos da natureza, intrpido
viajante, ausente da ptria
desde anos e de volta da Amrica Meridional, em
cujas regies centrais por tal
forma se embrenhara, que impossvel havia sido
seguir-lhe o roteiro, at nos
mapas e cartas especiais do grande colecionador
Simo Schropp,
Revestira-se de mil galas a cincia. Todos os scios
de casaca preta, gravata e
luvas brancas alguns com discursos nos bolsos,
enchiam a sala das sesses muito
antes da hora marcada; a orquestra executava a
sonata n 26 de Ludwig van
Beethoven, e senhoras ostentavam toilettes ricas e
de aprimorado gosto.
De repente atroou um grito:
.Vivat Meyer! Hurrah! Vivat! Hoch! Hoch!...
E, ao passo que todos os pescoos se estiravam
para ver quem entrava sacudiam-se
no ar com entusiasmo lenos e chapus.
Acalmada a ruidosa manifestao, levantou-se o
presidente da Sociedade
Entomolgica, um presidente magro como um
espeto e ornamentado de ruiva
cabeleira que lhe dava o aspecto de um projeto de
incndio.
.Sim! exclamou ele depois de ter bebido uns goles
d.gua aucarada e de haver
preparado a garganta; eis enfim, aqui, no meio de
ns, o grande, o vencedor, o
incomparvel Guilherme Tembel Meyer! . . .
E neste gosto falou duas horas seguidas
No dia seguinte, traziam as gazetas de Magdeburgo
extensa relao da festa,
transcreviam o discurso do presidente e, como
apndice s notas biogrficas
relativas a Meyer, enumeravam os prodgios
entomolgicos que havia recolhido em
suas dilatadas peregrinaes.
.O que h de mais digno de admirao, dizia O
Tempo (Die Zeit), em toda a imensa
e preciosssima coleo trazida pelo Dr. Meyer das
suas viagens,  sem
contestao uma borboleta, gnero completamente
novo e de esplendor acima de
qualquer concepo.  a Papilo Innocentia...
(Seguia-se uma descrio de
minuciosidade perfeitamente germnica).
.O nome, acrescentava a folha, dado pelo eminente
naturalista quele soberbo
espcime foi graciosa homenagem  beleza de uma
donzela (Mdchen) dos desertos
da Provncia de Mato Grosso (Brasil), criatura,
segundo conta o Dr. Meyer, de
fascinadora formosura. V-se, pois, que tambm os
sbios possuem corao
tangvel e podem por vezes, usar da cincia como
meio de demonstrar impresses
sentimentais de que muitos no os julgam
suscetveis..
* * *
Inocncia, coitadinha...
Exatamente nesse dia fazia dois anos que o seu
gentil corpo fora entregue 
terra, no imenso serto de Sant.Ana do Paranaba,
para a dormir o sono da
eternidade.

